Regidos pelo caos

Mamãe e papai me ensinaram a ser uma boa menina: O bem vem para quem faz o bem. Mas num universo regido pela teoria do caos, onde todo sistema é complexo e todos as influências relevantes eu nunca entendi muito bem como essa história de fazer o bem se encaixa no girar das engrenagens. Em certas horas a gente entende perfeitamente por que o homem precisa tanto da noção de deus e da religião.

Eu não sei ser prepotente a ponto de ser atéia. Então não sei se deus é uma idéia inventada ou se é simplesmente um conceito que não podemos atingir com seus tais planos misteriosos escritos em linhas tortas e letra de médico. Me contento em ser agnóstica e dizer que não sei se deus existe e que se existe, não cabe a mim compreendê-lo em sua totalidade. Mas a verdade é que existindo ou não, é um conceito necessário. Porque tem certas horas que o único, mas único consolo que o ser humano pode ter é dizer entredentes: “Deus tá vendo…”

Vendo o esforço. Vendo a tentativa muitas vezes vã de trocar o bem pelo bem. Vendo a impotência frente ao caos. Simplesmente vendo. E anotando nossos pontos em algum caderninho surrado, e nos dando um vale-brinde de pós-vida, céu, wherever… Porque por aqui a coisa tá feia!

E nem comparo as minhas mazelas com as mazelas alheias. Cada um sabe do tamanho do seu calo e de quanto ele dói. E não trocaria de lugar com ninguém, porque sei que é de hábito se ver a pinga que os outros tomam mas não seus tombos… A entropia que me cabe não é maior ou menor do que a de ninguém. Só é diferente, fractal de sua própria ordem, fruto das borboletas que bateram asas pros meus maremotos e não pros de outrém.

Cá eu continuo com o que me foi ensinado. Faço o bem. Engulo a soberba. Brigo com minha preguiça. Cumpro o que me foi determinado. Desafio a minha natureza e minhas vicissitudes. E o universo não me dá uma folguinha sequer. Não me deu nenhuma rasteira, porque ando boa em pular a corda que andam jogando aos meus pés… Mas não me dá folga. Um pulo. Outro. Olha a corda de novo…

Enquanto isso, tem gente que nunca se preocupou com essa história de bem, consciência, civilidade. E tá lá, na rede, bebendo piña colada sob o sol acolhedor do inverno enquanto limpa a sola dos seus sapatos nas costas de alguém. Será que deus tá vendo? Anotou? Descontou os pontos? Vai saber… Talvez eu só esteja vendo a piña colada, e me esquecendo que devem haver tombos também. Ou talvez a teoria de que tem gente que vem ao mundo à passeio e outros, á trabalho, proceda. Ou seja só a teoria do caos em movimento num universo sem deus nem ordem.

Eu não sei… mas tenho que seguir em frente a despeito das minhas mazelas, do caos, da entropia, do injusto e do que carece de sentido. Eu, e todo mundo. Porque as fórmulas dadas não explicam o universo por mais que os físicos assim desejem, ou as religiões ensinadas não vem com certificado de garantia. A capacidade de gerar fractais digitalmente não me garante o resultado desejado: no mundo, as variáveis são infinitas e não se repetem. E a maior parte do tempo, a reação não parece ser consequência da ação, mas mero acaso, confluência, quase capricho de um universo não linear.  No fundo é só uma roleta, caoticamente girando, e nem idéia de onde vai parar. Apostei no 7. Eu sempre aposto no 7. Será que um dia esse número sai e ganho ordem, ou ao menos uma atractor estranho só meu que me garanta certa predibilidade, ao invés de caos e randomicidade?

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