“The” Alice? There’s been some debate about that.

Vamos brincar de jogo de associação de palavras? Volte no tempo um pouco, antes do anúncio da filmagem de Alice in the Wonderlands. Eu digo para você “Tim Burton”, o que vem a sua mente? Helena Bonham-Carter e Johnny Deep?! Ok, segue daí, o que mais vem a sua mente? Na minha vem logo Edward Mãos de Tesoura, a Noiva Cadaver e O Estranho Mundo de Jack. Se eu continuar a partir daí, palavras como fantasia, realismo fantástico e surrealismo vão pipocar na minha mente. E daí pra Lewis Caroll e Alice no País das Maravilhas seria um pulo. Por isso sorri de orelha a orelha, igual ao Cheshire Cat, quando soube que Tim Burton iria filmar esse clássico dos clássicos! Contingências fizeram com que eu não pudesse ver o filme no cinema, e o vi somente agora, quando ele passou na HBO HD. Foi o quanto durou meu sorriso.

Não me entenda mal, eu não sou purista. Sou totalmente pró liberdade poética e acho que filmes não são livros e vice versa, então não espero ver transcrições literais quando uma adaptação de livro chega as telonas (o mesmo vale para HQs, diga-se de passagem). Respeito muito essa coisa de interpretações autorais e de fato, fico até curiosa para saber como um determinado produtor/diretor/roteirista/ator vai conceber um determinada história/personagem de forma a torná-lo novo, e ainda assim, reconhecível.

Mas o problema aqui é: Tim Burton filmou Alice no País das Maravilhas? “A” Alice? Bom, é discutível. (A seguir, spoilers… leia por conta e risco!)

Os personagens estão todos lá. E visualmente, estão excelentes. O ambiente em si? A perfeita Wonderlands. As interpretações? Mia Wasikowska como Alice é levemente insossa, mas Johnny Deep rouba a cena para variar e é sempre uma delícia vê-lo atuando.  A idéia de uma Alice mais velha e ser um ‘revisitar’ ao país das Maravilhas me parece interessante e inclusive, criaria a permissão para contar uma história diferente da do livro sem ser alguma espécie de heresia (o relato de Lewis Caroll aconteceu, e agora, mais velha, Alice sem lembranças do que achou que fosse só um sonho, se vê de novo no mundo surreal que a acolheu previamente). Tudo, absolutamente parecia perfeito, mas o resultado… é… bem… como posso falar isso? É sofrível.

O filme é lento, sonolento, cansativo até. Assisti em 2 momentos, porque dormi na metade e nem estava com tanto sono assim. É recheado até a alma de clichês do tipo Tudo é possível e Faça seu próprio caminho, o que se diluiria no cômputo geral. A existência de uma Vorpal me embrulhou o estômago, mas vá lá, sou capaz de suportar. Mas de todas as escolhas autorais possíveis para recontar Alice, ou contar uma outra história inspirada em Alice, o filme faz a PIOR ESCOLHA POSSÍVEL: transforma o clássico de Lewis Carrol numa obra de C.S. Lewis.  LEWIS ERRADO, Tim Burton. Lewis totalmente errado!

Assistimos Narnia all over again. Com um visual mais surreal, com personagens de outra história, mas a jovenzinha (ou jovens) que faz parte de uma profecia que salvará o mundo fantástico no qual ela é misticamente jogada a partir da nossa realidade, é outro clássico infantil (muito bom, por sinal), de outro autor, cujo nome também é Lewis mas não era isso que a gente esperava.

Alice é simbolismo e surrealidade. Ela não tem uma missão, um propósito, um porquê. Ela foge da realidade (ou não!) para um mundo de fantasia, que pode ou não ser um sonho, que pode ou não ser (também) real. E conhece/enfrenta arquétipos das dúvidas que nos assolam quando somos crianças e que desistimos de procurar respostas quando crescemos. É sentimento sem racionalização. É a obra prima do simbólico.  Mas não essa Alice. A Alice de Tim Burton é uma mera fábula de que se você acreditar, tudo pode ser possível (o que é uma bela mensagem, mas de novo, não era isso que estávamos procurando…), inclusive o inverossímil final onde uma mulher, naquela época, e naquela idade, se torna sócia de um mega-negócio imperialista, porque acreditou em 6 coisas impossíveis antes do café da manhã.

