Vicky, Cristina e o Nada

Eu podia ser ultra cool e dizer que é um ótimo filme de uma ótima fase do Woody Allen e discorrer sobre as diversas conotações filosóficas que o filme apresenta e… Bem, eu podia. Mas Vicky Cristina Barcelona tem um problema que é recorrente na obra do Woody Allen: é um belo tratado,mas sobre o nada. O W.A. é uma espécie cronista visual cujo tema fundamental é a neurose humana. E não nego o seu talento para fazer retratos, muitas vezes divertidíssimos, sobre o tema. Eu não desgosto do trabalho dele, só tenho quase sempre (excessão pro A Rosa Púrpura do Cairo, que é um filme que eu amo de paixão) a sensação de incompletude e inutilidade quando os créditos começam a subir. A idéia é que para ver neurose pela neurose, basta a gente se olhar no espelho: e muitas vezes os filmes do W.A. são só isso: a neurose pela neurose.

Vai rolar (MUITO) spoiler, então se não viu o filme, que alias é um bom entretenimento, pode parar de ler por aqui. Alias, esse é um bom momento para que eu deixe claro que eu não detestei o filme ou coisa assim. Apenas, como é recorrente, fiquei com um certo desapontamento ao fim da experiência, aquele habitual “Ah, tá…” É que quando vejo um filme, no caso, um drama do cotidiano, a gente espera uma espécie de catarse em algum momento, e o esquema básico da construção de um conto: personagens são apresentados, um conflito se instaura, os personagens precisam lidar com o conflito. Uma vez lidando com o conflito, embora não esteja escrito em nenhum lugar que é uma lei, o que se espera é que algo advenha dessa resolução. Algum tipo de epifania, de conclusão que vá em uma espiral ascendente (ou mesmo descendente), qualquer coisa. E o nada não se classifica como qualquer coisa.

Vicky, Cristina, Juan Antonio e Maria Elena

Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) vão passar suas férias de verão em Barcelona. Vicky é conservadora no que diz respeito ao amor. Cristina é uma livre pensadora. Um homem interessante com uma história de amor conturbada e um aproach bastante direto aparece em suas vidas, e por razões diferentes, ambas se envolvem com ele. Cristina é quem tem o interesse, e o primeiro movimento em um idílico fim de semana, mas num acaso patético e bastante verossímil (a vida é patética!), ela perde a chance. Cabe a Vicky ser pega no clima de sedução da Espanha e viver um momento de paixão com pintor boêmio e problemático Juan Antonio (Javier Bardem). Como era de se esperar, Vicky, que está noiva de Doug (Chris Messina),um homem mais perto do seu ideal de amor (alguém estável e confiável), se vê em um grande conflito interno, e começa a repensar sua vida.

Entretanto, ao voltarem do fim de semana, é à Cristina que o sedutor Juan procura. Não que não estivesse interessado (também) em Vicky, mas não pretendia atrapalhar seus planos de casamento, então resolve deixar seu afair no passado. Juan e Cristina se envolvem seriamente, passam a morar juntos, até que Maria Elena (Penélope Cruz) a ex-mulher de Juan, também pintora e também desajustada, tenta suicídio, e é levada para a casa do novo casal para se reestabelecer. Os três depois de um pequeno período de estranhamento, se envolvem romanticamente e em se completam: com Maria Helena, Juan tem o vício. Sem ela é menos, com ela, descontrola. Cristina lhes fornece o equilíbrio e o canal por onde eles se encontram mas não se consomem.O começo é incômodo, mas através dessa inusitada relação, Cristina acha seu dom, depois de flertar com tantas formas de arte, e se encontra na fotografia.

Enquanto isso, Vicky, que inveja o livre pensar da amiga, começa então a repensar seu recém casamento (já que o noivo resolve surpreendê-la indo para a Espanha também, para se casarem naquele romântico cenário) e quase se envolve com um colega de um curso de espanhol que está fazendo. Mas recua, como sempre faz. Sua natureza é a de recuar.

