Meios e Mídias · Paradigmas e comportamentos

Imparcialidade, esse conto da carochinha…

A física quântica deu o coup de grace no que as ciências humanas já há muito tinham decretado a falência múltipla de órgãos: a tal da imparcialidade. Partículas subatômicas mudam de comportamento quando passam de não observadas para observadas. O simples olhar do observador inviabiliza a imparcialidade. Ao olhar, simplesmente olhar, o observador que almejava imparcialidade, passa de estudioso à parte do objeto de estudo, e seu olhar determina o comportamento do observado.

Então quando leio algo como “espera-se uma resenha imparcial”, eu fico pasma, procurando entender em que língua morta e enterrada essa frase foi escrita. Como assim uma resenha imparcial? Ao resenhar, eu estou dando descrevendo as características de um produto, o que é impossível sem deixar, nem que seja nas entrelinhas, a minha opinião. Procurem no dicionário: Opinião -> s. f. Juízo ou sentimento, que se manifesta em assunto sujeito a deliberação. Se sou incapaz de observar uma partícula subatômica sem alterá-la, como posso escrever um texto, sobre o que quer que seja, sem me tornar parte daquilo que escrevo e ser, por definição, parcial e opinativa?

Óbvio que não preciso apelar… não vou escrever uma resenha sobre um texto meu. Seria quando muito um resumo, nunca uma resenha (minha opinião sobre a minha opinião? Santa redundância, Batman!).  Ou se não gosto do produto, vou me certificar que isso não é um problema, ou se outras pessoas também vão resenhar o mesmo produto, para garantir o máximo de pontos de vista sobre aquele assunto.  O mesmo pra se gosto demais do produto.  Mas de qualquer forma, se cabe a mim escrever  ou falar sobre o assunto X, alí estará a minha opinião, a parte minha que foi movida por aquele assunto, a minha parcialidade completa, absoluta, irrestrita. Sempre.

Um jornal, por exemplo, que tem como função narrar os fatos, não é imparcial. A escolha do que é notícia ou não, já é uma parcialidade. A localização da notícia (se na primeira página ou num canto num caderno secundário), também. O tom que o jornalista narra o fato, e a escolha dos detalhes que são colocados na notícia, também revelam sobre quem escreve e sobre a linha editorial do jornal em questão. Tudo é soma de observador e observado, e nada é o fato puro em si.

O livro que eu leio é o livro que eu leio. Ao contar para você sobre ele, estou contando sobre o livro, mas estou lhe contando também algo sobre mim. O que gosto, o que desgosto, meu estilo narrativo, características que são minhas e não (só) do livro. E isso não porque eu seja pouco profissional ou possua objetivos escusos de influenciar a sua opinião, mas porque a minha impressão pessoal é tatuada na experiência da leitura do livro, e se reflete na minha escolha de palavras, naquilo que inconsciente destaco na narrativa, e em cada ínfimo detalhe do processo de narrar o livro.

Além do mais, pessoas tem estilos diferentes. Umas são mais sérias, outras mais debochadas. Umas são mais detalhistas, outras se concentram no que ACHAM relevante. Umas são mais de colocar panos quentes, outras soltam o verbo. De novo, isso não está nem de longe relacionado a uma suposta imparcialidade. Não só as pessoas pensam de forma diferente, como SE MANIFESTAM de forma diferente. E podemos gostar do estilo narrativo de fulano e não gostar do de beltrano, e ambos acharem a mesma coisa sobre o produto X, mas ainda assim, você vai preferir ler a resenha do fulano. Não é porque o fulano é imparcial e objetivo, é que você prefere o jeito dele escrever e só isso. Porque ele está colocando tanto de si mesmo na resenha quanto o outro autor, acredite, ele está!

