Algumas máximas cínicas sobre a comunicação (aplicadas ao amor, e igualmente verdadeiras).

A cerca do texto anterior [Algumas máximas cínicas sobre o amor (mas nem por isso menos verdadeiras) ], foi levantado que talvez, o grande problema do amor seja a falta de comunicação, as verdades caladas, as meia-verdades ditas fora de contexto, o silêncio tácito onde eu finjo que entendi e você finge que falou e vice-versa… Talvez. Mas há que se entender sobre a comunicação também, falácia ainda maior que o tal do amor (o de fato, e o do Jay Vaquer também… embora vencer ou perder nesse jogo nada tenha haver com o esforço investido…)

1 –  Toda comunicação É ruído. Veja bem, eu não estou dizendo que toda comunicação tem ruído, isso é obvio. Ruído é o que dificulta a compreensão, é o que não é parte da mensagem mas se associa a ela durante a transmissão. Máquinas, programadas para aquele fim, o de transmitir uma mensagem, possuem ruído. Seres humanos… seres humanos SÃO ruído. Vamos esmiuçar isso já já, mas pra resumir a situação, George Bernard Shaw dizia: “O maior problema com a comunicação é a ilusão de que ela foi alcançada.”

2 – Nossa formação social é gregária, mas nosso desenvolvimento pessoal é individual. A percepção de mundo é sempre exclusivamente do sujeito que o percebe, e para comunicar essa percepção ao outro o único instrumental é a palavra, palavra essa que tem seu possui significado que também depende da visão de mundo que se tem. Amor pra mim é provavelmente muito diferente do que é amor para você. Quando se ouve “eu te amo” a idéia é uma, a realidade, outra. O que é dito é “eu te amo segundo os meus parâmetros de amor” e o que é ouvido é “Eu te amo assim como você me ama”. A palavra, lamento informar, às vezes complica mais do que comunica.

3 – Ao conversar, excetuando a confusão inerente do significado único que cada ser atribui à palavra dita, ocorre um choque de realidades, de visões de mundo.  Começamos, a razão da conversa em si, atribuindo um significado que é NOSSO à ação do outro. Tal ato, segundo nosso ponto de vista, é desamor, irresponsável, frio, pouco acolhedor, desrespeitoso, nomeia aí. Fora os poucos casos em que a percepção e o real se tocam tangencialmente, o outro, por um ato que nenhum significante havia sido imprimido, se sente agredido pessoalmente, porque lhe é imputado uma intenção que inexistia, e tal imputar implica em desconhecimento da alma e quebra na confiança e ele então protesta com as palavras que julga apropriadas e são ouvidas segundo outro paradigma e …. oh oh… Cada palavra dita está mais longe da suposta comunicação.

4 – A única forma de amor que sobrevive a este choque de realidades é Ágape. Eros é o amor romântico e sexual, que se ancora na imagem que temos do outro. Se o outro parece pensar (e às vezes nem pensa, mas atribui outras palavras aos mesmos pensamentos e é o que basta para a não-comunicação) diferente do que acreditamos que deveria pensar, o amor esfria.  Philos é a amizade, que muito provavelmente se fia em uma visão de mundo parecida, gostos intelectuais ou emocionais semelhantes, experiências marcantes compartilhadas. Philos costuma ser um pouco mais resiliente aos problemas da comunicação, já que se ama uma faceta do sujeito e não necessariamente ele por inteiro, e desde que a razão da amizade, o ponto em comum, continue intocável, tudo fica bem. Mas se o choque de perspectivas se dá no que nos aproxima, ou revela outra faceta que nos seja insuportável, também o amor esfria e morre. Uma vez que Ágape é o amor incondicional, há nele algo que dispensa a comunicação, ou resiste ao ruído. A não-compreensão costuma ser passageira, fruto das nossas próprias neuroses, mais do que do que é dito ou feito pelo outro, pois no fundo, o amor independe do que o outro faz ou diz ou mesmo pensa. Os mais místicos podem atribuir uma espécie de link emocional que não só dispensa as palavras – o outro sabe – como sobrevive a elas – não era o que eu pensava, mas… Mas há todos os poréns sobre Ágape: é raro, é não-exclusivo, tangencia a sua vida, não torna o objeto de amor algo à sua disposição, não preenche todos os espaços da sua vida, não dá pra abusar…  Fique feliz só dele existir, e lamba os beiços…

4 – A experiência confirma a existência do choque de realidades, logo, certos assuntos, até de forma inconsciente, vão se tornando tabu. Em um misto de medo, desejo de não incomodar e sacrifício em prol do outro, se aprende a relevar. Relevar é “deixar pra lá”. Fazer de conta que não viu, fingir que não é importante, evitar o conflito. O problema é que nunca conheci ninguém que não guardasse notas promissórias na gaveta, garrafas vazias sob a cama ou esqueletos no armário. O que se releva não se esquece. Apenas se releva. E há de se voltar contra si.

