Eu, essa casa do outro.

Eu sempre tive essa coisa de olhar, virar um pouco a cabeça e então, de súbito, pura epifania, entender. É como se o mundo fosse uma gigantesca ilusão de óptica, e fosse só uma questão de mudar a perspectiva, só um pouquinho, e tudo mudava. E era possivel alternar as imagens, entender as profundidades da percepção que o homem comum, a olho nú, sente tanta dificuldade de ver: a perspectiva alheia e a propria natureza humana.

Essa compreensão da natureza humana traçou meus primeiros rumos, depois abandonados e engavetados por contingências mil, mas nunca me abandonou. E mais, eu nunca errei.

Posso ter me deixado enganar aqui e ali, ou perdido algum detalhe que daria sentido ao todo, fosse pela comodidade, pela noção de inocente até prova de culpa, por uma inevitável separação entre sentimento e razão, por essa necessidade doentia que sempre esteve comigo também, de evitar o conflito a qualquer custo, mesmo os impossíveis de serem pagos. Por isso eventualmente ainda era capaz de ser surpreendida, para o bem ou para o mal, com cursos de ação não previstos. Mas errar, nunca errei. E a verdadeira natureza alheia sempre me foi dada.

O outro é esse livro semi-aberto, com pistas aparentes onde quer que se olhe, orelhas nas páginas mais importantes, marcas na lombada, grifos quase invisíveis… E seu ponto de vista nos vem naturalmente no exato instante que entendemos seu enredo.

Alias, eu demorei bastante pra entender que nem todo mundo via as coisas da mesma maneira. Que certas doses de umbigocentrismo, ou certa dificuldade de abstrair, ou sei lá, quais os requisitos faltantes ou contra indicados, mas a maioria das pessoas via o outro como esse mistério indecifrável. E demorei pra entender que essa característica minha, de ler o outro, não era necessariamente uma qualidade.

Pra começar porque só funciona pro outro. Eu sou pra mim esse mistério que o outro é pra você.

Dia desses um amigo postou no facebook uma lista de super-poderes inuteis. Coisas como lágrimas de ácido, invisibilidade no escuro, 20% de levitação… E na lista, meu super-poder mais cobiçado: ler seus próprios pensamentos.

Ser capaz de compreender como o outro pensa é como uma grande fonte de interferência no nosso próprio pensamento. Nesse caso, a voz que nos define, nem sempre é originariamente nossa. Talvez seja eco da visão alheia, talvez seja amalgáma de todas as visões… Ouvir a si mesmo, quando se é capaz de ouvir o outro, de VERDADEIRAMENTE ouvir o outro, não é uma tarefa fácil.

Além disso, entender o outro é sempre o melhor, mais curto e mais fácil caminho pro second guess. O famoso: “por outro lado…”. “pensando bem…” “Se você for ver por outro ponto de vista…”

Ser capaz de entender esse outro, que tem sua propria trajetória enquanto outrora poeira estelar, e finalmente ter a compreensão clara e transparente da razão do outro não estar no mundo para te agradar e ter seus proprios desejos, motivos, projetos e sonhos, faz de você aprendiz de Madre Teresa de Calcutá. Não me entenda mal, não te santifica, nem beatifica, não expia suas culpas e pecados, não anula seus defeitos, não te impede de errar… mas te ensina, quase como consequência natural, coisas que costumam ser dificeis no geral: relevar. E perdoar.

E relevar e perdoar são coisas boas, não são? Não. Não necessariamente pelo menos.

Quando alguém releva constantemente, e perdoa como segunda natureza, a tudo, em algum momento, se instaura um processo de anulação do eu. O desejo do outro, a vontade do outro, a ação do outro, não importa o quanto vá contra o seu desejo e a sua vontade, e o quanto te fira, diretamente inclusive, acaba em certo ponto se tornando maior, mais forte e mais importante. Se esse ponto de vista alheio é válido, talvez o nosso não seja. Talvez eu seja o problema (todo ele). Talvez eu esteja errada. Talvez eu seja a vilã. Talvez eu mereça o que me foi feito. Talvez… só talvez. E talvez costuma ser o suficiente.

E esse perdão recorrente, esse deixar pra lá sem critério, somado a essas vozes do outro, que são seus pontos de vista que você lê e compreende, levam o eu a se perder em um abismo tão fundo, tão inatingível, que o caminho de volta faria os trabalhos de Hércules parecerem bobaginhas de criança.

Como se resgata o eu que não se sabe onde está e que, em via de regra, se encontra inacessível? E se ele for resgatado, seremos capazes de reconhece-lo?

Entender o outro pode ser a maior das dores possíveis, quando dentro de nós já não moramos mais, e viramos sem nem perceber, a casa do outro.

4 comentários sobre “Eu, essa casa do outro.

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