E de novo, o final inverossímil nem me incomoda. É um filme, é uma fábula, um conto de fadas ou como queira chamar. E nem minhas restrições a mentalidade imperialista pesam na minha avaliação final do filme. Tudo isso é fichinha perto do real problema. Não é Alice. Definitivamente, o coelho branco achou a Alice errada, e levou pra Wonderlands errada.

Fora isso, ou seja, excetuando TUDO, Johnny Deep ainda é um puta ator, Tim Burton ainda é um gênio (que deu uma bola fora, mas quem nunca fez isso?!), Helena Bonhan-Carter ainda é bizarra, e eu vou achar minha cópia de Alice em papel para reler. É o melhor negócio que posso fazer.

* * *

Pra que ninguém me chame de ranzinza, vale mencionar que o filme é quase salvo por dois quotes geniais, daqueles que valem a pena memorizar pro resto da vida (em inglês, porque o segundo perderia o sentido se traduzido, como o foi na legenda do filme, já que Grandeza é uma palavra que de fato existe em português e não tiveram a coragem de traduzir corretamente, para “Maiszisse”):

The Mad Hatter: Have I gone mad?
[Alice checks Hatter’s temperature]
Alice Kingsley: I’m afraid so. You’re entirely bonkers. But I’ll tell you a secret. All the best people are.


The Mad Hatter: [to Alice] You used to be much more…”muchier.” You’ve lost your muchness.

10 comentários sobre ““The” Alice? There’s been some debate about that.

  1. Dri, cheira a flor… assopra a velinha… e abstrai!🙂

    Eu achei o filme muito bom! Apesar de concordar com a história de “Narnia em outra roupagem”, mas gostei muito da perspective com Tim Burton tomou para o filme.

    Beijo!

    1. Acho que grande parte do meu desapontamento vem da sensação de desperdício. Tim Burton me parecia o nome certo para filmar Alice. E até para contar OUTRA história envolvendo “A” Alice. Mas ele resolveu contar Narnia-mas-fala-diferente. O filme tem seus méritos que eu sou meio incapaz de admitir nesse exato instante, e acho que eu ia ADORAR se ele tivesse outro nome… ou se Lewis Caroll nunca tivesse escrito Alice… ou eu não tivesse lido. Ou muito provavelmente, as 3 opções acima ao mesmo tempo!😛

      Como fábula fantástica? Meio clichê, mas bem bonito (e visualmente, um espetáculo). Como Alice? Bem, não era Alice. Não A Alice, pelo menos.😛

  2. Só como comentário, a existência de uma vorpal não deveria embrulhar o seu estômago, já que a própria palavra veio do livro da Alice, em um poema nonsense chamado Jaberwocky… Leia em inglês e estará lá.😉

    1. Sério? Juro que não lembrava disso. Tá certo que a ultima vez que li foi a décadas atrás e não foi em inglês… Mas na hora tudo que me veio a mente foi uma sessão de D&D com a Alice que não é Alice armadurada parada na porta da taverna: “E aí, vamos matar um dragãozinho hoje?”. Matheus ainda gritou 20!!!! na hora que a cabeça rola…

      Mas acho que vc disse tudo: nonsense. O que falta no filme do Tim Burton é o nonsense pelo nonsense, a falta de propósito, o símbolo pelo símbolo e o sentimento sem razão. Alí tudo tem propósito, profecia, razão de ser. Até a loucura do Chapeleiro parece buscar justificativa no flashback… Enquanto Alice, pífio.

      Mas um dia quero rever sem estar esperando ver A Alice. Quem sabe? Quando eu me conformar que Alice não mora mais aqui, ou alí, talvez eu até goste do filme!:P

      1. ‘Twas brillig, and the slithy toves
        Did gyre and gimble in the wabe;
        All mimsy were the borogoves,
        And the mome raths outgrabe.