5 – Como disse, Ágape é raro. Não há muitas almas gêmeas, realmente gêmeas, a quem se aplica amar incondicionalmente e se comunicar sem falar (ou não se precisar comunicar). Mas a idéia é romanticamente atrativa, e imputada ao amor romântico e a amizade, sem existir de fato. Alias, Ágape raramente se associa ao amor romântico que pressupõe amor à idealização do objeto mais do que amor a este objeto. Mas quem não quer achar que encontrou sua outra metade da maçã?   Assim, quando surge a necessidade da conversa, e o choque de realidades, o tombo é magistral: como assim o outro não me conhece? Como assim eu não o conheço? Então mais do que pra evitar o atrito e o conflito, se tenta evitar a decepção. Não quero conversar, porque a resposta/reação/idéia do outro pode ser a que eu não quero, mas eventualmente espero… Melhor fingir que a comunicação já se deu. Que o outro sabe. Que o outro entende…

6 – Somos naturalmente prepotentes. Acreditamos que há uma correlação 1 a 1 entre nossa realidade e a … realidade.  Se algo é o que eu vejo, me é impossível compreender que possa ser visto de forma diferente. Esse conceito, aplicado ao amor romântico que, como disse, pressupõe idealização do outro como extensão de si (todas as qualidades que se tem ou se anseia, nenhum dos defeitos que se tem ou se teme), inviabiliza a comunicação. Durante o discurso, no momento que o outro ousa refutar ou mesmo ponderar, parece que mente. Parece que tenta nos enganar. Que intencionalmente nos fere. Que está tentando virar a mesa e transformar vilão em mocinho. Ambos acabam em posição defensiva, e nada é dito, ou tudo é dito, mas nada é comunicado.

7 – Pensamento e sentimento são entidades separadas que se cruzam entre si. Palavra é o encontro do que vai por dentro, da intenção da comunicação, com o significado. Racional e emocional pertencem a esferas tão diferentes que quando se tenta traduzir ambas com as mesmas palavras, o resultado é desastroso. É preciso dizer que não se está feliz, mas a mágoa intrínseca nessa situação transforma o apelo “Por favor, me faça feliz” em “Você não serve para me fazer feliz.”. Transforma o “Eu te amo, então não me magoe” em “Eu não te amo porque você me magoa”. Transforma o pedido em acusação, a dor em arma,  a surpresa em ódio, o amor em descaso. Talvez no momento em que se pensa, e se sente, já seja o fim, não anunciado mas de fato. E é só uma questão de se dizer antes, ou depois, mas não de alteração do resultado pela comunicação.

8 – Pessoas deveriam viver sempre no seu máximo, seja qual for esse máximo. Pessoas deveriam constantemente se desafiar e se esforçar para serem felizes, e gerar felicidade para quem os cerca. Mas pessoas deveriam sempre ser autenticas e fieis a si mesmas. Sempre.  Quando se comunica uma dor/mágoa/perda/dúvida, talvez se coloque o outro na situação impossível de ser ele mesmo, e sua própria natureza gerar a dor/mágoa/perda/dúvida, ou se enquadrar, se adaptar, se subjugar em nome do amor. Porque o esforço já vinha sendo feito, e saber da nossa incompetência em gerar felicidade não deveria fazer diferença, exceto se o vício no amor seja tão absurdo a ponto de nos transformar em quem não somos. E nesse caso, seremos nós os infelizes a cobrar do outro o que ele não tem pra nos dar. Então a comunicação, quando envolve mais que as idiossincrasias cotidianas, talvez seja mesmo o fim de todo e qualquer amor romântico.

9 –  A comunicação é uma falácia. Para estabelecer nossa condição gregária, nos contentamos com um simulacro de comunicação, e eventualmente, mensagem é separada de ruído e nos compreendemos minimamente. Ou achamos que compreendemos. E talvez nunca iremos saber se entendemos ou não… A postura tácita e a palavra dita podem levar ao mesmo lugar, o de descobrir que havia uma mensagem, mas por alguma razão, ela não chegou a nós.  A palavra, só a palavra, não é garantia de entendimento.

10 – As vezes, só as vezes, não há nada o que comunicar…  É só a velha história: pra sempre, SEMPRE acaba.  Ao que humildemente eu me reservaria o direito de pedir por sinais, pela ilusão do poder decisório, pelo esgotar de todas as possibilidades e até, mesmo sem acreditar na sua eficiência, no uso da comunicação entre as partes… É, me reservaria. Mas também gostaria da fé na possibilidade de transformar em um livro aberto onde a palavra dita diria e a comunicação seria possível. Infelizmente, não temos tudo que queremos.

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