Fringe, e a síndrome do pé na jaca

Fim da temporada passada (a segunda) eu vim aqui me lamuriar do final clichê de Fringe. Como eu falei na época, não acreditava que seria o suficiente para me desiludir e fazer desistir da melhor série de Ficção Científica/Fringe Science, anos luz (quase que literalmente) à frente de sua fonte primária de inspiração, Arquivos X, mas foi decepcionante. Como sempre, vale um grande SPOILER ALERT pra quem ainda não viu o fim da terceira temporada, ok?

Naquele post, defini Fringe como o Arquivo X dessa geração. É mais hi tech, é mais engajado e enquanto série, possui uma coerência interna maior que Arquivo X, assim como mais constância, em suma, uma série meta-sci-fi clássica.

Mas digo mais, Fringe tem/tinha uma química perfeita para agradar um amplo espectro: ciência e pseudo-ciência, o clássico sci-fi, suspense, ação, alívio cômico (sem precisar de personagem/episódios engraçadinhos de meio de temporada) e até romance. Tudo em medidas milimétricas, de forma a manter o equilíbrio e a sustentabilidade. Mas como uma torre de cartas, retirar uma peça não é tarefa fácil: tudo pode ruir.

Pois bem, fim da temporada passada o pé se enfiou na jaca, com uma solução clichê para congregar 2 universos, tema que era recorrente e, até então, pouco explorado. A opção foi a mais óbvia e deselegante…  Mas confeso feliz ter tido uma grata surpresa com essa temporada: A situação permanecia manjada, batida, clichezão… mas o desenvolvimento foi criativo. Os episódios alternados de um ou outro universo, revelando camadas mais profundas dos personagens alternativos, até humanizando-os em muitos momentos, mas sem perder o foco no universo, por assim dizer, herói da trama. Tudo isso mantendo os elementos característicos da sérei, fugindo do que era meu maior temor: uma mera guerra dos mundos, ainda que esse fosse exatamente o plot subjacente.

Mas foi só a temporada ir chegando no final para o cheiro da jaca ir impregnando o ar: alguém tinha enfiado o pé por lá, de novo.

Começamos no magnífico episódio desenho animado (o ante-penúltimo, creio eu), um deleite para os olhos de mentes propensas a viajar… Episódio esse que coroou a sequência de episódios com a magistral interpretação da Anna Torv (Olívia) ‘ocupada’ pelo espírito do personagem do Leonard Nimoy (William Bell). Sem nenhum recurso escuso, era impressionante. Bastava fechar os olhos e eu podia visualizar o Spock/Nimoy/Bell como se ele estivesse na cena, mas de olhos abertos os trejeitos também convenciam… Anna Torv faz um impersonate divertido e convincente do nosso orelhudo favorito de todos os tempos!  Mas voltando ao episódio em si, tudo ia bem, divertido e inusitado, com os personagens desenhados presos na mente de Olívia, até a revelação final: um personagem que estava preso no dirigível, que troca 2 falas com Peter e foge da cena, é, dito pela boca de Olívia (em tom blasê igualzinho ao Jarvis, o mordomo dos Vingadores anunciando que a mansão está em chamas e todas as rotas de fuga inviabilizadas) como sendo aquele que irá mata-la. É… hum… o que?

Plot para o fim da temporada? Descobrimos depois que não era. Para a temporada seguinte? Não seria a primeira vez que uma série traz em uma temporada gancho para a temporada próxima, mas aquele jeito, solto no ar e sem densidade dramática alguma (se era pra ser dramático o tom despreocupado da personagem ao anunciar seu assassino, bom, falhou miseravelmente!) e profundo como um pires virado do avesso…

O penúltimo episódio transcorre sem problemas, e termina com gosto de quero mais e de uma interessante reviravolta,meio batida, mas ainda assim surpreendente.  E chegamos no último episódio… E aí eu nem sei por onde começar!