Tudo corre seu curso enquanto os personagens vivem de acordo com suas naturezas e parecem ter encontrado seus objetivos, mas eles se deparam com a sempre amarga pergunta: então é isso?

Em dado momento, sem que nada de diferente aconteça, Cristina manifesta sua insatisfação crônica, e sai do relacionamento a três. Ela nunca sabe o que quer, mas sabe o que não quer mesmo que o que não quer seja o que antes ela parecia querer… não muito diferente de Vicky, se você pensar bem! A natureza de Cristina também é a de recuar, com a diferença que antes, ela se joga. Sem sua presença, a instabilidade do romance dos dois pintores neuróticos (beirando o psicótico) se manifesta e eles também se separam.

Vicky está amargurada com a relação tediosa que escolheu. Sua anfitriã em Barcelona é Judy (Patricia Clarkson), uma mulher de meia idade, cujo filho já ganhou o mundo, e se sente presa em um casamento com Mark (Kevin Dunn) onde não há mais paixão. Depois de presenciar uma indiscrição da anfitriã, Vicky e ela se tornam confidentes, e ao saber da paixão da jovem por Juan Antonio, a infeliz e infiel dona de casa age como cupido insano para juntar o casal, agora que Cristina está fora da jogada. E consegue que eles se encontrem. Durante o que deveria ser um tórrido encontro, a ex-mulher do artista amargurado aparece portando uma arma em uma cena burlesca, e Vicky se fere de raspão por acidente, e sai de cena, incapaz de lidar com tamanha loucura.

Até esse momento temos um filme despretensioso, mas interessante. Com personagens neuróticas mas verossímeis. E embora nada tenha nos feito pular do sofá vibrando com as personagens, nada entediou. A narração em off em tom de quase deboche embora imparcial é um recurso interessante e chega a ser divertido. Um bom filme. Mas ele está chegando ao fim.

Vicky, seu marido e Cristina voltam aos Estados Unidos com o fim das férias e… e mais nada. Vicky Cristina Barcelona conta a história de umas férias na Espanha onde tudo acontece, mas nada acontece. Dos inusitados, tórridos, insanos, improváveis e entretanto, verossímeis eventos que acontecem nas férias, nada fica, nada muda. Vicky continua em sua opção pelo amor seguro. Seu marido Doug continua o ex-corno / quase corno que nada sabe. Cristina continua sem saber o que quer (embora acredite saber o que não quer). Judy , a anfitriã, continua presa em seu casamento infeliz (com seu marido corno Mark que nada sabe). Maria Elena continua desequilibrada em idas e vindas de seu romance fracassado, assim como Juan Antônio. E em todas as maneiras possíveis, é como se nada houvesse acontecido. E dada a inutilidade dos confrontos que os sacodem, e entretanto, os mantém presos em suas próprias neuroses, incapazes de absorver o potencial de transformação que é a própria vida, o filme todo é um grande desperdício de película, assim como as personagens, em seus dramas cotidianos, poderiam ser consideradas grandes desperdícios de ar…

Claro, claro… poderíamos dizer que eles sempre terão Casablanca, digo, Barcelona, e que as memórias irão perdurar, mas os eventos não provocaram sequer rachaduras pequenas em suas neuroses individuais, então nem a lembrança de umas férias interessantes e inusitadas tem alguma força potencial. Poderíamos então divagar sobre todo o existencialismo que perpassa o filme, a natureza fadada a ser repetir, as neuroses humanas tão encrustradas em nós mesmos que nos cegam e nos impedem de alcançar nossos potenciais, mas todo esse existencialismo contemporâneo do Woody Allen é um pouco massante, repetitivo e circular. Volta sempre ao mesmo ponto que já foi dito e repetido em outras obras, e depois de um certo ponto, esgota-se em si mesmo e nos chega desprovido de sentido, conteúdo ou necessidade. Como disse, para ver uma fotografia da neurose humana, eu tenho o meu espelho: não preciso assistir um filme para compreender esse assunto. E todo esse papo de do abismo nos encarar de volta se o encaramos, seja nas grandes ou nas pequenas tragédias cotidianas, meio que já deu o que tinha que dar…

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