Meios e Mídias · Paradigmas e comportamentos

Pequenos manifestos pela arte democrática (2)

Fragmento do cartaz do Ato pelo Debate Público de Direitos Autorais que aconteceu em maio / 2010

O que é meu é meu e o que é seu é seu. Até aí a gente concorda. Eu não tenho nenhuma intenção de entrar na sua casa e sair pegando os seus pertences, mas o que foi solto no mundo é meio que do mundo…É alguns bens são por definição (ou deveriam ser) coletivos. O ar que eu e você respiramos por exemplo. E a cultura.

Mas o povo não está interessado em cultura de verdade.” Diz o sujeito com o rosto meio escondido alí na fileira de trás. Não está mesmo? Ou só não conhece? Não foi dado o direito de querer? A TV foi comprada a prestação e eles assistem o que aparece lá pra ser assistido. Gostam de algumas coisas, desgostam de outras, mas não há propriamente muita opção alí para se conversar a respeito. Vale o mesmo pro show que acontece no clube da esquina (e antes fosse o Clube da Esquina!), e o CD, que por sinal, eles compram alí no camelô da praça, muito obrigado. Livro? Muito caro, deixa pra lá. E segue por aí já que a lista é longa e o acesso,quase nenhum.

Se você pensar que há algum, ainda que pouco, acesso mesmo que a vertentes culturais que nós, intelectualóides pedantes torcemos o nariz, e que há sempre a cultura popular, e que ainda assim os números do IBGE apontam que apenas os 10% mais ricos da população movem mais de 40% do consumo cultural, a coisa fica ainda mais grotesca. 40% é muita coisa e eu não estou nesses 10%, alias, minha conta continuamente no vermelho diz que não estou é em lugar nenhum (alguém pode me fazer um empréstimo a perder de vista?). A revista International Living, uma publicação norte-americana que faz uma medição informal do índice de desenvolvimento humano (IDH) de quase 200 países nos colocou em 2010 em 38o lugar. Pode não parecer tão ruim, mas estamos atrás do Uruguai, da Argentina e do Chile. Se você pensar que ganhamos altos pontos por Liberdade e Segurança (onde o que é avaliado não é a violência urbana, mas os riscos de guerra e ataques terroristas), o que nos derrubou nessa colocação foi mesmo infraestrutura e o tal do acesso à cultura.

Cultura aqui nesse contexto é de tudo um pouco. É teatro, cinema, livro, artes plásticas, música, tudo que enriquece a alma e eleva os padrões intelectuais de um ser humano. Porque em última análise, é o que te faz aspirar por mais. Já falei aqui e repito quantas vezes for necessário: “Arte não é adorno da vida“ (Vygotsky). Arte, companheiro, é a própria vida.

Então vamos conversar sobre a tal da história da música livre. Tem gente que se revira no túmulo não cavado quando ouve essa história, e coloca a mão no lugar onde mais lhe dói, o bolso, desesperado. Mas o mais curioso é que essa tal gente, não é o artista que fez a música (ou se ele pensar bem, não deveria ser!). Como é que um músico ganha a vida? Vendas de discos , produtos e ingressos de shows, e royalties nas execuções comerciais nas rádios. O movimento da Música livre não influencia em nada nenhum desses retornos financeiros. Se a música é livre, para ser baixada e compartilhada (o que significa mais fãs de um música de qualidade) com fins não comerciais, a experiência prova que o artista só tem a ganhar: Quando eu baixo uma música e gosto, a primeira coisa que eu quero é, na primeira oportunidade, comprar o CD. Pra que se já tenho a música? Bom, nossa veia consumista e até a nossa consciência costumam ser vozes bem altas dentro de nós: eu compro pra chamar de meu, e porque quero prestigiar ao máximo o trabalho do tal do artista que tanto gostei que entupi meu HD com suas canções… E se tiver show perto de onde eu moro, eu vou. E se eu tiver um trocado nos bolsos, compro camiseta, chaveirinhos, badulaques, e o que tiver lá pra dizer que eu fui! E a rádio ainda vai estar pagando os royalties do mesmo jeito. Não dá pra ser mais simples e linear que isso. O artista saí no lucro, o público – ampliado – também. Sãos os infinitos intermediários entre o artista e o seu público, a ganhar dinheiro em cima da criatividade alheia, os únicos que teriam alguma coisa a perder. E ninguém quer deixar de mamar nessa vaca…

E quer saber o mais triste? O tal movimento da Música Livre para baixar e compartilhar gera essa polêmica (vazia) toda, e nem atinge tanta gente assim se você for pensar no todo, a tal da big picture. Ok, atinge a parcela que consome cultura (e vai continuar consumindo), mas a internet hoje atinge bem menos de 50% da população desse país. Para os outros quase 60%, o caminho para a ampliação cultural é outro.

E aí vamos falar na venda de CDs… Os camelôs fazem a festa: eles se apropriaram dessa música, não como bem livre e coletivo, mas como um bem comercial. Baixam música pirata, ripam CD, imprimem uma capa meia sola e mal cortada, e a pilha vai sumindo na banca alí da esquina. Agora me conta aqui? Quanto custa uma mídia pra queimar um CD, ainda mais se comprada no atacado? E a percentagem de tinta usada pra imprimir a capa? E o papel? Coloca ai uns 200% ou até mais e temos CDs a preço de banana, ou no precinho do camelô. Se o camelô alí da esquina me oferece o piratex por 5 reais e o original custa 20 ou 30 contos, e eu sei que maior parcela daquilo alí nem vai pro bolso de quem DE FATO merece, o cidadão com o bolso curto vai pagar esse ágio todo por conta de que? E não se enganem, o camelô só oferece porque tem quem compre! Agora, se o preço for o mesmo ou muito próximo, e em cada esquina tiver o produto disponível, de fácil acesso, o cidadão não é bobo nem boba sou eu, vamos lá comprar o original, que a qualidade do som é melhor e o encarte mais bonitinho…

É um pensamento simplista, eu sei… mas não está tão longe da realidade. Ao combater a pirataria, se estimula a pirataria, e quando falo pirataria, falo do uso comercial do bem cultural que foi apropriado. Por outro lado, ao se cortar os intermediários e se ajustar os custos, ao mesmo tempo que se estimula a propagação não comercial do conteúdo, se combate a pirataria. Pra que eu vou comprar um CD no camelô, se pertinho da minha casa eu tiver acesso a esse mesmo conteúdo, por um preço justo e compatível, e a qualidade que eu quero e mereço? Ou se no próprio site do artista eu puder baixar as músicas, apreciar, e na primeira oportunidade, comprar pra chamar de meu, pra que vou ficar dando search em sites suspeitos?

O Teatro Mágico

Há alguns anos atrás alguns visionários defendiam isso tudo em conversinha regada à cerveja, e tinha sempre um pessimista pra dizer logo que não ia dar certo, que ninguém compraria o cd se tivesse como baixar de um jeito fácil, que não é possível fazer uma divulgação profissional e abrangente sem empresários e gravadoras de peso por trás, que isso era arroubos de mentes libertárias mas que na prática, o buraco era mais em baixo. O buraco pode até ser mais em baixo, mas hoje a gente sabe que funciona. O Teatro Mágico tá aí pra provar como é que se faz, e que é possível fazer.  Se a música que eles fazem não fosse boa (e é pra lá de maravilhosa) já teriam me conquistado só pelo peito de fazer o que tem que ser feito pra que a arte se torne de fato democrática. A entrada é para raros, mas como somos todos raros, a entrada é pra todos nós.

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