Meios e Mídias · Paradigmas e comportamentos

Por que só me resta protestar…

Durante anos eu cantei a pedra. Fui acusada de ranço intelectualóide e paternalismo. Ok. Em nome da diversidade eu deixei passar. Quando aconteceu eu fiquei quieta um tempo, processando… Me dei ao trabalho de ver o vídeo. Ler diversos textos. E aí comecei a soltar o verbo.

E o fiz porque qualquer interpretação (e infelizmente até o óbvio é passível de interpretações conflitantes) é tão abjeta, tão impossível de defesa, que só me resta o protesto. Vazio. Inconsenquente. Com o único objetivo de desopilar meu fígado e justificar meu desprezo generalizado pela tal da raça humana.

Não vou detalhar o contexto… todo mundo sabe. Todo mundo foi bombardeado por isso zilhões de vezes nas redes sociais, mesmo os que como eu, se recusavam peremptoriamente a tomar ciência de mais uma edição da encubadora de mediocridade e degradação humana, o tal do BBB. E algo rolou sob os edredons, prática já famosa nessa porcaria de programa… mas dessa vez entre uma dona desacordada ou no mínimo muito próximo disso e um sujeito que já tinha levado um não dessa mesma dona. Eu realmente não sei na língua e no mundo de vocês, mas no meu dicionário isso é estupro.

Infelizmente, um número absurdo de mulheres,e eventualmente de homens, são estuprados todos os dias… Eu não tomo ciência deles, porque esse é um mundo tão absurdamente violento que não há como se tomar nota de todos os crimes que acontecem. Por isso vim morar no fim do mundo, onde quando ocorre uma violência qualquer, e não se iludam, ela ocorre, é assunto por dias, meses, o ano todo… As vítimas tem nome, endereço, estado civil. Os cidadãos se chocam, a violência tem o peso monstruoso que de fato tem, ao contrário dos grandes centros ela é esvaziada pela tamanha proliferação…  Então meu protesto não é hipocrisia… se protesto é porque esse caso ganhou um nome, uma cara, invadiu minha timeline, se tornou de domínio público.

Às vezes temos noticia de alguém que foi estuprado em casa, com alguém no quarto ao ledo que poderia ter impedido, mas optou por não se envolver. Chamamos essa pessoa de covarde, de fraco, ou eventualmente, de vitima também. As vezes são crianças, as vezes são realmente incapazes de intervir. Nesse caso, era a ilha de edição, os plantonistas, as pessoas responsáveis. Estavam lá, tratando as imagens, colocando no ar, e optaram por deixar essas irem ao ar, sem nada acontecer.

Quem paga pelo pay per view dessa budega, as vezes fala que é possível ouvir ‘vozes do além’, da direção do programa dando instruções. Essas vozes do além não apareceram naquela madrugada.

Há quem diga, até por conta das tais vozes do além, que tudo é encenado. O que foi encenado, se esse é o caso, não foi mais uma promiscuidade em rede nacional, isso os tais assinantes já estavam cansados de assistir. O que foi, supostamente, encenado, foi um estupro. O tal do BBB é, sempre foi, essa incubadora do que temos de pior, mas até para o nível do programa, aquilo era descer muitos e muitos degraus. E teríamos no mínimo uma apologia ao crime aí, motivo mais do que suficiente para muito bafafá e protesto e indignação.

Há quem diga que só estão acusando o pobrezinho do rapaz porque ele é negro. Sério? Eu não acho que não exista racismo no Brasil, alias, somos, infelizmente, enquanto país, absurdamente racistas. Só mascaramos, confeitamos, douramos a pílula e fazemos de conta que não. Mas pra começar eu tive que olhar a foto dele umas 3 ou 4 vezes, bem depois de já estar indignada, pra ter certeza que ele era negro. Porque isso não era relevante. Nunca foi. Talvez, só talvez, ela não tivesse dito não pro loirinho (tem loirinho na casa? Eu não vejo essa droga… só repito o que ouço por aí, e disseram que “Ah, mas se fosse o loirinho…”), e?! Perai, se ele é negro ela não pode dizer não ou é racismo?! Porque toda a questão gira em torno de Ela disse não – Ela pediu para ele parar – Ela apagou.

