A quase síndrome do ninho quase vazio

Sinceramente, achei que isso não ia ser problema. Ou melhor, deixa eu contextualizar essa coisa toda. Eu não sei se é meu lado psicótico que tá falando mais alto, ou todo mundo tem vários lados. Eu sou sim, chorona, emotiva, dramática. Minha vó, que o universo a tenha, me chamava de manteiga derretida. Por um dá cá aquela palha lá estava eu desidratando, toda melosa… Mas eu tenho a impressão que não é esse lado que fala mais alto pros outros ou até pra mim. Eu sou pragmática, ríspida, seca até. Nunca passei pela fase do “desliga você” “não desliga você” “ah não, desliga você” com namorado no telefone. Nunca fui de grandes demonstrações de afeto que saíssem do nada. Tenho uma objetividade seca com a vida e as coisas nela. O que é meio contraditório com a chorona, melosa e carente, ou com a surtada, surreal e idealista que também mora por aqui. Mas esquizofrenias a parte, eu não sou bibelô.

Em se tratando de filhos, sempre criei eles pro mundo. São meus só em teoria, de fato mesmo eu só os pari. No momento que deram os primeiros passos e resolveram usar a blusa azul e não a verde que eu separei para usarem, eles já eram deles mesmos. Friamente falando, eu só mando nessa bagaça porque legalmente é assim que funciona, mas nunca tive grandes ilusões de poder ou retribuição. E sou assim em todas as minhas relações. As pessoas ficam umas dos lado das outras por várias razões, e há relações hierárquicas que foram socialmente impostas. Necessidade, interesse e amor tem hora que é uma amálgama só, e não dá exatamente pra separar o que é o que. Então as pessoas PRECISAM umas das outras, mas ninguém está grudado em ninguém, o que é, vamos combinar, até bom. Eu gosto de companhia quase na mesma medida que gosto do meu espaço… E hoje fulano tá aqui, mas amanhã pode não estar.

Tudo isso sempre foi extremamente claro pra mim. Racionalmente e emocionalmente também. A frase célebre do Tê (Vou sofrer até segunda-feira) foi só sitematizada por ele, porque na prática, eu sou mulher de sofrer até segunda feira. Visceralmente, mas só até segunda feira. E vamos em frente que a fila anda. Todas elas.

Então alguém pode me explicar, porque eu não tô conseguindo, porque estou tão, mas tão síndrome do ninho vazio hoje? Caiu uma ficha atrás da outra: o Marido tá no Rio e só volta sem ser essa sexta, a próxima. O filho mais velho também tá no Rio, e não sei ao certo se passa por aqui nessas férias. O do meio acaba de ir pra SP, e ainda não deu sinal de vida, de qualquer forma, só volta na 2a feira. A mais nova de amanhã até sábado vai passar o dia fora nas oficinas da Mostra Audiovisiual que sempre acontece aqui em julho. E eu vou fazer o que mesmo? Ah é, nada.

E o pior é que não queria estar fazendo nada diferente disso. Quando essas coisas acontecem e eu lamento não ter uma coisa pra fazer, aí faz sentido sentir o ninho vazio. Parece que se perdeu tempo cuidando e nutrindo e de repente todos foram embora (cof cof… estamos falando de mim, gente… eu não sou ASSIM tão maternal). Normalmente esse vazio vem de se viver para filhos e marido, e quando eles se ausentam, falta sentido. Mas não é o caso. Eu só estou sentindo falta deles, em alguns casos, antecipadamente… A verdade é que no momento eu só queria a casa cheia, e eu fazendo nada. Só a sensação do habitual mesmo. A calma insana do que nos é conhecido.

Ou vai ver virei mesmo uma velha senhora, e preciso retomar o tricô e aprender a fazer melhores compotas, além de palpitar azedamente na vida de filho crescido, atormentar nora ou segurar na barra da calça de marido com desespero de mulheres de Atenas… Ou é só um soluço mesmo,  IK, que já vai passar, IK, quase passando, ik, é só esperar, ik, viu? já passou…

5 comentários sobre “A quase síndrome do ninho quase vazio

  1. ” (cof cof… estamos falando de mim, gente… eu não sou ASSIM tão maternal)”

    mas fica BOLADONA NA PRACINHA se eu falo isso!

    saudade MAEEE *-*

    1. Eu só estou repetindo o que vocês falam… acontece que quando vcs falam, parece um horror. E eu só não sou mãe de porta de escola, né?
      Então em público, a frase tem um sentido pejorativo horroroso. Parece que que eu sou um misto de enfermeira nazista com filhote de cruz credo e que meus filhos foram todos criados em estufa.