Começamos pelo assassinato da Olívia, não pelo homem do dirigivel, mas pelo Walternativo. O personagem vinha sendo paulativamente humanizado e suas ações revestidas de justificativa, de forma a sem fazê-lo menos vilão, definitivamente menos desprezível. E de repente lá está ele, unidimensional, avatar da vingança personificado, num diálogo vazio e maniqueista com o filho seguido por um tiro nas fuças da nora, por nada mais, nada menos que vingança. Não era ele fazendo atos vis para salvar seu universo, ou resgatar seu filho roubado, mas simplesmente, anunciando: “fiquei sem universo, vocês vão ficar também!”  ou “Se não vou jogar, eu furo a bola!”. Dono de um inteligência privilegiada, por acaso lhe ocorreu que ele pereceria também? De novo? Vingança pequena, mesquinha e improvável para um cérebro privilegiado…

Agora vamos para o Peter. No episódio anterior, ele termina num marco zero futurístico, confuso, sem entender nada… O episódio seguinte ele está no hospital, se recuperando em velocidade Flash, e subitamente, completamente adaptado ao seu ‘estar no futuro’.  As consciências não estavam mais juntas? Ele estava fingindo para sondar? Ele entendeu e aceitou? Escolha uma das alternativas acima ou uma outra qualquer, porque o episódio se furta a explicar. Pode parecer uma reclamação boba, mas a grande graça de Fringe e nos fazer acompanhar a linha torta de raciocínio dos protagonistas fazendo o impossível meramente improvável, mas incrivelmente lógico. E possivelmente para ganhar tempo, eles pulam a explicação e lá está Peter, sabendo exatamente o que seu eu futuro comeu no café da manhã de dias atrás, e sem um pingo de dúvida ou estranhamento por estar alí, no futuro. Por instantes parece que os eventos (a máquina criadora/destruidora de mundos e ele no futuro) não estão mais relacionados, e é só um salto temporal da série, o que seria ainda pior se fosse verdade. Mas não era: apenas resolveram não explicar algo que sem explicação, não fazia o menor sentido what so ever…

A reação do mundo frente ao Walter também foi algo que não desceu goela adentro. Para ser plausível, todo o departamento, a nova divisão Fringe, seria execrada pela sociedade, fazendo seu trabalho de colocar remendos nas rachaduras do universo na clandestinidade, ajudando uma população que não os compreende e os culpa pelo fim do mundo iminente. Porque? Por que fora seu passado ‘sinistro’ de experiências não autorizadas, toda a atuação do Walter nos anos da série foi sob a edge do FBI, auxiliado de perto por todos os envolvidos, inclusive do – naquela momento – senador Philip Broyles. Então Walter foi um bode espiatório que se fudeu no processo enquanto todos os outros personagens se deram bem? Totalmente incompatível com a natureza dos personagens, que, se de fato fosse o caso, teriam pulado no buraco junto com Walter. Até porque ele não ligou a máquina, justificativa que o episódio dá para os anos de reclusão em prisão de segurança máxima, contrariando o que assistimo antes (Walternativo é que ligou) e depois, desdizendo de novo. Confuso, bobo, e totalmente desnecessário. Se era para usar o visual do personagem no começo da série, para dar idéia de ciclo, um Walter recluso e cheio de culpa, se recusando a ajudar com medo de piorar a situação, teria funcionado MUITO melhor.

Aí temos a perola do paradoxo mas não tão paradoxo assim… Walter não pode mudar o que fez, mas Peter pode? A explicação não tem pé nem cabeça, afinal, se aquele futuro estava acontecendo, o Peter já tinha estado na máquina, já tinha se portado de determinada forma, destruído o universo paralelo e agora aquilo era passado. Alterável ou inalterável, escolha. Mas ou um, ou outro. Se o filho pode tomar desisões diferentes no passado daquele futuro, porque Walter não podia no presente, passado de outro futuro? Para justificar o que o Peter faz, como sabia o que fazer, etc… mas peraí… não tinha uma explicação menos furada? “É mais certo” “É mais fácil” “É mais seguro”, qualquer uma servia. Mas usar o paradoxo temporal que funciona num caso e não no outro, foi o fim da picada!

Ainda na mesma cena, o episódio de novo falha em explicar outro recurso Fringe, que uma explicação teria sido interessante! Walter diz que eles precisavam trazer a consciência do passado para o futuro para que o Peter soubesse o que aconteceria se ele destruísse o universo alternativo, bastava só descobrir como. E então, subitamente, eles não só sabem como, já aconteceu, Peter está de volta ao presente, na máquina, fazendo uma opção diferente (a despeito do paradoxo). Volta a fita. O que aconteceu? Pois é, não sei. Ninguém sabe. Walter diz que, até onde ele sabe, já podia estar acontecendo. Normal, se ele no futuro (5 segundos depois) descobrisse como, Peter teria voltado em forma de consciência coexistente no passado (alguns dias antes) para entender como seria o futuro e poder muda-lo (Olá, paradoxo!). Mas dizer “até onde seu, já pode estar acontecendo” não explica o que aconteceu. Resta outras explicações: mágica. Obra e graça do divino espírito santo. Carinho de pai tem poder. Sei lá. O episódio não explica. Já falei que a graça da série é fazer o impossível ter lógica? É, né… não teve explicação.

