Calar a boca? Vem calar!

O mundo tem 2 pesos e 2 medidas, e só não vê isso quem não quer. Nossos filhos, mal saídos das fraldas e ainda embolando a língua, costumam aprender a dizer “não é justo” mais ou menos depois que aprenderam a falar não. O resto, eles aprendem depois. É que temos essa percepção clara das dicotomias muito antes de percebermos o mundo como um todo, e apesar das frequentes confirmações futuras, viramos adultos abismados frente a estas variações de conduta, e nós mesmos, a reproduzindo.

Como diz o Galdino (O Teatro Mágico): “É a onda do momento depois das vuvuzelas: todo mundo querendo calar alguém.” Alguém enfia a vuvuzela naquele lugar. Cala a boca, Galvão. Cala a boca, Dunga. Cala a boca Tadeu Scmidt. Mas calar a boca que é bom (?!?), ninguém cala. E não vai calar. Já falei por aqui que temo que o mundo andou deixando de ser relevante, e em algum  grau, mesmo que de longe, concordo e tenho medo da tal época dos grunidos que Saramago (que o Universo o tenha!) previu. Mas verdade seja dita, esse mundo global e digital, de orkuts, facebooks, twiters e blogs tem seu mérito: a minha palavra, relevante ou não, tá solta no mundo pra quem quiser ouvir. Eu não preciso ser famosa ou relevante, eu não preciso aparecer na Globo. Eu sou alguém que fala, que emite uma opinião, que (supostamente) tem alguma coisa a dizer, doa a quem doer, incomode a quem incomodar. Não gostou? Não ouve. Ou vem calar…

Então a premissa básica é que se eu mando o Galvão calar a boca (e eu não mando, nem assisto a Globo, nem tem globo na minha televisão… Tá, tem a Globo News e o Sport TV, mas vocês entenderam meu ponto, eu não ouço o Galvão falando!), ele pode me mandar calar a boca. E eu que durma com esse barulho de vuvuzela!

Mas não é assim que funciona. No meu caso, até é. Se eu mando o Galvão calar a boca, supostamente o Galvão não vai me mandar calar, já que eu sou uma voz no meio de zilhões de outras (igualzinho uma vuvuzela num estádio lotado!), mas também porque ele tem mais o que fazer, porque apesar de ser uma torneirinha de asneiras que engoliu uma vitrola boiando no meio de uma sopa de letrinhas, ele é um cara razoavelmente inteligente pragmático que já sacou que qualquer publicidade é publicidade e abraçou o falem bem, falem mal, mas falem de mim… Afinal ele continua sendo pago pra falar e eu, de graça, mando ele calar a boca.  Ou não, mas aí ele vai NOS mandar calar a boca, “Nós”, essa entidade coletiva de 140 caracteres. E nós vamos mandar ele calar a boca de volta, e assim sucessivamente, ate todos os TT do Twitters serem alguém mandando outro alguém calar a boca. O supra-sumo da inutilidade e falta de relevância, mas o exercer da liberdade de dizer o que quer mesmo ouvindo o que não quer…

Mas a tal da história do cala a boca saiu da esfera do TT, da frase vazia engraçadinha (que a Veja transformou em matéria de capa, mas a Veja virou pasquim da oposição e já não tem mais conteúdo ou relevância alguma, faz é tempo!), da natureza habitualmente rasa dos 140 caracteres… Porque agora, a história é outra, e os sujeitos também. Tudo ainda extremamente irrelevante e raso mas que me fez pensar na tal frase da vovó de “Quem fala o que quer, ouve o que não quer” e na tal história que dois errados não fazem um direito…

O Dunga é o Dunga. Ele já era assim desde sempre. Foi assim quando era jogador. E continua assim como técnico. O sujeito é meio sem papas na língua mesmo, e não tem novidade nenhuma nessa história. Nunca teve. Ele xingar jornalista em coletiva de imprensa não é bonito, não é louvável, não é nem normal, mas também não é esse divisor de águas entre ser alguém do bem ou do mal. É o Dunga, for god sake! E vamos combinar uma coisa bem ao pé do ouvido? Esse descontentamento com a prepotência da Globo é velho e não é só dele. Eu teria parado no “tem algum problema? Ah bom, achei que tinha“. Cínico, contundente, claro o suficiente pro bom entendedor. O resto veio na rebarba da personalidade explosiva, da irritação acumulada, da falta de controle em guardar pra si certas coisas que não vão acrescentar em nada à discussão. Mas volto a questão. É o Dunga.

Ai a Globo cai em cima, de pau, porrete, vuvuzelas… Não perde uma única oportunidade de xingar o técnico da seleção e colocar lenha na fogueira da FIFA e das vaidades bem no meio (e era quase o meio mesmo) da Copa do Mundo. Fiquei sabendo da história bem antes de ver os links no Twitter e ouvir a coletiva do Dunga, ao assistir sonolenta o Troca de Passes no Sport TV, onde o técnico em questão foi xingado de acordo pelos comentaristas, como sendo sem educação, sem cultura, sem controle, sem nada…  Não entendi nada, mas captei a vossa mensagem, amado mestre: a Globo estava me instruindo a odiar o Dunga, embora eu não tivesse nem idéia do motivo. Péssimo timing, profissionalismo zero. Mas vem cá, o Dunga não xingou os caras? E não estamos falando da GLOBO? A verdadeira quinta-essência da manipulação das massas? Alguém esperava uma reação diferente da gigante das telecomunicações? Porque eu pessoalmente não esperava.

