Deixando a bola rolar

Hoje é dia do Brasil entrar em campo na Copa do Mundo, Copa essa que estou passando longe. Não que isso seja exatamente muito diferente do habitual: eu já falei por aqui que não vejo a mínima graça em futebol. Respeito a comoção, mas não vejo graça. O diferente é que me vi pensando no que eu iria estar fazendo hoje as 3:30 da tarde quando o Brasil inteiro estivesse vendo o jogo. Não gostar de futebol é uma coisa, não assistir nem os jogos do Brasil na Copa do Mundo me parece outra, totalmente diferente. De alguma forma eu vi nisso um processo de dissociação, de isolamento, de diferenciação…

Existem alguns pontos em comum que partilhamos enquanto humanidade. Torcer por nossos países na Copa e nas Olimpíadas, por mais ufanista que isso seja, é parte desses pontos. Indepentende de gostar ou não da modalidade, e de considerações socio-políticas sobre os eventos em si, é um espaço de indentificação, um lugar onde todo mundo deseja a mesma coisa, e esse sentimento coletivo é importante. Reafirma sentimentos de identificação que começaram lá atrás, quando éramos pequenos. Cria laços invisíveis com o mundo.  Ninguém para pra pensar nisso quando está assistindo um jogo. E nem devia parar pra pensar. É instintivo. É parte da carga social que nos define. Eventualmente, por contingência ou protesto, fugimos disso. Mas há um pezar imbuído, uma vaga idéia de perda. No caso do protesto (“me recuso a assistir esse espetáculo de alienação das massas“) a coisa é clara: Como se não assistir fosse fazer alguma diferença para a suposta alienação das supostas massas… Mas é uma forma de dissociar no nível do discurso: meu discurso é o meu protesto, não o fato de não assistir.

Não assistir por uma espécie de distanciamento do mundo me pareceu triste. Como assim eu não estava interessada? Se eu estivesse protestando, vá lá… mas não era isso. Eu só não estava interessada. Então resolvi pensar no porque.

O fim do dia ontem foi infernal. E eu não estou exagerando. Sinceramente eu fico pensando porque é que as pessoas fazem esse esforço pra tornar suas vidas mais difíceis do que de fato a vida é. E pior, não entendo quando e porque eu fui eleita a juíza do mundo, aquela que irá determinar o certo e o errado e apaziguar a ira.  E embora eu saiba que nem todo mundo tem essa alma panos quentes que eu tenho – e olha que eu sou histriônica e passional – tem hora que não compreendo a dificuldade em dar um passo pra trás e seguir dalí. Mas a dificuldade existe, e foi um tal de puxar corda pra ver se o outro caía e quando notei eu estava puxando a corda também.   O dia hoje também não começou bem, alias, começou péssimo. Eu tive aquela sensação de que eu estava carregando o mundo, que tudo de repente tinha virado minha resposabilidade, e que eu não estava sendo capaz. Como se cada deslize meu fosse capaz de desperatar os celacantos, e os celacantos provocavam os maremotos, e em última análise, eu provocava os maremotos. Não conseguia precisar se era incompetência minha por não estar dando conta, ou incompetência minha por deixar tudo nas minhas costas sabendo que eu não daria conta. E como uma espécie de caricatura, que amplia e exagera uma característica, mas não a inventa, esses tem sido meus dias. Por um lado eu  mesma tenho essa dificuldade de deixar rolar, então amparo, nutro, embalo, advogo, gerencio, apaziguo, explico, peço, faço. Mas tudo isso, junto e ao mesmo tempo, é demais, então eu choro, grito, desespero, descabelo, cobro, reclamo, protesto. Não acho o meio termo, o lugar onde eu não me alieno mas também não me desgasto, o lugar onde eu divido a responsabilidade, onde eu compatilho o trabalho, onde eu encontro o equilíbrio entre a minha e a sua parte do quinhão. E o quinhão é todo meu, ou nada meu.

