A Onda (ou todo ser humano é um fascista)

Todo ser humano almeja o poder. Todo ser humano necessita de identificação de grupo. Todo ser humano deseja ‘fazer parte’, não importando do que. Todo ser humano quer ser considerado especial e melhor que os que não fazem parte de seu seleto grupo. Todo ser humano deseja estar certo. Todo ser humano deseja silenciar as vozes dissidentes. Todo ser humano deseja que suas ações sejam justificadas. Toda individualidade se anula frente ao poder do coletivo. Todo ser humano é um fascista por essência. Pesado? Irreal? Reducionista? A verdade é dura, triste e indesejável, e ainda assim, é uma verdade. Todo ser humano é, em essência, um fascista. E disso se trata o filme alemão Die Welle, de 2008

A Onda (Die Welle) é um filme mais pretensioso (no bom sentido) e dramático que seu homônimo A Onda (The Wave – 1981), mas ambos contam a mesma história, que é baseado em um livro (The Wave, de Todd Strasser, também de 1981) que por sua vez, conta um fato verídico ocorrido na década de 1960, numa ‘high school'(o equivalente ao nosso 2o grau) em Palo Alto, California. A versão antiga e americana, foi feita para a TV, produção de baixo custo de cerca de 40 min e se não me falha a memória, todo filmado em locações internas que não variavam muito. Já se vão muitos e muitos anos desde que, embasbacada e completamente impressionada, assisti o filme original, mas tenho a impressão que o final foi mais didático e menos dramático. Ou talvez o fim incrivelmente violento da versão mais recente, feita para o cinema e selecionado em festivais, tenha causado seu impacto, diminuindo qualquer resquício de memória de um final igualmente dramático de seu antecessor…

Numa tentativa de tentar explicar a autocracia para um grupo de estudantes contemporâneos que acreditam que o nazi-fascismo é passado e que a Alemanha não corre mais o risco histórico de cometer o mesmo erro, um professor começa uma “inocente” experiência coletiva: transformar as diferentes individualidades isoladas dentro de sala em um grupo coeso guiado por um lider. Paulatinamente ele insere as noções de disciplina, coletividade, identidade, ideologia, poder, importância e escolha de um nêmesis (no filme, os “anarquistas”, sejam os estudantes da classe paralela que tratava do anarquismo, ou os anarquistas de fato) em dezenas de jovens ávidos por fazer parte de algo, por terem uma causa, por se sentirem importantes e necessários. A natureza e a lógica dos fenômenos de massa se mostra em sua simplicidade: e por ser tão simples, se torna quase imperceptível até que já esteja totalmente instaurado. O micro-cosmo fascista logo ganhar adeptos, simpatizantes e antagonistas. O movimento, denominado A ONDA e que assim se comporta, se espalha, arregimenta novos membros, exclui os dissidentes, cria sub-ordens de poder em uma intrincada hierarquia.

No filme original, a experiência possuía maior intencionalidade. No filme alemão, a coisa é meio que decidida em grupo e toma rumo próprio muito mais rapidamente. Mas em ambos, ela saí do controle. É preciso atos de vandalismo, devoção cega e explosões de violência, para que o professor entenda que havia criado um monstro. E em uma dramática encenação, ele desmascara a si mesmo para seus alunos, mostrando o quão fascistas eles haviam se tornado. O desfecho não chega a ser surpreendente, até pela forma como, nessa versão, o professor lida com a criatura que criou,criatura essa que havia ganho vida própria. Mas é um final com alta carga dramática e tensão. Não vale o spoiler: melhor ser assistido.

Gostamos de acreditar que aprendemos com os nossos erros, que respeitamos o diferente, que nossa individualidade se sobressai na coletividade e que fascista são os outros… Talvez, se nos fosse dada a oportunidade de integrar uma experiência como A Onda, descobriríamos, da pior maneira possível, que todo ser humano é, como disse e repito, um fascista nos seus desejos mais profundos e inconscientes…

Do filme original, destaco o discurso final do professor, bastante modificado no mais recente, buscando o impacto necessário em outros recursos. Mas a fala, atual, necessária, dá o tom do discurso. A vigília contra a autocracia e contra os regimes e comportamentos fascistas, começa, primordialmente, na vigília sobre nós mesmos…

Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.

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5 comentários sobre “A Onda (ou todo ser humano é um fascista)

  1. Fui pesquisar e baixar o filme só com base nessa resenha.

    Não conhecia.

    Sou um Junkie por coisas sobre o Fascismo.8D

    Deve ser a herança genética italiana… ¬¬

    PS: Já leu um artigo do Umberto Eco que chama “O Fascismo Eterno”?! (Acho). É muito bom.

    1. Baixou o original ou o mais recente? É muitooooo bom. Enquanto eu dava aula procurei como louca o original para baixar: dava pra passar em uma única aula e toneladas de discussões podiam se originar dele… mas nunca achei, nem pra baixar nem em locadora.

      O novo, só soube da existência recentemente. Deve passar de novo algum dia dessa semana no max prime, mas não sei qual! 😦

      depois de assistir, volta aqui e fala o que achou. Matheus e Letícia assistiram agorinha, e ficamos bem uma hora discutindo o filme. 🙂

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