Paradigmas e comportamentos · Pensamentos Aleatórios

Os afetos, os desafetos e as leis da física

A vida é essa sucessão de histórias que se entrelaçam. Pessoas que vão, vem, cruzam seu caminho das mais variadas maneiras e cujas histórias imprimem marcas na sua vida e vice versa. Boa parte do tempo, você não pensa neles: os afetos e desafetos que ficaram caminho a fora. Mas eles estão lá, são impressões indeléveis, sutis ou não, na sua história.

Durante algum tempo eu tive essa semi-angústia relacionada aos desafetos. Explico. Eu tenho uma daquelas consciências ultra-mega-hiper-super-limpas de que nunca, mas nunca mesmo, fez algo intencionalmente pra magoar alguém. Não vou dizer que caí de amores por todo mundo que cruzou meu caminho. Sentir antipatias, muitas vezes injustificadas e não provocadas, é parte da natureza humana. Gente se agrupa de acordo com interesses em comum, química, leis do magnetismo que atraem ou repelem. Mas nunca me peguei num momento do tipo “não-gosto-de-fulano-então-vou-fazer-isso-pra-que-ele-se-ferre”. Meu potencial sádico tende a zero e nunca tive prazer no sofrimento alheio, por mais desagradável que fosse o alvo potencial. Embora me pegue em momentos invejosos do tipo “quero também” (e ênfase no também), nunca, mas nunca mesmo, tive sequer o pensamento, que dirá ação, no sentido de se não tenho (ou não tenho mais), fulano não pode ter. Também nunca fui do tipo – e isso pode explicar porque mais de uma oportunidade me escapou pelos dedos e porque já perdi o trem da história incontáveis vezes – capaz de pisar em alguém para conseguir um objetivo. Gente pra mim não é escada e me é impossível escalar cabeça por cabeça pra chegar onde quero chegar. Eu peço licença (burra eu, né?), e torço pra que saiam do meu caminho a tempo de pegar o tal trem da história.  Até hoje, tática mal sucedida, mas sem pretensões de modificá-la.

Então, dada essa minha natureza – que não é Madre Teresa de Calcutá, não me entendam mal…. Sou geniosa, irritadiça, grosseira até, capaz de dizer coisas bem duras em momentos de raiva, reservada a ponto de parecer antipática, levemente auto-centrada e do tipo que infelizmente não esquece mágoas facilmente, perdoa sim, mas não esquece – enfim, devido a essa minha natureza, nunca fiz mal intencional a outro ser humano, mas já fizeram a mim, mais de uma vez. Então eu tinha essa semi-angústia de me ver em um mundo injusto, onde dei meu ombro pra que fulano desabafasse todas suas dores, paciente e compreensiva, e depois levava punhalada pelas costas e ganhava um desafeto sem entender direito o que é que eu tinha feito de errado, e coisas desse tipo.

Se a vida era ação e reação, pura física aplicada, o que diabos tinha sido a minha ação tão violenta para receber aquela reação em igual força e sentido contrário? Minha leitura desse mundo era levemente limitada e literal, e eu esquecia no meu ‘dricentrismo’ que o cosmos não girava ao meu redor. A ação não tinha sido minha. O livre-arbítrio e os muitos movimentos concêntricos que se entrecruzam constantemente tiram objetos em órbita fixa de seu eixo, os conduzem em diferentes direções, se esbarram, criam energia no choque, aplicam a lei da inércia como empuxo ou como atrito, modificam os parâmetros outrora estabelecidos. Ou em português claro, pessoas mudam, fazem escolhas eventualmente “erradas” (ou desfavoráveis à mim), tomam novos rumos, perdem o interesse… E não há muito que se possa fazer a esse respeito.

Durante a formação do sistema solar, proto-planetas simplesmente estavam no caminho uns dos outros, todos orbitando o mesmo sol em trajetória que se chocavam. Alguns deram sorte e viraram planetas. Outros deixaram de existir. Eles infelizmente não tiveram a escolha de sair do caminho: nós temos.  Então há coisas que, sim, fogem ao nosso controle. Nem todo mundo vai pensar em você antes de sair atropelando rumo ao seu objetivo, ou vai trocar de roupa entre o momento em que precisou de você e o que irá falar mal de você sem dó nem piedade. Hoje eu opto em sair do caminho, a maior parte do tempo. E esse movimento de sair levemente da órbita e deixar passar, pode me surpreender um dia desses. De novo, explico.

