Fiat Lux

Tales de Mileto, o primeiro filósofo ocidental registrado na história, dizia que o conhecimento mais difícil a ser atingido era conhecer a si mesmo. E o mais fácil era dar conselho (se fosse bom, a gente vendia!). Restava então conhecer a natureza.

Então, no remoto ano de 600 a.C., Tales estava lá entediado de olhar pra a água e para a lua, sobre os quais suas teorias, a despeito da falta de instrumental, se mostraram bastante acertadas, e também de saco cheio de montar teoremas geométricos, igualmente acertados, resolveu brincar com uma pedrinha de âmbar amarelo.

Joga a pedrinha pra cá, empurra a pedrinha pra lá, e o âmbar, devidamente atritado, revela sua mágica propriedade de atrair pequenas partículas ao seu redor. Eureka! (Opss, pensador errado!) Sem saber, ele tinha descoberto a eletricidade, mais especificamente, a eletricidade estática.

A sorte é que a descoberta parou por aí. Com um pouco mais de instrumental para lhe dar respaldo, ele, ávido observador da natureza, poderia ter descoberto mais, entendido seu funcionamento e suas propriedades, aprendido a canalizar essas forças naturais, e eventualmente, reproduzi-las. Se ele tivesse feito tudo isso, teria entrado para a história como o inventor da maior e mais viciante droga de todos os tempos. E estaríamos irremediavelmente viciados não há séculos, mas há milênios… É que somos uma raça resiliente, mas incrivelmente dependente. Junk people total, desesperados por mais uma dose no exato segundo que nos tiram a tal da energia elétrica!

Aproximadamente 2610 anos depois do momento em que Tales de Mileto brincou com uma pedrinha de âmbar (que aliás, é a origem do nome do nosso vício: elektron é o nome do âmbar em grego!), começou a ventar e armar uma baita chuva depois de uns dois meses sem cair uma gota d´água do céu. E tudo isso, milhares e milhares de kilomêtros distante de onde Tales  brincava inocentemente com o âmbar, desconhecendo a extensão do mundo e das ramificaçõesas de sua igualmente inocente descoberta.

Xiiii… vai chover! E foi o tempo de ir na janela ver incríveis redemoinhos de terra se formando em todas as direções, fechar a janela para que a tal da terra (e da água) não entrassem janela a dentro, e finalmente voltar para o computador pra o trabalho devidamente não salvo, e cabuft! a luz se apagou.

O desespero demorou um pouquinho para chegar. É que salvo honrosas excessões, quando falta luz por aqui, costuma voltar rápido. A CEMIG tem um dos mais caros kWh do Brasil, mas costuma ser eficiente. Ênfase no costuma. Literalmente não se pode elogiar.

Deitei e cochilei por umas boas 2 horas. Acordei no mais absoluto breu, com minha filha reclamando de fome. Quis gritar – porque fico realmente ranzinza quando durmo de tarde – para ela fazer o prato e esquentar no microondas, mas aí caiu a ficha: sem luz = sem microondas. Então eu tinha que providenciar janta do jeito convencional.

Lá fora estava mais escuro que a própria escuridão. Por sorte, tínhamos vela em casa (o que não é comum, já que raramente falta luz e pensar em eventualidades não é nosso forte!). Ligamos pra CEMIG, pela segunda vez na verdade, e depois da simpática atendende sugerir que desligassemos e religássemos o padrão (isso quando nem um poste a perder de vista tinha luz) debaixo de uma chuva torrencial, procurou no sistema e achou nossa reclamação anterior.

_ Não deve ser geral, ela dizia, pois não há muitas reclamações.

_ Minha senhora, eu moro numa rua afastada, onde a maioria das casas é de veranista, então se ninguém reclamou é porque não tem ninguém nas casas, mas pagamos – e caro – pela luz e está faltando luz…

Ela fala de lá, a gente fala daqui, e ela finalmente informa que uma equipe já foi despachada para o local, mas não há previsão. O mais cedo possível, dizia ela. Bem, o mais cedo possível foi o que havia sido dito no primeiro  telefonema, e naquela escuridão, não havia cedo possível!

Tentamos jogar pif-paf, mas não funcionou. Meu marido desistiu de viajar porque era impossível chegar no portão. Qualquer fonte de luz era instantaneamente devorada pela escuridão lá fora. E o vento e a chuva não paravam. Vencidos pelo tédio, fomos dormir.

Quer dizer, dormir é força de expressão. A Lê ficou lendo a luz de velas no sofá, que improvisamos como cama. Assim quando o sono batesse era só apagar as velas e dormir. Meu marido ficou jogando no celular e eu resolvi fingir que era capaz de dormir, usando as duas últimas barrinhas da bateria do celular pra ouvir música. Vi passar a hora da estréia da nova temporada de Chuck e depois, a hora da reprise, e nada de conseguir dormir ou da luz voltar. A cada duas músicas, que não passava de 10 minutos mas parecia 10 horas, eu abria o olho e encontrava a escuridão. Vi a réstia de luz ser apagada na sala, “vi” o cheiro de vela apagada e os sons do joguinho de celular finalmente cessarem e serem substituidos por leves roncos. No meio da madrugada, sem ter pregado o olho, minha maravilhosa bateria (eu amo meu Samsumg) finalmente acabou e eu fiquei no escuro e no silêncio. Depois disso, tudo ficou meio enevoado. Em algum momento levantei para iluminar o caminho da Lê até o banheiro, sentei na cama uma dúzia de vezes, e senti que meu marido fazia o mesmo em períodos alternados. E depois não lembro de mais nada.

