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True Blood e nossa tara por sexo, violência e sangue

True Blood

O (único) problema de True Blood é que a série vicia. A série tem esse comportamento de traficante, de dar um pouquinho, que é muito, e te deixar com vontade de mais. Dois episódios da terceira temporada e eu já estou aqui, babando, em crise de abstinência e resistindo bravamente à tentação de baixar os episódios que já foram ao ar lá fora. E se ainda não o fiz é porque sei que isso me deixaria babando e em crise de abstinência no próximo domingo, and so on.

Esse furor a cerca de vampiros é velho. São milênios de construção da mitologia, que remonta a lenda de Lamashtu dos antigos assírios e babilônicos, e vem evoluindo junto com a própria sociedade humana, ganhando ares contemporâneos, até os primeiros vampiros moderno, em especial Drácula, de Abraham (Bram) Stoker e os Vampiros com dilemas morais e psicológicos de Anne Rice e seguindo adiante… Para toda uma geração nerd que jogou Vampire: The Masquerade do Mark “bolihha” Rein-Hagen, é mais do que claro que todos os conflitos psicológicos possíveis ganham uma nova densidade quando lidos sob o faz de conta vampiresco…

Ignorando solenemente a baboseira de Crepúsculo (eu não saberia nem por onde começar a criticar aquele treco… A suposta mitologia de Crepúsculo tem tantas falhas, tantas incongruências, e é tãooooooo bobo, que não vale a pena nem falar a respeito), o cerne do mito do vampiro é a encarnação do mal. Então qual é o apelo? Não seria algo pra fugirmos de, para isolarmos e ignorarmos, para enfim, temer? Então que tara é essa por Vampiro? Além da tal história de viver para sempre – e o vampiro moderno relativiza a importância dada outrora pra imortalidade e eterna juventude – o que é que nos move tanto quando o assunto é vampiro?

A idéia nem é tão complexa assim. O Vampiro encarna o “mal” do homem, mas também sua parte primal, animal, instintiva apresentada de uma forma glamourosa e sedutora. E em sua releitura moderna, é puro id brigando com superego e vice-versa. Cada vez que um desses fictícios vampiros modernos cede aos seus intintos primais e rola banho de sangue, violência gratúita e sexo selvagem, a gente tem uma catárse inconsciente e coletiva da vitória do id. E cada vez que eles se controlam, civilizam, superam instintos em prol de algo remotamente semelhante à consciência (e ao amor, à amizade, à ideais nobres e cavalherescos), a gente se reafirma na necessidade do auto-controle para a vida em sociedade. O tal do vampiro moderno é uma caricatura humana, um homem “super deformed” que tem lá todas as nossas características, sem tirar nem por, com a única diferença de estarem potencializadas, ampliadas, apresentadas de forma quase grotesca para não deixar dúvida. É de civilidade e instinto que estamos falando, e assim como nós, eles se debatem em uma briga tão eterna quanto eles e se tornam não mais monstros e vilões, mas anti-heróis em angústia infinita da escolha entre o bem e o mal, assim como nós.

De todas as séries, filmes e livros sobre o assunto, True Blood entra no meu top 10, talvez no top 5. Os personagens, e a maioria deles são quase broncos e interioranos, são tudo menos unidimensionais. Não li o(s) livro(s) – True True se inspirada em “Morto até o Anoitecer” (Dead until Dark), primeiro de uma série de livros escritos por Charlaine Harris – então não sei o quanto do mérito é da versão televisiva da HBO sob a batuta do Alan Ball (o mesmo do cultuado A Sete Palmos) e quanto é da obra original, mas a série possui um ritmo de tirar o fôlego, com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e sempre de forma bem integrada. A proliferação de tramas paralelas ao suposto tema principal ( Em um mundo como o nosso, a invenção de um Sangue Sintético chamado True Blood, permite aos vampiros, que até então existiam nas sombras e eram apenas mitos na cabeça dos mortais, começarem a viver em sociedade, já que em teoria, não precisam mais de sangue humano para se alimentar e não são mais um risco. Nesse cenário, começa o romance de Sookie Stackhouse, uma garçonete que lê pensamentos, com o vampiro Bill Compton) não dispersa a ação/tensão. Pelo contrário: todas as tramas se interligam de maneira harmoniosa para contar uma única história, ao mesmo tempo que ganham vida individual e não tem a conotação de supérfluas ou filler.

O rítimo é tão intenso, que no recap do início dessa temporada, várias tramas importantes, todas da temporada anterior, são resumidas e nos surpreende: parece assunto para 3 ou 4 temporadas quando comparado ao ritmo de outras séries por aí, quando uma única coisa importante acontece e o restante dos episódios é puro filler. Em TB, assim como na vida real, certos dilemas não param para dar lugar a outros, então tudo acontece ao mesmo tempo. E essa temporada não deve ser diferente… para quem não assistiu nada dessa temporada, spoiler alert! Segue um resumão dos dois primeiros capítulos dessa terceira temporada:

