Algumas máximas cínicas sobre o amor (mas nem por isso menos verdadeiras)

1 – Denegue o quanto quiser, diga que no seu caso vai ser diferente, finja que o seu amor é especial, não importa. O fato é que Renato Russo não estava brincando: “Pra sempre, SEMPRE acaba.”.  Eventualmente a vida de umas das partes termina antes, mais isso não invalida o axioma, e nem é propriamente uma vantagem, exceto talvez em pactos suicidas.. é… bem… então, não é propriamente uma vantagem.

2 – Presta atenção porque isso é importante: PESSOAS NÃO MUDAM. Elas crescem, melhoram, aprendem a suprimir defeitos e iluminar qualidades às custas de muita força de vontade, mas tecnicamente? Não mudam. A ilusão de transformar alguém em um ser humano melhor pode ser morna e alentadora, mas é o que é, uma ilusão, e lá no fundo está tudo ainda ali, como era no estado bruto em que o amor nasceu. Logo, use parcimônia e moderação caso precise agitar antes e usar…

3 – Levando em conta o acima, nunca ame APESAR DOS defeitos, e nem se permita ser amado dessa forma. O único amor minimamente viável (embora sempre acabe) é o amor COM , não apesar, mas COM os defeitos. Mas saiba que é raro amar assim. A prepotência humana sempre tenta invalidar as máximas 1 e 2, e na ilusão de ser pra sempre, tenta a cartada da transformação pelo amor.

4 – Ainda sobre o amor COM e não apesar dos defeitos, a recíproca precisa ser condição sine qua non. Se você ama alguém, com todos os defeitos que esse alguém possui, e é amado apesar dos seus defeitos… bem…. Abandone todas as esperanças e bem vindo ao inferno de Dante.

5 – Não faça pelo outro, para alegrá-lo e honrá-lo, nada que você não se empolgue em fazer independente do outro por você mesmo. Quando o amor acabar (e salvo o caso de você acabar antes, ele IRÁ acabar), qualquer sacrifício que tenha sido feito em seu nome, por maior e mais impressionante que seja, será tão útil a título de consolo como mais areia no deserto…

6 – O amor não enche barriga. Não paga as contas. Não tapa as goteiras. Não resolve problemas. O amor e a vida real se misturam igualzinho água e óleo. Isso não precisa ser uma questão, mas é, queira ou não, um fato. Trate a vida e o amor como entidades separadas sempre que possível…

7 – Então, né? Amor não enche barriga, e na construção semântica metafórica – e estranhamente literal – em que o faz, não se esqueça dos tópicos anteriores, porque o que está em sua barriga, é na prática mais uma barriga a encher e mais uma conta a pagar, e ainda assim, não merece a culpa e o sofrimento causado pelo seu entendimento pobre e limitado sobre a natureza do amor.

8 – Tenha sempre um plano B,C,D,E,F,G…. Desfie o alfabeto em planos se conseguir. Se recuse peremptoriamente a sequer se levantar da cama se não tiver pelo menos um plano alternativo passado e repassado na sua cabeça. Acredite, a última coisa que você quer ou mesmo merece é estar de coração partido e sem perspectivas.

9 – Não importa o quão perspicaz você ACHE que é, em se tratando de ler almas, quanto mais perto, maior a distorção. E nem tem haver com a história de que de perto ninguém é normal. Ninguém é normal, e pronto, mas quanto mais perto você estiver, menos você entenderá do panorama geral… O amor da sua vida que você inocentemente acha que conhece como a palma da sua mão, quando o amor acaba vira imediatamente o estranho com quem você dividia sua cama. É inevitável, mas apenas uma pequena falácia para encobrir a imensa incoerência entre antes e depois do fim do amor : O amor da sua vida nunca optaria ou se permitiria lhe ferir assim, e quem lhe fere assim nunca seria o amor da sua vida…

10 – Nem só de Renato vivemos, então ouçamos Caetano. Amar o amor é construir dulcíssima prisão. Dulcíssima, eu disse, mas não obstante, prisão. Faça o que fizer, mas nunca, NUNCA, jogue as chaves fora…

11 – Amor não é só Eros. É Philo e Ágape também. A mistura desses 3 lhe dará a viagem, o barato da sua vida, mas como toda droga, vicia, tem efeitos colaterais e vida útil no organismo… E a PIOR  crise de abstinência ever. Para piorar, Eros – Philos – Ágape são igualmente amor, mas tem seus próprios ritmos, histórias e percursos preferenciais, então mesmo no caso do amor que perdura mais que a vida (e Eros é o único propenso a paixões meteóricas, então, a tendência é que Philos e Ágape durem mais), raramente esses 3 permanecem unidos como um só por tempo o suficiente para lhe satisfazer e alimentar seu vício. Prepare-se então para dias difíceis na reabilitação…

12 – Como disse, Amor não é só Eros, mas Philo e Ágape também, e sobre eles também incorrem os itens acima, com a vantagem de que Philo e Ágape são mais propensos a amar com os defeitos e não só apesar deles. Entretanto, são formas de amor menos exclusivas e excludentes que Eros, e podem não preencher totalmente esse vazio, defeito de fábrica, que os humanos possuem e cismam em preencher com amor. Nesse caso, sugiro considerar a ilha deserta. E cachorros. Sim, muitos cachorros, uma das poucas formas de vida que possuem amor que dura até a morte, ignoram todos os seus defeitos e são devotados a  você incondicionalmente…

Em tempo, é bom lembrar que justo pelo acima, chamar seu ex de cachorro é uma inverdade e uma impossibilidade. Ele definitivamente não seria Ex se cachorro fosse.

— Escrito em plena madrugada ao som de uma orquestra imaginária tocando Esses moços (Pobres moços) de Lupicínio Rodrigues. Se existe algo mais chato, neurótico, amargo e proselitista que  ex-fumante, definitivamente é o ex-amante…

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3 comentários sobre “Algumas máximas cínicas sobre o amor (mas nem por isso menos verdadeiras)

  1. Há alguns dias não entro no gmail (também, ando fazendo arte) e, confesso que não me surpreendi ao ver, não só a quantidade, mas a qualidade dos textos que vc tem escrito. Ao meu ver , isto acontece porque a criatividade, certamente, mantêm uma aliança secreta com o sofrimento e, quando este se torna insuportável, ela entra em ação, imediatamente, clareando assim, os caminhos de quem está perdido, ao mesmo tempo que presenteia, sobremaneira, quem tem a oportunidade de contemplar o produto final.
    Parabéns!
    Um grande abraço!

    1. Ok … modo vamos debochar da propria vida on – Muito me alegra que minha dor lhe tenha alguma utilidade… – modo vamos debochar da propria vida off….

      Mas fato, tem que sair por algum lugar, para algum lugar. Dentro já não cabe mais. Enquanto não fingimos que é dor a dor que deveras sentimos, ela é impronunciável e debilitante. E o que não ganha o mundo corrói a alma… Em tendo dito isso, gosto de escrever, gosto muito de escrever. Sou extremamente crítica com o que escrevo e a maioria nunca vê a luz do dia. Eventualmente gosto do conteudo apesar da forma, ou da sonoridade apesar do conteúdo, e publico. Só em tempos como esse sou capaz de gostar da forma e do conteúdo, talvez justamente porque é algo que não está mais em mim, está fora, e isso é sempre um alívio. De qualquer forma, gostaria de tamanha proficuidade em tempos melhores, mas aceito o que me é dado, e na falta de coisa melhor, escrevo. 😛

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