Pensamentos Aleatórios

A palavra.

Palavra. Inútil. Vazia. Despida pelo uso. Vício de verborragia.

Quando eu era menina moça, vestida de possibilidades e flores no cabelo em distonia que não era distonia (e um hábito, já vivo naqueles idos, talvez de vidas passadas de inventar sentidos novos para palavras velhas…), escrevi sobre a palavra que uma vez dita, dissesse.

Antes disso, mente em formação e combustão, e coração que pecava (e sempre pecou) por empatia descabida, quis usar uma palavra em protesto e a descobri vazia. Choque em descobrir que palavras não diziam o pensamento, claro, transparente, dado. O que eu pensava se formava em sinapses mais rápidas que a luz, desafiavam a física, me tomavam de assalto em total plenitude. E o caminho entre ele, pensamento, e o mundo, era a tal da palavra, que dita, não dizia. Tradução imperfeita e desgastada do que vinha de dentro tão vivo, tão áspero, tão cru, e que nesse estado, palavra nenhuma o continha.

Era jovem adulta e descobri Vygotsky. E me apaixonei. Queria casar com a idéia de compreender pensamento e linguagem como entidades separadas, que eventualmente se cruzam, mas não se definem, e que se desenvolvem em curvas idealmente convergentes  e se encontram no significado. Ou alí se desencontram irremediavelmente…

E ai eu não sei. Como quando dormimos e acordamos de repente, e há um gap de memória entre o antes e o agora. Aparentemente eu continuei verborrágica na esperança que muitas palavras contivessem mais pensamento que uma só, e pudessem tirar de dentro o que era claro e manter claro à luz do mundo. E aparentemente também desisti do processo em algum ponto, na esperança que palavra nenhuma capaz de conter meu pensamento era então des-serviço, e o silêncio talvez conduzisse o mundo, o outro, o interlocutor à uma epifania de mim.

Em algum ponto abri mão do desejo intelectual de ser compreendida, mas nunca a ponto de deixar de me ressentir com a incompreensão. E a palavra, dita, não dizia. E a frustração me tomava. Depois a raiva. Deslocada (ou não), como raio na direção do interlocutor, que ousava não compreender a palavra, a perspectiva, minha weltanschauung. Ou em minha direção. Essa que falava. E não dizia.

Perdi o interesse nos processo. Na explicação. Conformei-me em não ser o centro do mundo (nem mesmo do meu) e me senti só. Fingi acreditar na compreensão tácita. Fingi acreditar na construção de significados em comum. Falei muito, palavras, ao vento, desprovidas de propósito, significantes solitário no céu da minha boca. Escrevi pouco. E cada vez menos, conforme a consciência crítica crescia e nada via no abraço vão de pensamento e palavra.

Não achando o significado perfeito, irretocável, comecei a moldar pensamento. Encaixa-los a força na linguagem, e me contentar com seu arremedo de significado. Simulacro então seja.  Que entendessem aquilo de mim, melhor que nada, melhor que esse estranhamento com o qual me olham, essa louca que tanto fala, nada parece dizer. Então o que quer que a palavra lhes dissessem, estava bom pra mim. Ou eu fingia que estava.

Meu próprio pensamento ficou lento, músculo atrofiado sem ter o que pensar por si só, constantemente mutilado para se fazer entender. E palavras soltas ainda ecoando, buscando sem achar. Fui ficando silenciosa, menos de palavras, mais de sentido. Fui deixando de ser eu.

Agora, hoje, nesse segundo,onde me desconheço e nem eu mesma sei o que pretendia outrora dizer, essa ânsia pela palavra. Não essa, a outra, a próxima, a anterior. Não esta soma, ou outra. A palavra. Aquela, de menina moça vestida de possibilidades. A palavra que um dia será dita na curva onde pensamento e linguagem se encontram, e uma vez dita, dirá…

E essa súbita contrição não implementada, nascida triste de um desejo de até achar essa palavra, nada mais dizer.

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