Há um desafeto que volta e meia usa meu santo nome em vão. Aliais, é até pior que isso. Não o usa diretamente, como se eu de repente deixasse de ter existido, de ter importância isoladamente e passasse a ser parte amorfa de uma entidade de múltiplas cabeças objeto de seu desafeto. Me peguei pensando que nem sempre foi assim. Que em dado momento, a trilha sonora foi “encosta a sua cabecinha no meu ombro e chora, e conta suas mágoas todas para mim…” Que eu “perdi” madrugadas ouvindo mimimis no bom sentido, lamúrias, angústias, dúvidas. Que fui amiga. Mas de repente eu estava lá no caminho, e lá veio o trem bala a me atropelar. Essa lembrança não me causou tristeza ou consternação. Veio mais como uma constatação de que as coisas mudam, nem sempre para melhor, e muitas vezes independente do histórico pregresso.

Ao mesmo tempo, porque isso acontece com quem vive plenamente (mais de uma coisa acontecendo ao mesmo tempo), essa outra coisa estava acontecendo. Um antigo afeto, que em dado momento me viu no caminho, não como alvo mas como instrumento, e que me atropelou feio há muito tempo atrás, e cujo processo de perdoar foi muito, muito complicado e doloroso, havia recebido essa tática de sair do caminho, evitar o atrito, me conformar com a minha falta de responsabilidade pelas escolhas alheias e seguir em frente. Ao invés de se tornar um desafeto, ele simplesmente freou no caminho (como quem nota que não era, nem de longe, a melhor órbita). Estabeleceu uma nova rota, onde paralelamente cruza com a minha aqui ou ali. E dias atrás foi um desses momentos onde nos cruzamos, ele indo, eu vindo, ou vice-versa versa-vice… E houve uma manifestação de carinho, cuidado e preocupação tão espontânea e genuína que me comoveu.

Assim como o desafeto do outro exemplo, já trilhamos um mesmo caminho que em algum momento se separou. Interesses contrários se interpuseram. Coisas foram feitas e ditas que são difíceis de serem simplesmente esquecidas. E ainda assim, a tatuagem que ele escolheu que minha passagem na vida dele fosse, não foi a da minha ira ao me sentir traída, foi o do meu passo para o lado, para que ele achasse seu próprio caminho. E vice-versa. A tatuagem que ele me deixou foi de alguém procurando o caminho de casa, e não de alguém que me fez mal.

E de um modo geral, assim, de quem olha de fora como ao folhear um livro, ele me pareceu mais feliz, mais tranqüilo, mais bem resolvido por ter feito essa escolha, e não outra.

Porque a bem da verdade quem acumula desafetos, e lhes dá importância, poder de voz e voto na sua vida, tem esse tom amargo e rançoso de quem provou da vida, mas não gostou de fato. É ação-reação em micro-cosmo: para cada um que você escolhe (ou se deixa) desejar mal, há um amargor que se acumula dentro de você. Essa coisa quase imperceptível que está lá, incomoda, mesmo que você não note. E todo esse esforço de apagar as boas tatuagens que lhe deram, e deixar as marcas ruins como lembrança do seu encontro com outras vidas…

Pessoas vão cruzar o seu caminho. Suas histórias vão se entrelaçar com a sua. E há muito que você não irá poder escolher… Mas você pode escolher que as marcas intencionais que você deseja deixar sejam sempre positivas. Escolher sair do caminho quando escolhem colidir com você. Guardar desses encontros o que eles tiveram de positivo, e simplesmente ignorar o resto. Se poupar das relações onde você é o alvo, e não um companheiro de viagem. Entender que as suas ações causam reações, é fato. Mas que você só tem controle sobre as SUAS ações. Que frente às ações dos outros, só lhe cabe escolher as reações. Que o quanto alguém pode lhe ferir é proporcional ao quanto você se deixa ferir (em física, a violência do choque entre dois corpos está ligado a velocidade e força que um corpo inflige em outro, mas também a velocidade e força com que esse outro corpo resiste ou impõe em sentido contrário… Não reagir, ou usar a tática tai-chi de usar a força do adversário contra ele e se defender ao invés de atacar, diminui o impacto, além de ser uma estratégia de uso da inércia a seu favor…). Que paz de espírito é um bem mais precioso do que estar certo (ou errado posando de certo). E que a lei do retorno pode lhe surpreender.

Porque  o mundo dá voltas. E como dá.

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