Ouvi absurdos do tipo: Ela é piriguete, encheu o fiofó de cana, C* de bêbado não tem dono, queria dar, tava gostando… Eu não conheço essa moça. Mas ela é filha de alguém, irmã de alguém, amiga de alguém. Ela com certeza fez péssimas escolhas na vida. A começar por entrar pra esse programa. Encher os córneos em rede nacional pra no mínimo pagar mico também não foi nem de longe uma escolha feliz. Mas isso não dá direito a ninguém a apalpá-la (e daí pra frente) desacordada. Nos links abaixo duas histórias… uma no vídeo ao final do  texto, um stand up excelente sobre estupro (morra, Rafinha Bastos!) e no outro uma historinha inocente sobre um beijo alcoolizado recebido. Isso é ser homem. Se aproveitar de mulher bêbada, mesmo quando ela não diz não claramente, é ser pra usar eufemismo, cafajeste, mas a palavra é criminoso mesmo.

Tem o triste discurso do é tempestade em copo d’água e irrelevante, motivo de piadinhas chamando o príncipe da Bela Adormecida de safado estuprador, esvaziando a discussão… Senhores, a lei do estupro mudou para proteger o seu, o meu, o nosso corpo. Ao fazer vista grossa, piada, ou dar pouca atenção a um ataque sexual ocorrido em rede nacional, mesmo em um programa que você não assista e até critique, é retroceder anos e anos nessa questão. É dizer que tudo bem, que naquele programa era esperado mesmo (e era, mas isso sim é irrelevante!), e que não foi nada demais. É voltar no tempo e fazer da vítima, a culpada. (Ou culpado, não importa o sexo da vitima!). É dizer que pelo seu comportamento, vestimenta, teor etílico ou mesmo nível de intimidade com o agressor, o estupro foi ‘pedido’, é permitido. Que só porque não aconteceu com sua mãe/irmã/filha/sobrinha/prima/amiga, não é relevante, não vale seu tempo, não tem importância.

Tem o discurso legal, ou melhor, legalista também. De que se a vitima não se sentiu vitmizada, não é crime. Que se pelo motivo que for, medo, pressão, dinheiro, discordância, ignorância e por aí vai, se a vitima não prestar queixa, não há mesmo o que fazer, porque é quase que o último bastião, uma vez tendo seu corpo violado, decidir se houve violência. E que caberia a nós respeitar. Eu compreendo isso. Mas não preciso concordar, preciso? Posso protestar apesar da triste percepção de que é o provável fim dessa história, o esquecimento do fato em si, a perpetuação do modelo opressor. Porque eu vi. E não há como des-ver. Eu soube, e não há como des-saber. E me senti agredida. E me senti retrocedendo no tempo, perdendo direitos, ultrajada não como mulher, mas como ser humano.

Então eu protesto. Reclamo. Desopilo o fígado. Pela indignidade da coisa em si. Pelo crime presenciado quase que inadvertidamente (confesso que quando resolvi ver o vídeo, achei que era mais uma das muitas idiotices do programa, e que estavam exagerando a proporção da coisa, e fui ver pra não falar de intrometida, sem saber do que se tratava e ser mais uma vez acusada de paternalismo prepotente). Pela conivência de uma emissora de TV (que não assisto, mas não importa), CONCESSÃO DO ESTADO, diga-se de passagem, que ao invés de estar a serviço do povo, presta desserviço a esse povo, facilitando o crime (o confinamento, as festas, as bebidas, a falta de cama em número suficiente, o incentivo a promiscuidade, e sem falsos moralismos aqui… na privacidade, cada um faz o que quer, gosta e se sente confortável fazendo, mas ali nada tem de privado…), sendo conivente com ele (gravando as cenas, transmitindo-as, não intervindo) e por fim, obstruindo a justiça (sumindo com vídeos, colocando panos quentes, ignorando o assunto como se nada tivesse acontecido, mesmo tendo expulsado o suposto crimoso – e como disse uma amiga: “Nossa, o estuprador foi expulso da casa. Me sinto bem mais segura agora…”).  Pelos amigos e conhecidos que me consideravam prepotente ao dizer que era um absurdo assistir aquele programa e não entendem que, em havendo um crime, foi parcialmente financiado por eles, audiência do programa. Pelos comentários cretinos, machistas, preconceituosos, arcaicos… e pela indiferença.

Protesto. Me recuso a discutir isso na base do escárnio e da pilhéria. Me recuso a simplesmente aceitar como algo irrelevante.  Minha descrença na raça humana já é grande o bastante pra que eu aceite mais isso como natural. Então me agüentem, porque me sobra muito pouco, além de protestar.

Vale a pena ler:
http://papodehomem.com.br/estupro/
http://www3.cinemaemcena.com.br/pv/BlogPablo/post/2012/01/16/Globo-BBB-e-o-lindo-amor-de-Pedro-Bial.aspx

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