Sobre a palavra e a proliferação das mídias

Então, tava eu escrevendo ontem no Tumblr… para! para tudo! Volta a fita que a história já começa antes disso. Quando esse negócio de internet começou a gente tinha lista de email em BBS. “E lamba os beiço que já tá bão“. Todo mundo falava tudo alí e não gostou? Muda de lista. Não que tivessem muitas opções. Aí veio o IRC e a gente passava a noite dando /ignore nos primeiros tarados de internet que foram surgindo e insistiam em marcar encontro com a imagem que tinham de nós (loira gostosa pro marmanjo barbudo, 15 anos pra velhota de quase 30 – aí meus 30!). E toma signo trocado! E abria canal pvt para falar abobrinha enquanto no mainstream, segundos antes do /ignore, a gente continuava muito sério: “sim, sim… tô te entendendo. Te vejo no shopping!” E tome LOL em PVT que na época não chamava LOL  nem PVT, mas isso é detalhe que não interessa. Ai veio o tal do BLOG – que eu sempre imaginava gordo, com uma letra trocada e gritando que ninguém ia movê-lo até ser movido no quadrinho seguinte – e quando a gente achava que não tinha mais o que inventar, começou a promiscuidade digital: ORKUT, TWITTER, MSN,YOUTUBE, FACEBOOK, TUMBLR, VLOG, BUZZ e mais uns 30 nomes cheios de consoantes só entre os que emplacaram, porque nos últimos 15 anos outros nomes igualmente cheios de consoantes foram impossíveis de decorar e cairam no esquecimento. Mas eu estava lá: Meninos, eu vi!

Pois então, a tal da promiscuidade digital. Tava o meu filho, pra lá de antenado, que nasceu no ano que a internet foi liberada aos reles mortais no Brasil (antes disso, fila quilométrica na faculdade pra fazer uma pesquisa em computadores pra lá de lentos e internet discada em páginas unidimensionais e chapadas lotadas de texto e mais texto. Acredite, havia vida antes da gif animada!)… Eu juro que uma hora dessas sigo a frase até o final! Então, tava lá meu filho com o discurso GLEE de que hoje em dia só se é alguém se fazemos sucesso. E eu, que sempre fui partidária do raciocínio da formiguinha levando um grão de areia e fazendo um baita formigueiro, defendendo o raciocínio do basta 1 único leitor. Um só. E a palavra cumpriu seu curso… Mas não é o pensamento global, então, tá todo mundo em quase todo lugar, tentando cavar seu público igualzinho na época da bolha da internet, onde todo mundo, eu inclusive, tinha uma idéia genial que ia revolucionar o mundo e emplacar digitalmente… E mesmo eu, que tenho tanta palavra pra dizer que me contento humildemente em falar com as paredes, acabo estando em todos os lugares também. E toma dispersão em cima de dispersão… “hum… eu já falei disso em algum lugar… onde foi mesmo? na dúvida, falo de novo em todos!“.

A gente até tenta organizar as mídias mas elas se misturam em algum ponto, então as informações se repetem e falamos das mesmas coisas, o velho e terrível mais do mesmo, em todas as mídias, gritando que nem vendedor em feira: “EI… aqui…. ô dona! palavras em promoção. É baratinho! Leve 140 caracteres por um blog inteiro! E o vídeo tá fresquinho. 3 vlogs pelo preço de 2 links! É só hoje! ô freguesa, é aqui mesmo!” E quem vai condenar? O Velho Guerreiro já dizia que quem não se comunica, se estrumbica. E a gente já tá todo estrumbicado mesmo!

Mas voltando, que hoje meu raciocínio tá dando mais voltas que perú bêbado antes da ceia… A palavra ela tem vontade e tem destino. Ela quer chegar ao ouvido do seu interlocutor, seja ele quem for. Então mesmo que o ideal máximo não seja o tal do sucesso digital de um zilhão de views vazios, a gente quer que alguém leia/ouça/veja e que ao chegar ao destino, a palavra nos dê descanso, ufa, pronto, foi! E igualzinho quando a gente usava MSN + ICQ, porque os possíveis interlocutores se dividiam entre ambos, ou GTALK e SKYPE, ou qualquer outra combinação de mídia, se a gente não aparece pra dizer que tá viva em todos os cantos, a palavra pode acabar morrendo na garganta e ninguém nem saber que você a falou. Pois é, por isso, voltamos ao começo, estava eu lá no Tumblr, quando meu primeiro post lá foi justamente pra dizer peremptoriamente que eu não precisava de outro espaço. Mas o ocupei assim mesmo.