Aí passamos do Cala a boca Galvão, pra Cala a boca Tadeu Scmidt representando Cala a boca Rede Globo que na verdade está só fazendo a sua versão de Cala a boca Dunga. Tudo isso ao som de vuvuzelas estridentes ecoando nos nossos ouvidos. Nada contra. Vamos então mandar o mundo calar a boca, mas sabendo então que eles não vão calar. Até o fim da Copa, ainda vai ter muita vuvuzela, muita grosseria, muita manipulação, muita bobagem sendo dita que a gente precisa filtrar. E ignorar.

O mundo precisa aprender a dar unfollow, a filtrar o que lê e o que ouve, a mudar o canal da televisão, a sair de perto, a não ouvir coletiva de imprensa se não está interessado no que vai ser dito, a só assistir o jogo e ver a bola abraçar a rede, ou nem isso.  Porque mandar calar a boca a gente só pode com propriedade mesmo, quando estivermos dispostos a calar a nossa. O que espero, não vá acontecer. A gente vai continuar falando… sejam coisas relevantes, sejam só grunidos. E eles, queiramos ou não, também.

4 comentários sobre “Calar a boca? Vem calar!

  1. É tudo preconceito com o Dunga por causa das roupas viadas que a filha dele tá obrigando ele a usar. Certeza.

  2. Finalmente vi o a tal coletiva. Aqui o Dunga tá é certo mesmo. O cara é o Jim Morrison do Futebol brasileiro. Tá nem aí pra ninguém. A Globo só pagou mico na coisa toda.

    Reeprender a atitude do treinador até vai… mas atacar o cara com esse moralismo fajuto aí… bullshit.

    Não sei qual o problema com tantos cala boca… que seja coisa profundepiresca e raza de TT, 140 caracteres e o diabo a quatro… mas acho que o twitter tá sendo uma ótima maneira daquela massa anônima que ficava calada em frente da TV expor o seu direito a resposta… OK não é uma ação hyper mega revolucionária mas já é alguma coisa. Se nego tem direito de fazer catarse assistindo jogo qual o problema de fazer catarse “xingando muito no tuíter”?!

    A única ranzinza querendo REALMENTE calar a boca de alguém (censurar) é a Globo… a única que julga poder fazer isso pelo menos. Por mais que não gostasse de ver jogo com o Galvão ele ao menos é simpático. O Tadeu mereceu esse calaboca.

    E pra mim o Galdino tá fazendo drama apocalíptico… Cala boca Galdino! (ou melhor não, as música do Teatro Mágico são boas…)

    1. Só pra constar, eu ia responder seu outro comentário – o anterior, o profundo como um pires do avesso – mas é que o dia ontem foi pauleira, e já que agora em um comentário de fato, respondo esse…

      Alias, sobre a história do pires do avesso eu devia cobrar royaltts. E apesar da sua liberdade poética (profundepiresca… taí, gostei!), eu ainda sou a precursora do profundo como um pires virado do avesso…

      Sério mesmo? razão, ninguém tem. #Prontofalei. Como disse no post, sair xingando alguém em coletiva de imprensa (ou no ambiente próximo, ou perto das câmeras, ou em situações públicas, etc etc) não é bonito, não é louvável, não é nem normal. Roupa suja a gente não estende na varanda. Falso moralismo e hipocrisia? provavelmente sim. Mas uma das premissas da vida em sociedade é um certo grau de hipocrisia, porque senão as relações se tornam insustentáveis e polêmicas vazias vão tomar o lugar do verdadeiro foco de discussão. Acontece que o sujeito é técnico de futebol, e não animador de torcida. Então ele ser ranziza, pouco social e fechado, NÃO DEVIA SER UMA QUESTÃO.

      Até entendo a minha irmã em seu momento anti-dunga quando ela diz que parte do papel do sujeito é abrir o show, ou seja, dar acesso aos jogadores pra imprensa e público, e isso o Dunga não faz. Entendo que quem gosta do tal circo futebol, isso é parte do pacote. Mas a grosso modo, o cara tá uma competição, e o que tá interessando é resultado. Então se ele deixa os jogadores falarem com a imprensa, se ele é alegre e falante, se ele socializa a experiência de ser técnico ou justo o contrário, é tudo irrelevante e opção pessoal. Então ele ter xingado é meio feio, mas uma grande bobagem sem importância.

      Ou seria, mas ele ousou xingar a toda poderosa Rede Globo, que tá mais é merecendo levar xingo, mas que não vai dar o braço a torcer. E ai manda o Dunga calar a boca, não em TT mas em rede nacional, chamando o cara de despreparado, ignorante, bla bla bla. Mais infantil que isso, só dois disso.

      Sabe o que é tudo isso? Flame war. O mundo, e mais especificamente a copa do mundo, é uma lista de discussão que todos participamos, e tá lá dois caras em flame war e ninguém consegue ler os emails relevantes porque é só disso que se fala. Ou seja, bobo, chato, bla bla bla… E tome conseguir ler wiska sache entre os xingamentos para pegar as informações que realmente interessam… 🙂

      E quanto ao Galdino, ah Davide, para de ser polêmico. O cara concorda com você, que todo mundo tem o direito de mandar calar a boca e que a internet propiciou isso, esse momento catártico de mandar calar a boca! E tomou o lado do Dunga. Igual que nem você… Então porque o pobre tem que calar a boca???

      Eu é que vejo essa coisa catártica do cala a boca e concordo que poder, todo mundo pode e é cool que possa, que opiniões, rasas ou profundas, hoje estejam disponíveis pra todo mundo ler e emitir, mas só acho que é perda de tempo: eu posso mandar você calar a boca, mas aí você manda eu calar, aí eu mando você e… já viu né? Então só de boca calada eu posso mandar você se calar (por mais paradoxal que isso seja), porque nesse caso, se você revidar, eu já estou calada mesmo e morreu o assunto… 🙂

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