        “Beware the Jabberwock, my son!
        The jaws that bite, the claws that catch!
        Beware the Jubjub bird, and shun
        The frumious Bandersnatch!”

        He took his VORPAL sword in hand:
        Long time the manxome foe he sought–
        So rested he by the Tumtum tree,
        And stood awhile in thought.

        And as in uffish thought he stood,
        The Jabberwock, with eyes of flame,
        Came whiffling through the tulgey wood,
        And burbled as it came!

        One, two! One, two! and through and through
        The VORPAL blade went snicker-snack!
        He left it dead, and with its head
        He went galumphing back.

        “And hast thou slain the Jabberwock?
        Come to my arms, my beamish boy!
        O frabjous day! Callooh! Callay!”
        He chortled in his joy.

        ‘Twas brillig, and the slithy toves
        Did gyre and gimble in the wabe;
        All mimsy were the borogoves,
        And the mome raths outgrabe.

        1. A coisa acaba de piorar sensivelmente. Ele pegou o poema e transformou em literalidade. E eu não sei o que é pior: A Alice transformada em literalidade (porque a gente sempre pode recorrer a obra original) ou Tim Burton fazer isso (o que acho que é pior, porque não sei mais o que esperar dos seus próximos projetos…)

  3. Dri, faço minhas as suas palavras em vários aspectos. E ainda acrescento umas coisas que vão me custar tomates na cara, provavelmente…
    1) normalmente minha impressão sobre um filme costuma ser inversa à expectativa. Quando vi o trailer, me pareceu “um Tim Burton clichê”, com os desvarios esperados, Depp e Helena, nada a mais do que já vimos (e bem melhor, aliás) em “Peixe Grande” ou “Willy Wonka”. Mas belê, fui ver. E foi e-xa-ta-men-te isso. Um Tim Burton clichê, fazendo um fanfilm dele próprio. (continua)

  4. Recentemente reli Alice, que saiu numa edição muito boita, e é isso que vc falou: uma história surreal sobre nonsense, sobre questionamentos, dúvidas e arquétipos – não um pequeno pastiche auto-ajuda “acredite e você chegará lá”. Achei tudo muito bonito (escopo estético apenas) mas muito previsível, muito “exatamente-o-que-eu-já-esperaria-de-Tim Burton”. (continua)

  5. Outra coisa: adoro o Johnny Depp mas pra mim ele está virando um outro Jack Nicholson – um cara que teve momentos brilhantes mas que se você olhar a obra toda vem fazendo mais do mesmo há MUITO tempo (vide Jack Sparrow que paulatinamente virou uma paródia de si mesmo ao longo dos 3 filmes). Enfim, achei belo, mas bem fraco, despropositado e superficial. Não me animei nem de comprar em DVD. Há um lance emblemático: quando vc sai de uma sessão com 90% das pessoas comentando unicamente “quantos vestidos bonitos”, e vc NÃO estava vendo “Sex And The City”… Desconfie.

    1. Alguns adendos…

      Peixe Grande é um dos meus filmes de cabeceira. E gente que não é fã como eu do realismo fantástico gosto de Peixe Grande. Então sim, é possivel fazer uma obra sensível sem ser piegas, mágica sem ser lugar comum, nonsense sem ser incômodo para quem busca sentido em tudo.

      Concebo a idéia de uma Alice mais digerível às massas, mas nem é isso que Tim Burton fez. E se fizesse, também não é isso que se espera dele. Acho que esse é o incomodo. O filme é certinho demais pra ser Tim Burton, mas ao mesmo tempo, é previsível enquanto Tim Burton.Estou tendo alguma dificuldade de explicar exatamente meu descontentamento.

      Quanto ao J.Deep, a comparação procede… Ele está sim virando uma espécie de caricatura dele mesmo, mas o que posso dizer? Eu o amo, é mais forte que eu…😛

      E amei a história do Quantos vestidos bonitos e nem era Sex and the City…!!!!!!!!!!!!!

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