E aí, o Peter  volta pro presente e… desaparece. Esquece a física/pseudo-física. Se ele deixa de existir quando junta os universos, ele não estaria presente para fazer o primeiro workshop (esse desnecessário) da noite, explicando aos dois gênios cientístas e as 2 Olivias o que ele fez… Então esquece a física. Nem vale a pena. Eu cheguei a achar intrigante (Onde ele foi parar?) até o segundo workshop da noite, dos Observadores, me jogar um balde de água fria. Ele deixara de existir ao cumprir seu papel, caiu no oblivium, no esquecimento, no grande e incomensurável nada.  Volta a fita, mais uma vez: passamos a temporada vendo o personagem crescer como ‘escolhido’, suas relações com a Olívia remontadas até o passado, quando crianças, a própria Olívia ser colocada na equação (alias, papel bobíssimo dela no processo. Não fez foi nada. Era só pra mostrar o desenho bonitinho dos primeiros que na verdade era eles mesmos? Não era melhor uma fotografia então? Esquece… outro plot interessante que se finaliza estranho!), tudo isso pra fazer ele desaparecer??  Assim? Do nada? A troco de nada?

Ok, há todo o discurso de 3 temporadas os observadores de que ele tinha um papel, de que Walter deveria estar pronto para deixá-lo ir, bla bla bla… Mas há formas mais interessantes de dar sentido a profecias do que dar todo um suporte a um personagem e depois, puft, quem é Peter Bishop mesmo?

A coisa toda é confusa. Parece recurso mal-ajambrado para tirar um personagem da série, mas Joshua Jackson ainda está sob contrato. Então, fala aqui no meu ouvido, juro que não conto pra ninguém: pra que essa bobageira de limbo, vácuo, nada, e por aí vai? Só pra dar raiva no expectador? Curiosidade com relação a próxima temporada?

O que nos espera então? Um Fringe sem Peter Bishop mas com 2 Walters e 2 Olívias convivendo ao mesmo tempo no mesmo lugar? Peter aparecendo em flashs? Peter resurgindo mais do que das cinzas, do nada? Nada? Alguma coisa?

E a tal da química? Não estaria para sempre perdida? Posso, já fui antes, então posso e quero ser surpreendida por soluções mirabolantes que girem o estado atual para algo novo, criativo, delicioso e interessante. Mas confesso meu profundo cetistismo. Maior do que quando a princesa ficou presa no dungeon do cientista louco e cruel, enquanto sua gêmea malvada tomava seu lugar. Alí era clichê, mas a solução era previsível e o caminho de volta pra casa, visível pelas migalhas de pão no caminho. Agora? Tenho a sensação de estar presa num floresta. Só de pés de jacas…

Tô começando a notar um padrão… se a próxima temporada comprar bom ar e tirar esse cheiro de jaca no ar, vou me policiar ao máximo para assistir até o ante-penúltimo episódio. E alguém me conta o final. Não gosto de jaca. Nem do cheiro. E já é a segunda vez!

2 comentários sobre “Fringe, e a síndrome do pé na jaca

  1. Caramba, Adriana ! Você abandonou o blog indo devagar? Poxa, me encontrei lá ! (Deixei até um comentário!)Só que não vejo mais comentários lá, nem palavras\ suas. Por isso vim comentar aqui , onde achei textos seus mais recentes. Queria saber como ficou sua história hipertireodóica.
    Um abração.

  2. Oi Monica. Não tenho escrito mas não abandonei não… normalmente respondo os comentários uma vez por semana, mas as ultimas foram meios confusas (fim das aulas das crianças, mto serviço, pouco saco…) e estou com alguns comentários pendentes para responder. MAS SEMPRE RESPONDO. Só demora um pouquinho as vezes. Hoje mesmo me prometi que dessa semana que entra não passa, vou responder todo mundo. Ia fazer hoje (ontem), mas confesso estar por demais envolvida em um livro que estou lendo e minha filha trouxe uma criançada pra brincar por aqui e quando vi, já era sábado… 😛 Mas resolvi responder ao menos esse pra não te deixar no vácuo. Até semana que vem respondo o pessoal no indo devagar! 🙂

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