Alguns pensamentos aleatórios sobre Fotografia (com direito “A Foto”, ainda inédita)

Eu agora cismei de fotografar tudo. TUDO. Ando com a câmera do celular praticamente o tempo todo ligada e por um ‘dá-cá-aquela-palha’ eu tiro uma foto. E já são quase um milhar de fotos. No site (Through My Old Soul) que criei pra elas, já tem quase 2 centenas das que selecionei e editei. E todo dia subo mais umas 10 ou 15 por vez. Acho, mas só acho, que tem haver com uma certa necessidade de resgatar o idílico do cotidiano, uma poesia que se perdeu em algum lugar… Uma obrigatoriedade de me convencer que o mundo, afinal, é bonito. É lotado de gente, e ranço, e imbecilidade, e podridão, e tédio, e cansaço, e tanta coisa que seria preferível nunca ter visto, mas quando se olha além, no apesar de, no contudo, ele é lindo. Triste às vezes, mas lindo.

Sons, imagens, cores e sensações não existem fora do nosso corpo. Tudo é matéria e comprimento de onda. Nosso cérebro percebe, processa, dá sentido, imprime significado. Acontece que nossos olhos, e órgãos do sentido de modo geral, vão ficando velhos, e cansados. A primeira vez que se vê o mar é mágico. Depois, é só o mar. As folhas secas espalhadas randomicamente no chão formam curiosas e intrincadas tramas que são pura poesia, até o dia que se precisa varrer diariamente essas folhas, e elas se tornam trabalho. O carrinho de mão contra o muro é luz e sombra e contraste e mistério, mas no dia a dia é apenas um carrinho enferrujado e de pneu furado juntando sujeira…  É o mesmo mar, as mesmas folhas, o mesmo carrinho. Ou ainda, é a mesma matéria e seus comprimentos de onda, mas quando chegam a mim, chegam como eu escolho que chegam, ou como o cansaço dos meus olhos permite.

Fotografar permite captar aquela sensação fugidia que já se perdeu. Aquela primeira vez que se percebe, processa, interpreta. E ao ser captado, e as inviablidades técnicas (ou eventualmente orgânicas) corrigidas com nosso sempre fiel photoshop, se imortaliza a forma como escolhemos olhar o mundo. Apesar. Contudo. Todavia.

Sobre as inviabilidades orgânicas, esbarramos, de certa forma, na teoria da percepção. Salvo algumas vertentes filosóficas radicais e viajantes, existe a matéria e a energia, captadas pelos órgãos do sentido e transformadas em significado. O teclado, na minha frente, preto, sujo, velho, de teclas suaves é o que eu percebo. O que de fato existe é uma matéria que cumpre uma determinada função tecnológica, emite um determinado comprimento de onda e imprime uma determinada resistência à ponta dos meus dedos. Convencionamos chamá-lo de teclado, sua cor de preto, esse tempo de uso como velho e essa resistência que eu sinto de macia. Mas nada, e eu digo NADA no universo me garante que o que eu vejo e sinto frente a esse teclado é o mesmo que você vê e sente. A convenção estabelece que ambos, eu e você, atribuamos, ao menos na maioria das vezes, os mesmos adjetivos à ele, e saibamos do que se fala ao dizer ‘um teclado velho, preto e macio’. Mas a percepção é, teoricamente, individual, única, intransferível.  Quando se fotografa, às vezes o que sai na foto não é exatamente o que se viu, ou mais ainda, o que se sentiu ao se fotografar. Essa sensação é possível de ser simulada, com mais ou menos contraste, um novo jogo de cores e luzes, filtros que envelhecem ou avivam o que de fato se viu e o transformam naquilo que se sentiu. Ainda é uma fotografia, uma reprodução da realidade, mas uma realidade que é individual, única, intransferível.

E caímos nas inviabilidades técnicas. Existe uma teoria por trás da fotografia. Ela não limita, mas direciona o ato. Um fotógrafo técnico que não escolhe olhar o mundo por uma lente que é mágica, terá fotos tecnicamente impecáveis, mas vazia de significados. Por essa mesma razão, o preço da máquina fotográfica e seus recursos nem sempre estão em total harmonia com o resultado da fotografia. Mas ajuda, né? É a mesma história de que dinheiro não trás felicidade, mas é melhor chorar numa mansão do que debaixo da ponte! Mas tudo bem… tem gente que tira foto com câmera profissional e trocar as lentes conforme o objeto a ser fotografado (conhecimento que totalmente me escapa… ). Tem gente que tira foto em câmeras semi-profissionais, cheias de recurso mas com o automático lá, para salvar a pátria da ignorância. Tem gente que tira foto com máquinas compactas, ideais para os amadores preguiçosos com tudo ao alcance do click. E eu tiro com a câmera do meu celular… É muita pobreza, vai?!