Dizia eu lá que eu estava grávida de idéias. Logo eu que andei meio estéril. Mas agora acordo parindo devaneios, metralhadoras, bolas, vuvuzelas, pinturas, divagações pueris e outros badulaques que saem nessa verborragia que não quer parar mais. Grande avanço pra quem até 6 meses atrás tinha se convencido da total atrofia craniana e abria a boca pra falar bode e dizia Tireóide…

Mas pausa pra relativizar a bagaça, que palavra e relevância são primas mas não são irmãs… E quanto mais disperso o pensamento – aqui, alí, acolá – menos sustância a palavra tem. É quase o McDonald’s do pensamento… Todo o conteúdo da sua carteira, ou no caso, do seu cérebro, por um sanduíche meia sola que vai embora numa mordida. Mas é McDonald’s, ou é a mídia do momento. Tanto faz. A relevância ainda é relativa, mas era antes, quando a mídia era uma só e tudo se concentrava nela. Então, de novo, tanto faz e tanto fez. A única diferença de antes é que agora é mais difícil achar essa palavra dita, por estar espalhada em tantas mídias diferentes. No resto, continuamos a supor relevância e falar só porque o destino final da palavra é esse mesmo, o de ser falada.

Já com relação a quem vai ouvir, eu me reservo o direito de continuar na utopia… 1. 10. 100. Um trilhão. Não faz a menor diferença se não me ouvir de verdade. Não que o que eu tenha a falar seja verdade, ou mesmo de verdade. É só palavra, ora essas. Palavra igualzinho a que você também tem pra falar! Mas ainda assim, tem um abraço que a gente dá na palavra alheia quando ela importa, que se ele não existe, tudo o mais é vácuo. Tive uma experiência meio sinistra numa dessas mídias que as pessoas diziam se tinham gostado ou não do que eu tinha falado. Aí aparecia uma porção de A-D-O-R-E-I (a ênfase é da minha cabeça torta mesmo) mas um olhar mais de perto fui descobrir que podia se dizer que adorou sem abrir pra ler e era isso que estava acontecendo. Coloquei 20 no viado – como dizia meu pai  – e saí correndo de lá. Adorou o que cara pálida? O título? ah tá, realmente, meus títulos são ótimos e basta lê-los pra entender tudo que eu queria dizer. /modo ironia on e off.

Então eu até quero ser lida. Quem não quer? E eu sei que me ler é um desafio. Eu não sou linear. Eu não sou sucinta. Apanho do Twitter pra resumir o pensamento em X caracteres e admito que por ser obrigada a fazer isso, minha contribuição lá em termos de relevância, até pra mim, tende a zero. Então, eu sou prolixa, verborrágica, quase psicodélica e pouco objetiva. Falo numa língua extremamente pessoal, repleta de referências subjetivas e nunca “fiz parte” no sentido de pensar igual aos que as pessoas costumam pensar por aí. Tô longe do gosto popular e mais longe ainda do gosto acadêmico. Sou isso aqui mesmo. Gostou tá bom, não gostou, tem quem goste (nem que seja eu mesma!) E apesar e com tudo isso, ainda assim, falo (e muito). Dito posto, não quero acesso. Acesso, qualquer mané com um bom plano de marketing e uma ideia razoavelmente outside the box, consegue. Eu quero leitor. Um só tá bom. Meia dúzia ia ser divino. Mas me contento com o eco digital.

Era palavra. E pelo menos, eu dei a cara a tapa e a falei.

3 comentários sobre “Sobre a palavra e a proliferação das mídias

  1. “Eu quero leitor. Um só tá bom.”

    Serve eu?! Mwahahahahahahahahu.

    De qualquer maneira acho que a multiplicidade de gadgets na net advêm da própria evolução natural da multimídia (isso que eu acabei de escrever não tem muito sentido, tem?!)

    Destaque pra quando algo aparentemente mentecapto e limitado como o Tuíter consegue passar o chapéu (sem substituir evidentemente) Orkut, MSN e o diabo à 4…

    No Tuíter consigo saber como andam amigos distantes sem ter que encher eles de pergunta, sou capaz de mandar minha mensagem na garrafa pra uma massa indistinta de ouvintes, e ter a esperança que alguém responda… só com 140 caracteres. As vezes menos acaba sendo mais. ( Não me pagaram pra dizer isso. É marketing espontâneo.)

    Por acha-lo tão bom e tão útil não tá pegando no Velox.

    Intriga cósmica do @OCriador. Certeza. ¬¬’

    1. Eu não questiono o fato de ser a ordem natural da evolução das coisas, Davide… mas é uma ordem que desvirtua. A fragmentação do conhecimento na cultura moderna e agora, a fragmentação das mídias na internet, dispersam o conhecimento, fazem com que sejamos sempre especialistas de porra nenhuma a discursar para milhares de pequenas audiências espalhadas e sem a conexão do pensamento que está ali e aqui e mais adiante, e só pode ser entendido na verdade como um todo.

      Nada contra o twitter. Eu o uso regularmente, mais para saber do que para fala. Como repasse de link então, é uma mídia ótima e objetiva. Mas não deixa de ser mais um espaço fragmentado do pensamento, dessa vez com a limitação dos 140 caracteres, que muitas vezes impede o desenvolvimento da idéia, dando uma imagem superficial ao que não necessariamente é assim.

      E sei lá, eu tenho velox e meu twitter tá normal. Será que é porque uso o Brizzly como leitor de twitter? Vai ver é, experimenta aí para você: http://brizzly.com

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