Polêmica, eu quero uma pra viver (Ou “O Twitter grunindo contra a Bethânia”)

Nesses tempos de mídia social e profundidade de pires do avesso em 140 caracteres, todo dia temos uma polêmica nova. Eu passo ao largo dos tais trends, e quase sempre sou marido traído, o último a saber… Do que estão falando mesmo? Ah tá… Então tá.

Mas às vezes pego a discussão no começo, ao invés de tentar tomar o bonde já a meio caminho, pendurada no estribo, quase caindo nos trilhos. Quando é assim, a meio caminho do esgotamento natural da polêmica vazia (que morre em si mesma, silenciosamente e sem aviso prévio), prefiro nem me meter. Mas ok, as vezes pego a discussão no começo.

A polêmica do dia é… Maria Bethania e a lei Rouanet.

Alguém leu a notícia, entendeu tudo errado, saiu twittando e que nem brincadeira de criança, o telefone sem fio foi deturpando a história e rapidinho já era que a Bethânia tinha embolsado 1,3 milhões para fazer um blog…

Saramago (como o Mário bem me lembrou) já havia previsto a era dos grunidos, e quem se ofendeu na época já está começando a ter que concordar… Parem de grunir gente. PAREM! São 140 caracteres, mas não precisa ser 140 gemidos indecifráveis e inteligíveis repetindo bobagens alheias.  Se vai reclamar, reclame da sua vida (eu sei, eu sei, eu e meus #mimidris), ou do que você sabe de fato, e não por ler o RT do RT do RT do cara que leu a notícia e teve uma síncope neuronal e por isso entendeu tudo errado… Preguiça demais dá câncer, ou grunidos no Twitter. Nunca sei qual dos dois. Tô achando que os dois.

Para começar, pelo menos metade de quem deu RT na suposta notícia do blog milionário nem sabe quem é a Maria Bethânia. Maria Bethânia Viana Teles Veloso é a irmã do Caetano Veloso (Não sabe quem é? Morre… diabo!) e é a 2ª maior cantora brasileira em vendagem de discos.  Na década de 70 (literalmente no século passado) ela foi fundadora e integrante do grupo musical Doces Bárbaros, junto com o irmão Caetano, e Gal Gosta e Gilberto Gil.  Independente de se gostar ou não da figura ou da artista, ela é um ícone da MPB, e dona de uma voz única e singular…

Então não estamos falando da Xuxa (e seus duentes duendes, que também foram financiados pela lei Rouanet!), mas de alguém com um histórico engajado que é parte da construção cultural brasileira. De novo, não precisa gostar, mas é preciso dar-lhe o devido crédito.

O PROJETO

Maria Bethânia submeteu para aprovação um projeto onde 365 vídeos (não 1, nem 10)  feitos e dirigidos com qualidade profissional (direção de Andrucha Waddington e produção da Conspiração Filmes), em um website (não blog, website… não sabe a diferença? Então né? É a tal era do grunido!) chamado “O Mundo Precisa de Poesia”. E vai você discutir que não precisa?

Caro? Não discuto. Poderia ser feito de forma mais modesta e mais intimista? Definitivamente. Necessário? Bom… vamos entrar em outra história agora. Uma bem séria!

CULTURA PARA QUEM PRECISA DE CULTURA

É, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.” (Titãs) Cultura é um bem, uma necessidade e um direito. Um povo sem cultura grune no twitter. Agora, o  que diabos é cultura? Quanto ela custa?  O quanto ela vale?

A Lei Rouanet tem falhas. Não sou ingênua a ponto de achar que não. Mas seu mecanismo de aprovação de projetos é, ao menos em tese, burocrático. Qualquer projeto pode ser submetido, há questionários maçantes a serem preenchidos, há o período de espera de aprovação que infelizmente varia de acordo com a quantidade de gente que se conhece lá dentro, mas se um projeto estiver dentro dos parâmetros da lei, mais cedo ou mais tarde ele é aprovado. Ou devolvido para reformulação… Mas como eu disse, em tese, a coisa é burocrática. A Xuxa, ou eu, podemos submeter projetos. E se estiver tudo nos conformes, ambas termos nossos projetos aprovados.