E ai os filtros e recursos dos programas de edição são mais que muletas, são minhas próprias pernas. Complicado andar sem eles se a fotógrafa é limitadinha (tecnicamente falando) e a câmera mais limitadinha ainda.

O que me lembra uma queixa da modernidade… A gente quando criança tirava foto em máquinas com filme, mandava revelar, gastava uma fortuna (e ainda assim a Kodak faliu. Só o que eu dei pra ela revelando filmes dava preu viver de brisa hoje em dia!) ficava na expectativa de alguma das fotos ter ficado decente, do filme não ter sido exposto, enfim, era um tormento. Disso eu não sinto falta. Um cartão de memória meia boca e pronto. Não gostou? Apaga, tira outra, e mais outra… Desperdício zero. Mas quando a gente fotografava a gente olhava pelo buraquinho e via o que a câmera via. É isso que quero fotografar? Não? Mais pro lado, calcula os terços da foto (AHA, eu sou uma negação em técnica fotográfica mais isso eu mais ou menos tenho naturalmente, desde criança fotografando na Yashica do pai que fazia um barulhinho delicioso quando a gente a tirava do case e montava toda pra fotografar…), vê qual a luz incidindo no objeto, e por aí vai. Aí inventaram as máquinas digitais e seus visores LCD e afins…

A Yashica do pai era igualzinho a essa. Pior que até tenho foto dela tirada por mim, mas está em algum CD em algum lugar remoto... Achei mais prático colocar uma foto ilustrativa nesse caso. Alias, saudade de tirar foto com essa Yashica, em especial com filme P&B de ASA mais alta.

Beleza, né? A gente vê bem maior, não precisa colocar a câmera no olho, pode tirar foto com os braços lá em cima, lá em baixo, prum lado, pro outro. Tudo muito xique, lindo, mudernoooo! É, vai tirar uma foto com o sol batendo no visor pra você ver o que é bom… É meio jogo de adivinhação. Eu acho que é aquilo e eu acho que dá pra ver o objeto e eu acho que tá bom. Clica aí!  É fato que não há desperdício, não vou pagar pra revelar, posso tirar umas 10 fotos do mesmo objeto e decidir qual ficou melhor, mas vez por outra se chega em casa, passa tudo pro computador (Até porque, ver a foto tirada no visorzinho, pra quem tem a vista cansada, é meio o supra-sumo da inutilidade. Vê lá se eu enxergo os detalhes das fotos que tiro antes de passar pro computador… Eu heim!) e descobre que das 10 fotos, em todas elas, se você tivesse chegado o braço uns 2 cm pra esquerda teria o enquadramento perfeito, a luz perfeita, o contraste perfeito, e simplesmente não foi.  É a vida.

Mas vez por outra, parafraseando os Titãs, o acaso realmente nos protege quando andamos distraídos, e tá lá, a foto… não, não… você não entendeu. A Foto. Com artigo definido e letra maiúscula… A Foto.  Significante e significado se olham, e sorriem pra você. Um sorriso amplo. Um sorriso franco. Um sorriso de quem diz: Viu, é esse o mundo que você vê através dessa camerazinha ai. E cá pra nós, não é um mundo lindo?

Foto inédita (ainda não colocada no Through my Old Soul). Sem nenhuma edição whatsoever. Saida diretamente do meu smart but not so much phone. Tirada sem enxergar vírgula no visor. Apenas torcendo pra que o que eu estivesse vendo fosse imortalizado ali. E olha que coisa. FOI. (Clique na imagem para ampliar)

Minhas fotos estão disponíveis em
Through my Old Soul – http://throughmyoldsoul.tumblr.com/

2 comentários sobre “Alguns pensamentos aleatórios sobre Fotografia (com direito “A Foto”, ainda inédita)

  1. LER o que você escreve, é sempre uma delícia! E agora, poder VER também algumas coisas através do seu olhar de fotográfa… melhor ainda!
    Um grande abraço!

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