Pequeno conto de pseudo-terror ou A vida é um roteiro inverossímil.

Olhou para trás. Nada. Uma bruma densa que impedia discernir as formas, pequenos fachos de luz parecendo flutuar sobre o chão mal-iluminando o que foi outrora. Lampejos de reconhecimento. Déjà vu. Os tais fachos de luz se movendo, releituras do real. E entre ela e a bruma, um precipício recém aberto, ainda quente, em franca formação.

A mão abriu-se para o lado em reflexo, e nenhuma outra mão ela encontrou.  A voz, gasta e rouca, proferindo pequenos ecos de reconhecimento. Alguém aí, nem aí, aí, aí. A voz retornando em pedaços, fragmentos, também ela memórias. Mas o coração era morno. Lembrança de se sentir amada. Lembrança de ser querida. Lembrança de ser desejada. Arriscou um passo, cambaleou para trás, e sentiu o medo do abismo abissal que olhava de volta, com olhos de fome. Vem. Vem. Vem.

Se equilibrou novamente, e olhou para baixo. Arbustos. Trepadeiras. Garras vivas. Algemas naturais se enroscando em suas pernas, a puxando para trás. De onde vieram? Porque a queriam? Tentou se livrar. Se feriu. A dor agora física era um grito em silêncio, mas também prova de vida. Estou viva – Ela pensou – ou a morte é só o prolongamento da dor. Livrou-se das amarras como pode, à custa de parte de si, corpo em carne viva, mas livre. E o único caminho possível era em frente. Sempre em frente.

Olhou então para frente. Nada. Nem bruma, nem réstia de luz. O mais profundo e avassalador breu. Esticou a mão, não podia mais vê-la. O próximo passo seria um salto no escuro, uma prova de fé. Era o único caminho, mas talvez não houvesse nada lá. Talvez houvesse outro abismo. Ou não. Respirou profundamente. Voltou a esticar a mão.

Sentiu a sensação de esbarrar em outra mão. Humana. Morna. Viva. Fechou a mão tentando alcançar a sensação, mas segurou o ar. Parecia tão real. Tão próxima.

Fechou os olhos para enxergar melhor no escuro. Nada viu. Mas ao longe ouviu uma voz indicando o caminho. Sentou seguir o som. Tropeçou. Caiu. Levantou… Olhou novamente. Nada. De olhos abertos. De olhos fechados. Nada. Só a voz exigindo a confiança incondicional. Prosseguiu nos passos trôpegos, as quedas, as feridas, o reerguer.

E a voz foi se afastando, talvez esperando ser seguida. Talvez simplesmente indo embora. Pra onde? Ela perguntou. Pra onde?

Sem resposta. Nem eco. Nem nada.

Olhou para trás. As luzes fugidias e inalcançáveis a um abismo de distância. Olhou para frente, o breu da noite olhando de volta. As plantas se enroscando novamente em seus pés. O frio. O sono. O cansaço. O medo. O fim.

Reza a lenda que então ela deixou de existir. Virou ela mesmo um eco do que foi. Mas há quem diga que ela ainda está lá, no mesmo ponto entre o foi e o será, esperando um amanhecer que nunca aconteceu.

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