Isso não significa que eu e a Xuxa sairemos com o dinheiro no bolso. E aí, a história da hashtag #DevolvaoDinheiroBethania é o supra-sumo da ignorância. Ela não tem dinheiro pra devolver não, criança… ela só recebeu a autorização de captar recursos através da lei. Ou seja, uma empresa PRIVADA pode patrocinar o projeto cultural dela e receber um abatimento no imposto de renda. O que, você pode grunir: OH, viu, é menos imposto…. , mas é dinheiro que vai pra cultura, não necessariamente da qual você é o publico alvo, mas cultura, disse e repito, é cultura.  Continuando… Significa que poderemos captar recursos para nossos projetos em empresas privadas e essas empresas terão ao menos algum interesse em investir em nossos projetos porque receberão, além do abatimento no imposto de renda, publicidade, e no fim das contas, gastarão a mesma quantidade de recursos que gastariam se não patrocinarem, menos a publicidade…

Resumindo,  essa percentagem em cima do valor pago ao IR, seria revertida em projetos culturais de um jeito ou de outro, porque é muito mais vantajoso para uma empresa, se ela vai pagar X de imposto de qualquer maneira, pagar X-Y, e investir Y na cultura, tendo a publicidade como retorno indireto.

Aí a discussão pode enveredar para alguns caminhos que de fato procedem. 1,3 milhões investidos no projeto da Bethania, significa 1,3 milhões que deixarão de ser investidos em “N” projetos menores, menos famosos, etc…  Vou ter que concordar. É onde a lei falha, e falha muito.  Uma empresa que tenha, para arredondar, 1,3 milhões para investir sob a lei Rouanet, vai preferir 1 projeto da Bethânia, que é conhecida e dá repercusão, do que 100 projetos diferentes de ilustres desconhecidos. O que é por definição, injusto.

Mas isso não desmerece o projeto da Bethânia, ou sua relevância, ou não nos dá direito de dizer que o projeto dela é caro demais, ou não nos interessa pessoalmente e por isso não deveria ter sido aprovado para captar recursos. Por que se a gente fizer isso, bom , isso tem um nome, um nome que os intelectolóides tuiteiros adoram gritar contra… Chama-se CENSURA.

Talvez a lei tenha que ser repensada. Talvez entre os requisitos tenha que haver uma certa limitação dos recursos de um único projeto, para que mais projetos (e não projetos maiores) sejam viabilizados pela lei no decorrer do ano fiscal. Talvez uma porção de coisas… mas de talvez não se faz a história.

Como já foi dito, qualquer um pode submeter um projeto. Qualquer um pode ter seu projeto aprovado. Qualquer um pode conseguir captar os recursos necessários. A maioria prefere reclamar de quem faz…  E mesmo eu não sendo o exato público alvo da Bethânia (a mais recente… já admirei muito em um passado remoto, e quem sabe o que ela vai de fato apresentar nesse projeto? Quem sabe eu não vire fã?), vamos combinar? Sob o risco de soar elitista e estar fazendo a minha própria censura particular, antes a Bethânia com seu vozerão recitando poesias e cantando canções num website (a internet é mais que blogs, twitter, facebook e Orkut… Acredite!) do que a Xuxa com duendes duentes no cinema…

Um comentário sobre “Polêmica, eu quero uma pra viver (Ou “O Twitter grunindo contra a Bethânia”)

  1. E mil vivas às portas e janelas escancaradas para ventilar,criar,executar e quem sabe,se,se tiver sorte,todo mundo pensar!Adorei o texto,abraços mil,Anna Kaum.

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