Então de um jeito diferente, meu distanciamento era protesto. Não contra a Copa, ou o jogo, ou a obrigação do patriotismo, ou contra a histeria das massas. Meu protesto era um exercício de escolha, me distanciar daquilo que eu podia, já que do resto, eu estava presa. Mas a bola rola, e ela precisa rolar. Ela nasceu com esse desejo de achar a rede, de provocar o grito, de catalizar os suspiros, de comover as massas, de ouvir o silêncio imperceptível que precede o gol.  A bola rola. Ela precisa rolar.

E do mesmo jeito que a minha vida não vai melhorar se o jogo for bom, ou se o Brasil ganhar a Copa, ela não vai melhorar se eu não assistir. Me privar desse momento que é por definição catártico, mesmo que ele seja raso, pueril e volátil, não muda o fato dos meus dilemas diários existirem, bobos talvez, mas meus.  Não vou me sentir melhor quando o jogo terminar e eu estiver em outro lugar da casa, longe da televisão, da mesma forma como provavelmente não vou me sentir melhor se eu assistir.

Vou me sentir melhor quando eu decobrir como solucionar o insolucionável, como abrir mão do controle, como retirar das minhas costas as tarefas que não precisam ser minhas e quando eu entender que por mais triste que isso seja, eu preciso deixar que os outros tomem suas próprias decisões e enfrentem as consequências disso: sem panos quentes, sem me terem como juíza, sem que eu seja a responsável. Em última análise, eu vou me sentir melhor quando aprender a deixar a bola rolar e confiar que sua natureza última é a de encontrar a rede e provocar o gol.

Então encontro vocês às 3:30, na frente da televisão (ou outra forma de transmissão), da mesma forma que vocês estarão. Vou xingar e gritar e torcer quando me der vontade, ou apenas ver os marmanjos que correm atrás da bola e a bola que corre em busca do gol. Porque se é pra ser simbólico, então que seja de fato simbólico: vou lá deixar a bola rolar…

2 comentários sobre “Deixando a bola rolar

  1. Eu assisti o jogo sem grilos intelectuais. Eu assisto futebol SÓ na Copa do mundo ou aleatóriamente. MAS assisto. E gosto quando assisto. Ponto.

    Só não fui socializar e beber por que sinceramente acho que o troço de comemorar tem que vir de dentro… a “instituição” futebol torna as coisas muito artificiais.

    Como um jogo de estréia onde a Coréia do Norte ainda segurou bem o jogo… não me parecie ter algo pra comemorar… sério. É como contar vantagem por ter vencido um manco numa corrida. As pessoas já querem comemorar antes de ter o que comemorar. Fato.

    E hoje não tava no “mood” pra fazer social. (Nunca estou. This is the question.)

    ——————————————–
    Adriana. Nada a ver com nada. Mas se você não é de assistir Dr.Who… baixa esse episódio e assiste! Esse “Blink” é um episódio isolado não precisa conhecer nada da série para além do fato que o protagonisa viaja no tempo numa cabine de telefone da polícia…o0

    Anyway ele mal aparece nesse episódio.

    É tipo a melhor coisa que já vi numa série de TV EVER: http://tiny.cc/gccna

    1. Tb e nem… Teve uns segundos de delay entre o gol e o meu grito. E lembro claramente de ter pensado algo como: “acho que eu deveria ter gritado gol. Vou gritar gol”. Hilário. Mas como eu disse, assistir não muda nada. Não assistir também.

      E não ligo pra usar de desculpa para bebemorar. Quando eu fazia isso, adorava Copa pq tinha essa desculpa catártica. Assim como a bola busca a rede, a cerveja busca a garganta e por aí vai. Se as coisas tem desejo, esse é o desejo último delas. Mas tem haver com fase, com símbologia, com estado de espírito, enfim, é um treco meio individual pra ser vivido no coletivo. Considerações proto-sociológicas aleatórias…

      Quero ver se tento assistir Dr. Who de novo, já que nem me lembro pq não me interessei… mas pra ser franca, não gosto de baixar episódio e ver no PC. Faço isso a título de excessão, quando perco um episódio na TV ou quando um canal resolve parar de passar um série que eu seguia ou coisa assim… mas de repente me animo. Ou não.

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