Causos: Trabalho Infantil

Abraçando o mundo - 2004 - fotografia +  cutoutNessas minhas buscas por produções mais ou menos artísticas que já me aventurei (e vale lembrar que estou me referindo a tal arte diálogo, e não óh, que espetacular artista eu sou… lol. Eu sei que não sou, ok?), acabei esbarrando em uma referência de um causo da Lelê, quando ela tinha 5 para 6 anos. Espoleta desde sempre, ela já me causava fios brancos e noites insônes.  A casa inteira ia dormir, e ela ficava lá, brigando com o sono.

Uma bela madrugada, estava eu na internet, e ela acordada. O irmão do meio ia dormir num canto e ela corria lá para azucrinar. Ele se levantava e ia dormir em outro lugar, e não dava 5 minutos e lá estava ela azucrinando de novo.  Desde aquela época ela já tinha preferência de azucriar o do meio e não o mais velho, e já tinha complexo de Sheldon e determinava lugares da casa que eram de sua propriedade, mesmo que não o fossem de fato.  O irmão, cansado de pular de cama em cama, foi dormir n sofá do escritório, que ela chamava de “cama dela” e lá veio ela de novo: “Tê! Você está na minha cama. Eu ia dormir aí…” E ela pulou em cima dele.

E lá ia eu apartar briga, apagar incêndio, botar ordem na baderna, tentar em vão impor algum limite pras ações caóticas do anjo insone sem asas…

Eu voltei pra internet, e ela foi ao banheiro. Então queria a luz acesa, logo ela que não tinha medo de nada, pelo menos não quando achava por bem não ter. Acendi a luz. Ela foi pro chão, espalhar todos os brinquedos. Eu ameaçava apagar a luz: É pra dormir Letícia. Se for pra brincar eu apago a luz. Ela ia pra cama e reclamava da luz atrapalhando o sono. Eu apagava. E em 5 minutos ela gemia: Tô com medo. Acende a luz? E lá ia ela pro chão de novo, no instante que eu acendia a luz.

Aquele era o ritual, tire ou ponha algum detalhe, de todas as noites. Foi mais o menos nessa época que minha insônia moderada virou hábito e insônia crônica. Afinal, eram muitas histórias contadas, broncas, beijos, pedidos e por fim, uma leve indiferença, onde ela brigava com o sono até apagar, e eu tentava aproveitar o tempo em vigília para adiantar alguma atividade pendente.

Pois então, naquele dia em específico, enquanto ela corria pela casa pulando em cima de irmãos sonolentos, acendia e apagava a luz, ia ao banheiro tantas vezes que se tornava uma ameaça pública à água do mundo e se agarrava a todos os subterfúgios para evitar o sono que ela pudesse pensar, um conhecido perguntou por ela na internet, ao comentar na imagem que está nesse post.

– Ela continua dando muito trabalho?

Parecia uma pergunta retórica, mas me dei ao trabalho de narrar suas ações naquele exato instante para dar uma idéia do tipo de trabalho que estavamos falando. Como ela parou do meu lado enquanto eu digitava seus feitos madrugais, resolvi perguntar pra ela:

– Lê, mamãe está conversando com um amigo aqui na internet, e ele quer saber se você continua dando muito trabalho.

Ela parou, os dois olhos de jabuticaba se tornaram pensativos e ainda mais curiosos que o normal. As mãos se colocaram nas cadeiras, e abriu a boquinha para soltar sua sabedoria infantil.

– “Não, né? Eu sou pequena para trabalhar. Mas ajudo a lavar a louça (nessa hora sobre a minha cabeça surge um balão de imaginação: ela subindo numa cadeira e fazendo um rio de espuma na cozinha) e brinco com o Bernardo (boneco bebê dela). E ele sim, me dá muito trabalho!!”

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