A Arte e o Diálogo

Alguém pode me explicar o que é Arte? O Aurélio, o pai (e tábua de salvação) de todos os incultos diz algo como:

atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito, de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação…; a capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos ….

Ilustração de Christina Tsevis

Mas como é que se cria uma sensação ou um estado de espírito? E se o caráter é estético, como se dissocia isso de uma avaliação pessoal que é perpassada pela cultura, pela perspectiva e pela história de vida do observador?  E se não se dissocia, a arte ainda é arte sem um sujeito que a observa? Os questionamentos vão em espiral e nunca terminam: Se a arte é obtida por uma técnica específica e as técnicas adquiridas através da tecnologia, a compreensão da arte está vinculada às tecnologias disponíveis? Quaisquer manifestação humana que criem / expressem as tais sensações e estados de espírito, são arte, independente do criador e do observador? A produção que expressa um sentimento embora não o desperte, é arte? Poderíamos ficar aqui por horas e horas e ainda assim, seríamos incapazes de precisar com palavras o conceito arte. Porque é um conceito que contém e é contido, pertence e é pertencido, se define e é definido, é o receptáculo e é o conteúdo, é espelho da cultura de massa e ao mesmo tempo é a própria essência da individualidade, é universal e ainda assim, o que há de mais pessoal na definição do ser humano.

Ainda assim, um conceito que não possui conceito, a arte e a civilização humana são idéias que não podem ser dissociadas. Sendo o reflexo das inquietudes humanas através dos tempos, é o material mais rico para a compreensão do homem nessa linha temporal. Mas é muito mais que isso.

A partir de perspectivas psicológicas ou psicopedagógicas, a aprendizagem no campo das artes exige um pensamento de ordem superior (Lev Vygotsky)

Ilustração e Fotografia, de Ben Heine

Essa frase de Vygotsky (que junto com Paulo Freire, Emília Ferreiro e Foucault, eram meus pensadores de cabeceira na época da faculdade, por possuírem um um entendimento privilegiado da formação do homem enquanto ser que sabe) junto com seu conceito de zona de desenvolvimento proximal e sua crença da importância dos signos (a linguagem simbólica desenvolvida pela espécie humana) na formação (constante) da mente, nos dão uma radiografia interessante da relação entre o homem e a arte. “Arte não é adorno da vida“, dizia Vygotsky. De certa forma, e dada a natureza muitas vezes indistinguível entre signo e significante, arte é vida.

Artwork de Alexandra Marinina

Não obstante, a sociedade industrial reserva para a arte o espaço de cidadão de terceira classe. Sendo ela mesma imbuída em arte (e técnica, e tecnologia),o aluno que vai mal em matemática e português, e seguindo logo atrás, ciências/história/geografia (que compões o segundo plano das prioridades acadêmicas), pode ser um gênio artístico, e ainda assim, será considerado um mal aluno. Arte não parece receber a relevância que possui como construtora do pensamento, precursora de novas técnicas (e tecnologias), reservatório de interpretações, formadora de opiniões, palco para a utilização de estratégias intelectuais. Em muitas escolas, a arte saí do currículo uma vez terminado o ensino fundamental, e mesmo nos últimos anos desse período escolar, a disciplina é ministrada de forma técnica, não emotiva, não orgânica, não produtiva…

Pintura de Chris Buzeli

Mesmo que o preconceito que associa o artista com o não-trabalho já seja muito menor hoje do que em tempos passados, ele ainda existe. E ao mesmo tempo, a história se ampara na arte como forma de compreensão do homem histórico e arte – desde que respaldada pela cultura vigente – é usada como símbolo de status e cultura.  Numa estranha dicotomia, temos uma sociedade que se abisma frente ao talento de seus artistas (de preferência de forma póstuma), mas que não cria condições para o surgimento de novos.  Eles vêm na contramão, na rebarba das produções realmente valorizadas pela sociedade de consumo. E a própria arte é transformada em objeto de consumo, despida de seus significantes mais profundos, imbuída de valores estranhos a ela, como símbolo e perpetuação do status quo.