O sol abriu seu caminho pelas frestas da janela e notamos que já era de manhã, e nada da luz. Haviam se passado 16 horas sem energia elétrica quando finalmente resolvemos levantar, providenciar café da manhã e ligar pra CEMIG outra vez. Novamente fomos atendidos por uma alma de inteligência superior que desejava que fossemos lá fora desligar e ligar novamente o desjuntor 3 vezes. Mas tinha que ser 3 vezes. Não podia ser 1 ou 4, porque 3 é um número místico e mágico que devolveria a luz pra minha casa embora faltasse luz em toda a rua… E eles enfiam a competência no saco, amarram numa pedra e jogam no inexistente mar de Minas Gerais…

Nesse meio tempo a geladeira finalmente degela e enche a cozinha de água.  E minha filha, instantes antes de receber um telefonema que levaria a uma pergunta, uma negação e uma ira infinita, está morrendo de tédio, e fala sem parar no meu ouvido.

Alguns trabalhadores da CEMIG que estavam de fato trabalhando pra resolver a questão nas proximidades é que informaram: previsão de retorno 1:30h. Voltou uma hora depois. ÊEEEEEHHHHHHHH!

Mas meu marido, que não tinha viajado, se aboletou no computador. Sem reclamar, afinal ao menos tínhamos energia elétrica, coloquei meu celular para carregar e fui confirmar o que já sabia: nenhuma reprise de Chuck. Eu teria que baixar o episódio e assistir no computador. O detalhe é que lá fora a temporada em questão já saiu e acabou tem séculos, e eu não baixei justamente porque prefiro ver na TV. Então tá…

Só pude sentar no PC depois das 13h, pra descobrir que todo meu trabalho da véspera havia sido perdido: 20 páginas resumidas a toa! Urrando de raiva, comecei a digitar esse post, até que por volta das 13:30h, adivinhem?? Pois é, caiu a força de novo.

Os tais trabalhadores da CEMIG, ainda trabalhando, deram o prazo de 1:30h novamente. Ainda bem que não fui eu que fui lá perguntar ou, transtornada como viciada que sou, teria dito a eles onde enviar a hora e meia de prazo…

Como terapia ocupacional (melhor que trucidar trabalhadores da CEMIG…), resolvi escrever esse post a mão. Entre idas e vindas (porque além de lidar com a falta de luz e tudo se acumulando, minha filha de 11 anos resolver ficar irada porque não a deixamos viajar para outro estado com a amiga, sob a responsabilidade de adultos que conhecemos só de vista, mesmo estando em recuperação em 3 matérias com prova na primeira semana de aula em agosto…), o post termina agora, exatamente 1:35 minutos depois da luz faltar pela segunda vez. E aí, tem luz na casa de vocês? Que bom, porque aqui nao tinha!

Em 600 a.C., Tales de Mileto teve a idéia cretina de esfregar uma pedra de âmbar. Depois disso, dezenas de infelizes, entre eles Platão (400 a.C.), William Gilber (1600), Galileu (1564 – 1642), Kepler (1571 – 1630), Copérnico (1473 – 1543), Descartes (1596 – 1650), Otton Von Guericke (1602 – 1680), Robert Boyle (1627 – 1691), Isaac Newton (1642 – 1727) e Francis Hauksbee (1688 – 1713), também resolveram em nome da ciência e do progresso, terem sua quota de idéias cretinas que nos levaram finalmente à energia elétrica e todos esses aparelhos que se tornaram essenciais e cismam em só funcionar quando há energia…

Antes ainda vivêssemos em cavernas no escuro. Ao menos quando faltasse luz, não saberíamos o que estávamos perdendo!

(PS: a luz voltou às 16:30, o dobro do tempo estimado… E obviamente meu marido se aboletou no pc outra vez. Agora, cá estou eu, enquanto ouço a filha se lamuriar no telefone pela viagem frustrada , e me perguntando porque o problema foi na luz e não no maldito telefone…)

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3 comentários sobre “Fiat Lux

  1. “Mas tinha que ser 3 vezes. Não podia ser 1 ou 4, porque 3 é um número místico e mágico que devolveria a luz pra minha casa embora faltasse luz em toda a rua…”

    Acho que se por mais nada o post valeu só por isso! =D

    Ah e por me ensinar que o Tales de Mileto além de filósofo pré-socrátrico foi pseudo- eletricista.. o0

    1. Viu?? Adriana também é cultura. No que diz respeito ao Tales de Mileto… No que diz respeito ao 3, confesse, você sempre soube que o 3 era mágico. Não funcionou dessa vez, mas a atendende deve estar certa! Eu é que não desliquei e liguei as 3 vezes dando saltitos e cantando ao deus da eletricidade. SE tivesse feito, a luz teria voltado mais cedo!

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