      Quando a única diferença entre eu e uma mãe “””normal””” é que eu não fico cantarolando “meu filho é melhor que o seu”, ou babando e bajulando em cima de filho ou achando que é um brinquedo meu preu colocar na estante. O que se vocÊ pensar bem, são coisas boas. Só não parece quando a gente fala. Ou ouve.

      Beijos! E saudades também. E afinal, vai vir aqui ou me trocou pela Bahia? (o que é uma ótima troca, eu só não preciso gostar dela! ) 😛

  2. Acho que faz parte do cargo, tá na job description, mas como é lá nas últimas linhas, e a gente já concordou com o que vinha antes, não presta muita atenção…

    Maternal ou “MATERNAL” não tem muito jeito não (acho eu). Até do que a gente passa a vida (deles) reclamando vai acabar sentindo falta, ou melhor ausência…

    Bem minha amiga, pelo menos você tem seus cachorros, e a certeza do dever cumprido, porque pra dizer aos quatro ventos que os filhos não estão em casa, e que não tem noticias deles por alguns dias, e que o único sentimento é saudade (é não histeria, preocupação, pânico, etc…) é uma segurança que eu acho que poucas mães da nossa geração podem ter.

    Beijos e bom fim de semana

    1. Primeiro, muito gostoso ver você por aqui. Saudades enormes de vocês, viu?

      Então, as malditas letras miúdas… A gente sabe que todo contrato tem, e que são justo nessas letrinhas que a coisa pega, mas ainda assim, nunca lê… COMO ASSIM eles iam crescer? COMO ASSIM eu ia ficar emocionalmente envolvida? COMO ASSIM eles causam cabelos brancos? COMO ASSIM????????

      Outro dia confessei pra Lê: dia de aula, eu passo a amanhã toda sentindo falta, querendo que eles cheguem logo, de vez em quando vou olhar lá fora pra ver se vejo a van deixando eles na esquina… O problema é que basta eles entrarem dentro de casa, normalmente brigando, preu esquecer do que é que eu estava sentindo falta… Ô inconstância! :)))))))

      Daqui a pouco a Anjinha, minha ajudante, vai pra casa dela e vou ver como vai ser o dia TOTALMENTE SOZINHA, me and my dogs, aqui no meio do nada. Como era um soluço mesmo, hoje não estou tão tristinha com isso, de repente durmo, leio (ah, o silêncio), tomo banho de banheira, sei lá… Todas essas coisas que NÃO DÁ PRA FAZER com eles em casa.

      Mas só pra chamar uma real, o dever ainda é semi-cumprido. Ainda rola alguns anos de tê-los sob minha guarda direta ou indireta, e ainda responsável pela formação deles de um jeito ou outro. E em dias cinzas o soluço é diferente, e lembra histeria, preocupação, pânico… tanto das coisas que a gente não controla, quando da minha competência de cria-los pro mundo. Mas como bom soluço, também passa.

      Acontece que eu lido com isso em um semi-estóico distanciamento: eles são do mundo, Bia. Algumas mães não entendem isso, mas são do mundo. Então é assim que precisam ser criados. Se tenho preocupação do Marcelinho no Rio? Várias. Mas é justo meu teste de fogo se eu o criei direito, se ele se vira sozinho, se ele abraça a sorte pra se livrar do inesperado…. E os outros, no mesmo esquema: ainda são menores de idade, mas proporcionalmente a idade que tem, eu os solto pra que eles treinem o skill de ser do mundo: Convenção com os amigos em São Paulo pro adolescente, evento na cidade pra pré-adolescente. E eu finjo que não me preocupo (não deixando essa preocupação ser maior do que um pensamento aleatório) porque no que depende da educação que eu dei, preciso confiar que eles vão fazer bom uso, e no que depende do acaso, preciso contar que como ainda crianças na alma e loucos na genética, o suposto deus, que protege as crianças e os loucos, vai olhar por eles onde eu não posso. 😛

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