É por isso que não é nada repetitivo que um produto seja resenhado por mais de uma pessoa, e não é a toa que muitas vezes essas resenhas pareçam ser de produtos diferentes. Mas ele leu o mesmo livro que eu? Porque eu não entendi nada disso, ou achei nada disso, ou vi nada disso. Pois é… ele não leu o mesmo livro que você. O objeto físico, livro lido, pode ter sido o mesmo, mas o objeto resenhado, a experiência livro, foi outra, completamente diferente.

E esse é o máximo de imparcialidade que um ser humano é capaz de obter: permitir que num mesmo espaço, coexistam opiniões diferentes sobre um mesmo assunto, escritas por pessoas diferentes que vivenciaram experiências diferentes.

Muita gente não permite nem isso. Não fala em português claro, mas nas entrelinhas seu discurso diz: na minha casa, só se fala bem de X e mal de Y. E qualquer coisa diferente disso é vetado. Seja pra não dar ibope pra concorrência, por ter opiniões arraigadas demais, ou por se saber parcial e gostar disso. O grande pulo do gato da imparcialidade, que isoladamente é impossível, é a democracia e a pluralidade, a convivência do diferente, a diversidade de culturas e opiniões em um mesmo espaço físico (ou virtual). É o falem bem E falem mal. Ao mesmo tempo. Aqui e agora.

E isso não tem nada haver com a resenha ser positiva, neutra ou negativa. Resenhas neutras não são resenhas imparciais. São resenhas de produtos que não imprimiram nenhuma experiência positiva ou negativa o bastante para se revelarem nas palavras escolhidas. Resenhas neutras são só isso, neutras…
E muitas vezes, há poucas qualidades nisso. Numa resenha extremamente positiva, vamos ver todos os pontos bons do produto, tudo que, se eu partir de um ponto de vista próximo ao daquele que a escreve, eu vou encontrar de agradável se eu adquirir aquele produto. Já as extremamente negativas, me antecipam o pior cenário, me mostram o que o produto tem de pior, e se aquelas características forem importantes pra mim, eu já vou saber que não é um produto do meu interesse.

E o contrário também está valendo. Ao ler uma resenha extremamente positiva, eu posso notar que o que o autor acha importante no livro, pra mim é uma grande bobagem e perco o interesse no produto. Ou ao ler uma resenha negativa, posso achar que o que foi levantado como defeito, são coisas que habitualmente eu costumo gostar, e comprar o produto a despeito das palavras ásperas de seu resenhista.

Já uma resenha neutra é… bem, neutra, né? Não diz a que veio, não provoca em mim nem curiosidade nem interesse nem repulsa. Passa em branco na minha existência como passou pela existência de quem a escreveu.

Resenhas, e pra ser exata, qualquer discurso escrito ou falado, são guias, são sugestões do que alguém achou de bom ou ruim em alguma coisa. São opiniões, manifestações pessoais de idéias e pensamentos. São observador e observado interagindo e criando uma experiência. Ao se identificar, ou não, com a linha de pensamento daquele que profere o discurso, podemos usar isso como guia probabilístico para se gostarei ou não daquele produto. Resenhas não são verdades absolutas, não são leis universais e nunca, nunca serão imparciais.

Então da próxima vez que reclamar que uma resenha foi parcial, entenda que todas as resenhas são parciais por definição e natureza. Que tudo é parcial por definição e natureza. E que partículas subatômicas ao seu redor estão se comportando de uma maneira que você nunca saberá qual é, pois mudarão de comportamento, no instante que você resolver observá-las…

***

PS: Apesar de acharem que estou respondendo isso ou aquilo, meus textos são, e sempre serão, exercícios intelectuais, independente de onde os torno públicos ou do gatilho que me motiva a escrevê-los. As pessoas deviam fazer isso aqui e ali. Desenvolver idéias (minha idéia tem acento) e argumentos, organizar seus pensamentos e pontos de vista, esse tipo de coisa. Eles não são respostas, não são defesas, não são concessões a algo ou alguém. São simplesmente o exercício de organizar meu pensamento…

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