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Em míseros 2 episódios, Bill Compton é raptado por lobisomens viciados em V (sangue vampírico). Descobre-se que eles estão a serviço de Russel Edgington, o rei vampírico do Mississipe, que vive com Talbot, um vampiro com ares gregos e totalmente afetado. A moeda de contratação provavelmente é V, fazendo dele um Vampiro tão desvirtuado quanto Anne-Sophie, a rainha da Lousiana, que como soubemos temporada passada, usa humanos para traficar V. Russel quer os segredos de Anne-Sophie e o que ela quer com Sookie, e como amante da mortal e servo de Anne-Sophie, Bill lhe parece o caminho mais fácil de conseguir seu objetivo. Para ajudar a convender Bill, que parece relutante, apesar das promessas grandiosas que o soberano lhe faz, ele manda os lobisomens raptarem Sookie também. No fim de um jantar com iguarias de sangue (sangue gaseificado, sangue com rosas, gellato de sangue…), a criadora de Bill aponta na sala, e Bill já havia dito que se a encontrasse novamente a mataria. Então sem pestanejar e apesar de estar em situação de total desvantagem na casa de um soberano vampírico contra sua vontade, ateia fogo em sua criadora.
Nesse meio tempo, Eric Nothman, xerife vampírico da área onde Sookie e Bill moram, tem uma nova humana-brinquedo particular, mas não desistiu de ter Sookie para ele. Descobre que a Rainha do Mississipe, e por conseguinte ele, por seguir as ordens da sua soberana, podem acabar sendo incriminados pelo tráfico de V, já que o assunto está sobre investigação do magistrado vampírico. No meio dessa confusão, Sookie aparece pra pedir ajuda. Confrontado sobre o sumiço de Bill, ele relembra suas próprias experiências com Lobisomens dessa linhagem que raptou seu rival, e posteriormente, oferece seus serviços de proteção para Sookie, que é objeto de seu desejo e, por seus poderes não explicados, um bem precioso para os vampiros. Eric agora tem a permissão de Sookie para entrar em sua casa quando quiser, já que sem permissão, vampiros não podem entrar no território de um humano.
Ao mesmo tempo, Jason, irmão de Sookie, amargurado por ter atirado em Eggs, namorado de Tara Mae (a melhor amiga de Sookie) no fim da temporada passada, deixa o xerife – humano – Bud Deardboune, assumir a culpa, no que isso tem de bom e ruim. Bud é aclamado como herói, enquanto Jason está amargurado pela mentira, principalmente porque Sookie também se culpa pelo ocorrido, por ter lido a mente de Eggs e mostrado as atrocidades que este cometeu a serviço da Mênade, na temporada passada. Bud, preocupado com a possibilidade de Jason ceder e abrir a boca, fica pajeando o rapaz em todas as oportunidades, e durante uma batida policial que Bud, mesmo não estando em serviço, se mete, ele leva Jason. Orientado a ficar no carro, o irmão de Sookie vê uma mulher entre as árvores e vai verificar. A misteriosa mulher some, justo em tempo do traficante que a polícia perseguia fugir da cena e ser pego por Jason, que posa de herói.
Arlene, outra garçonete local, está grávida. Com toda a promiscuidade e misticismo envolvendo a mênade na temporada passada, ela deve ter muitas razões para estar tão preocupada e escondendo o fato dos amigos e do namorado, Terry Bellefleur, veterano de guerra e um dos meus personagens favoritos, diga-se de passagem. Terry também participa da cena onde Sookie avista o lobisomem que a vigia (e de quem ela leu os pensamentos e constata que está em risco) e ambos perseguem o Lican, mas acham apenas rastros humanos seguidos de rastros de lobo e as roupas escondidas em um canto dos arbustos. Terry dá uma arma para Sookie se proteger e ela vai para casa.
Sem seu criador, Bill, por perto e por conta da desilusão amorosa que teve no fim da última temporada, a vampira novata Jéssica, acaba matando sem querer um humano ao se alimentar, e lida com um cadáver dentro de casa, sem saber o que fazer com ele… Hoyt Fortenberry, o amor humano de Jéssica, está tentando se reconciliar com ela a todo custo, mas a jovem vampira o rejeita, porque está no meio de um problemão e por achar que não é mais digna do amor do rapaz, já que cedeu à sua natureza primal e matou um homem. Quando Jéssica finalmente descobre como se livrar do defunto, o corpo some!
Isso porque uma figura misteriosa invade a casa de Bill e Jéssica, e lê as informações que Bill tem de Sookie, em um completo dossiê que acompanha a jovem desde sua infância. Nesse meio tempo, deve ter feito algo com o cadáver. A figura misteriosa é um vampiro, que afirma não ser amigo de Bill, e faz amizade com a amargurada Tara Mae, que no mesmo dia, depois de ter passado por uma terapia de conversão religiosa inflingida por sua mãe fanática, tentou se matar não vendo mais sentido na vida depois de perder Eggs e lembrando de tudo que fez sob influência da Mênade na temporada passada. O tal vampiro, desperta o pior em Tara Mae, segurando para que ela espanque, dois bêbados que desrespeitaram a memória de Eggs.
Lafayette Reynolds, o primo de Tara Mae, está terrivelmente preocupado com ela, e depois de salvá-la da tentativa de suicídio, a leva a uma visita num manicômio onde sua mãe está internada, para mostar a Tara que a escuridão da loucura ronda a família (a mãe dele, a mãe dela) e que eles precisam continuar lutando contra isso. O que depois da nova amizade de Tara, parece que foi uma tentativa infrutífera…
Esqueci de algo? Ah sim, claro, tudo isso acontece enquanto Sam Merlot, o dono do bar onde todos os personagens se encontram, está em uma quest para encontrar sua família. Sam descobre sua mãe, pai e irmão, e a excessão do pai, todos são shapeshifting como ele. Tentando criar laços com o irmão, San quase morre atropelado, quando o irmão se transforma em pássaro no último segundo, deixando Sam, na forma de cachorro, no meio da estrada.

UFA. Tudo isso, em 2 únicos capítulos, nos quais você só consegue respirar até no máximo a música de abertura e depois, só nos créditos finais… Lido por quem não acompanha a série, tudo parece confuso e fantasioso, mas apesar de sim, ser fantasia (claro, né?), as informações, apesar de mágicas e míticas, tem ar de verossimilhança, coerência interna e muito realismo, sangue, sexo e violência.

Catárse pura pros nossos ids reprimidos…

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