Desvia e rebate: a técnica preferida de quem não saber argumentar

Um post críptico para bom entendedor, onde meia palavra basta e ponto é letra….

Duas pessoas se encontram nas ruas da internet (sabe aquele lugar onde todo mundo é macho pra caramba? Pois é, lá mesmo!). Uma odeia a outra, embora a contrapartida não seja verdade. Poderia ser, mas por acaso não é. É apenas um ilustre desconhecido que por A+B-C resolveu que o interlocutor é motivo de seu ódio supremo. Inverossímil? Oh, acredite, isso acontece. Então, duas pessoas se encontram em um site sobre receitas num tópico de picadinho de carne (é, eu sei, eu e meus exemplos surreais) onde se condenava o uso da salsa para temperar picadinho. O sujeito A, que nem foi quem começou a conversa, concorda que temperar a carne com salsa não picada e não lavada estraga o picadinho. O outro acha que fica uma maravilha e que é um absurdo, uma heresia, reclamar da salsa que estraga o picadinho, sendo que essa era apenas a opinião de quem começou o assunto.  Resolvem discutir acaloradamente.

Não se deve usar a salsa inteira porque picadinho não leva salsa, e ainda por cima inteira e sem lavar fica com gosto de mato… Ao menos deveriam ter picado a salsa.

Deixa de ser idiota e ridículo. – diz o sujeito que odeia o interlocutor – Salsa é pra colocar inteira que fica ótimo. E por falar nisso, como vai aquele arroz que você queimou?

Mas heim? Na verdade não houve nenhum arroz queimado. Talvez com pouco tempero. Talvez não tenha ficado totalmente ‘al dente’. Mas alguém disse por aí que o sujeito queimou o arroz, e agora, em todo lugar, basta o sujeito abrir a boca que alguém cita o arroz queimado. Mas vem cá: o que o arroz supostamente queimado tem haver com a salsa no picadinho? Pois é, nada. Neca de pitibiriba. Porra nenhuma. Zero. Nada, nadinha, coisa alguma!

O cidadão já cansou de explicar que o arroz não ficou queimado (ao que o outro grita que nem mulherzinha histérica que viu barata: “Mentira. Todo mundo sabe o que aconteceu com o seu arroz!” É legal quando alguém de fora acha que sabe mais do que quem comeu o arroz, né não?), e que na verdade, isso não é da conta de ninguém. Que a sua capacidade de fazer arroz não lhe dá mais ou menos argumentos para ter uma opinião sobre salsa no picadinho. Que na verdade, o arroz ficou com algumas gramas de tempeiro a menos, mas não foi prejuízo. Afinal, não era uma panelão de arroz (que nem ele sabe que alguns fizeram, e que era pra um batalhão mas sobrou arroz aos montes), mas uma panela bem pequena para poucos comensais e que foi cerca de 1/3 devorada. Mas que ele não está ali para discutir arroz. Que o assunto é salsa. Mas quando o sujeito não o está chamando de idiota porque não concorda com o uso de salsa inteira (o que é um assunto que rapidamente se esgota), o está chamando de idiota porque queimou o arroz. Que arroz? Que queimado? WHAT’HELL?! E aonde está o direito de começar a xingar porque acha que salsa é manjar dos deuses e arroz (supostamente) queimado é crime capital?

 

Eu amo a pluralidade. Sério. Amo mesmo. Que usem salsa ou não usem. Eu detesto, mas sei lá, tem quem gosta. Vá ser feliz colocando salsa no seu picadinho que isso não muda minha vida em nem um milímetro. Então eu juro, eu amo mesmo a pluralidade. Mas odeio burrice, bronquice, incapacidade de discutir e argumentar, e essa necessidade de mudar de assunto para atacar alguém quando o assunto em questão não é motivo pra isso, ou ainda, quando na verdade, nenhum assunto é.

No começo você deixa quieto. É ridículo. É patético. O sujeito está usando a corda dada pra se enforcar ali na sua frente, discutindo salsa no picadinho e um suposto arroz queimado como se isso mudasse a vida de alguém, enriquecesse a vida de alguém, pagasse as contas de alguém ali… Tem hora que você até ri (mas não vai escrever isso, “seu comentário me faz rir” porque a noção básica de civilidade nos diz que a gente tem que ouvir e respeitar o argumento do outro mesmo quando a gente não concorda, o que quando o outro não está de fato argumentando, e sim desviando, rebatendo e xingando,  deveria ser uma excessão à regra, mas ainda assim, mamãe nos deu educação de sobra!). Quando alguém pensa em dar um chega pra lá no sujeito, você é o primeiro a dizer: deixa quieto. É um pobre coitado que deve ter em salsa e arroz as únicas alegrias na vida dele. Mas dá no saco. Torra a paciência. Esgota sua praticamente inesgotável condescendência com as limitações alheias.  E alguém tem que bater o pau na mesa.

Amigo, o assunto é salsa no picadinho. Se não sabe conversar feito gente, a partir de agora, só abra sua bocarra pra discutir receita de picadinho com ou sem salsa. Não pra xingar a mãe (filho, cachorro, papagaio, vizinho, primo e cunhada) de ninguém. Ou pra citar arroz queimado que você ACHA que aconteceu e ACHA que isso vai denegrir seu interlocutor. É que os olhos (já que é lido e não ouvido) da gente não é pinico e quem manda nessa bagaça sou eu.

***

É assim que a gente lida com criança. Dá liberdade pra se expressar, mas quando fala palavrão e xinga o coleguinha, a gente fala ai ai ai e dá tapinha na mão. E se não adiantar, põe de castigo. E mostra que na nossa casa, todo mundo tem que ter educação: ou se aprende por bem, ou vai ter que aprender por mal.

 

Liberdade, democracia e pluralidade. As melhores coisas do mundo. Quando se sabe usar. Só quando se sabe usar!

 

 

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