Fotografia de Marco Grizelj e Kristian Kran

Tudo isso quando arte na verdade, é dialética. É contrapor idéias. É contradizer o óbvio. É subverter o que é dado em outra coisa que não foi dada, ainda… A arte é nada mais, nada menos, do que a capacidade de concentrar em uma produção um olhar que é único, e ainda assim – mesmo exclusivo e condicionado à perspectiva – encontra reflexo em outros olhos, que lhe atribuem diferentes significados para os mesmos significantes. É o processo da construção da linguagem e do pensamento sendo perpetuado, ampliado, excedido e finalmente, de uma forma não material ou que segue fórmulas pré-estabelecidas, compreendido. É uma relação entre observado e observador, de forma que aquele que observa, ao obter uma percepção específica, tem um momento de epifania onde por um instante, é tão artista quanto o criador da obra, pois da-lhe vida e significado da mesma forma que o artista deu a sua obra, e ainda assim, eventualmente diferente.

De fato, arte não é o adorno da vida. É a própria vida, capturada e interpretada ao mesmo tempo de forma individual e de forma coletiva… Por quem a faz. E por quem a vê. É diálogo. Simples assim.

Tudo isso na verdade foram só pensamentos aleatórios para sugerir um blog para acompanhar… O Espaço Imoral, onde o seu criador, Bronx, tem me entretido quase que diariamente com seleções de artistas diferentes, inusitados, criativos, enfim, seres pensantes que fazem pensar.

(todas as imagens desse post são de artistas que me foram apresentados pelo blog em questão 🙂  )
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5 comentários sobre “A Arte e o Diálogo

  1. oi Dri,
    dispenso apresentações sobre a minha pessoa, dada minha gostosa percepção de já nos conhecermos, sobre a arte falando, tão bem (…)

    palavras não encontro para descrever de forma sincera o que achei sobre suas pertinentes palavras sobre a Arte e influência dela sobre nossas atitudes, reflexões e até mesmo consciência, talvez uma mistura harmoniosa de satisfação por ler palavras tão bem colocadas ao contexto da temática do post, com um saudável sentimento de completude pela reflexão por eu iniciada através da proposta do texto, atrelada a inquietante essência do mesmo, por si próprio.
    Poderia eu ficar aqui redigindo elogios até minha internet cair, porém prefiro resumi-los a uma sentença tão única quanto presente à minha percepção: ao tratar sobre a Arte, você criou uma verdadeira arte, e ponto final(!)
    Aqui fico de novo sem plavras (e olha que eu falo hein hahahaha) pela dedicatória e indicação do meu humilde blog ESPAÇO IMORAL, confesso por palavras diretas que são pessoas como você, como comentários sempre bem colocadíssimos, que fazem dele mais do que um passatempo. Hoje o encaro com uma canalização positiva de energia do meu micro, às minhas preferências e inquietudes artísticas para o mundo, claro que tudo graças a imensidão que a Arte por si própria nos induz e/ou permite, sempre à nós, pessoas tão dipostas a sensiblização que a mesma nos proporciona de forma tão única quanto formidável!!!

    bjus carinhosos
    Bronx

    1. Exageros a parte, fico feliz que tenha gostado. De quando em quando eu fico com algumas idéias batucando na minha mente, conectando coisas que já li, vi, ouvi, pensei. A idéia original, acredite se quiser, era só sugerir o seu site pros meus visitantes invisíveis (piada interna) mas comecei a escrever e as tais idéias batucando na minha mente ficaram com vontade de virar palavra e foi mais um desses longos posts senta que lá vem história… 🙂

  2. “A arte é a eterna novidade do mundo”.

    Por pura preguiça vai essa definição de manual mesmo. Não estou prolixo hoje, mas estou um lixo.

    Foi a Kriptonita.

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