Filhos? Definitivamente melhor não tê-los…

Ah, os filhos...
Ah, os filhos...

Tava cá eu em casa, tranquila, digerido o almoço, trabalhando no site e copiando os deveres, achando que estava tudo pra lá de adiantado, quando uma voz grita no portão:

_ Ô de casa?!

Era minha filha, plena segunda feira, dia que ela supostamente deveria estar o dia inteiro na escola…  O primeiro pensamento é sempre o pior: Alguém morreu. Ou não… depois descobri que esse teria sido um pensamento mediano, o pior ainda estava por vir.

A história era longa, sempre é. A minha raiva era profunda. Então ouvi entrecortado, prestando atenção nas palavras chaves. Em família de prolixo, essa habilidade de ouvir o que importa – blablabla wiska sachê blablabla – salva vidas. De quem ouve e de quem fala: e a vontade de pular no pescoço e esganar? Enfio aonde?

Então, tô lá eu ouvindo a história. O do meio não ia ter aula extra e se recusou a ficar lá a tarde inteira a toa esperando a menor. Não é que eu não entenda, mas já dizia a vovó, trato é trato.  Pra quem pensa hipoteticamente que estudar em outra cidade é trabalhoso, não sabe do terço a metade. Com essa história de aulas extras e aulas extra-turno, a coisa fica exponencialmente complicada. Em especial pra menor, que eu não vou deixar andando pela cidade vizinha sozinha aos 11 anos. Chamem de neurose, protecionismo, o despertar da minha veia histriônica, wherever! Ela tem 11 com corpinho (? – altura pelo menos) de 8 ou 9, e não vou deixá-la ir almoçar sozinha e no fim do dia, já escuro, pegar ônibus de carreira sozinha, sendo que ainda vai saltar longe de casa, e ter que pegar um taxi ou esperar carona do avô sozinha na rodoviária. Não vou, ok?

Depois de alguns meses almoçando correndo e depois indo levar e buscar a filha pra aula de inglês, e privando-a das aulas de reforço, que só eu sei o quanto ela anda precisada, recebi um bilhete da escola solicitando que ela fizesse parte de uma oficina de interpretação para suprir o que a escola estava identificando como uma deficiência da aluna em questão.  Eu escolhi a escola X e a escola X está pouquíssimo interessada na minha dinâmica familiar ou no fato deu morar na cidade vizinha… Se assino o bilhete e minha filha não aparece, fica feio pra quem? pra quem?  Além da má vontade imbutida no processo… Se a guria está com dificuldade e a escola oferece reforço e ela não aparece, significa que não está interessada em melhorar, e inconscientemente é assim que os professores passam a lidar com o aluno. Que por sua vez percebe isso, e tome profecia auto-realizadora aí…  Por uma simples questão de logística, o caldo entorna.

Parecia um golpe de sorte, mas o do meio, com dificuldade em química, havia tratado aulas de reforço pra mesma segunda feira maledita, o tal do dia que, se um gênio aparecer e me conceder 1 único pedido, eu já sei qual vai ser: tira a segunda do calendário! Então já que ele ia ter que ficar lá pra almoçar (mais gastos, cristo rei!) e voltar de ônibus (mais gastos, de novo, outra vez…) que ficasse responsável de esperar a menor e trazê-la em casa no fim do dia.  E ela podia aproveitar e solicitar o reforço de matemática também, mostrando boa vontade e aproveitando todas as oportunidades. Havia um buraco no meio do caminho, já que ele teria 1 aula e ela 3, mas querer perfeição já era um pouco demais. Trato feito? Então tá, trato feito.

Da primeira vez que foi posto em prática o professor cancelou a aula dele. Ele xingou, me ligou desesperado e mandei ele catar coquinho. Já falei que trato é trato? Então tá.  Da segunda vez, mesmo tendo aula, ele reclamou horrores do tempo que ficou esperando, e olha que por uma coincidência do destino, o carro teria que ir na cidade vizinha e conciliamos os horários pra que eles viessem de carro e não de ônibus. E da terceira vez, trato por água a baixo, olha a Letícia no portão aí gente….

O do meio dá pulos de 10 metros de altura de ódio por ter essa responsabilidade. Mas ele esquece que até pouco tempo atrás recebia o mesmo tratamento. O irmão mais velho fazia TUDO por ele.  De ir na esquina comprar pão até acompanhá-lo em programas de índio. E mais, muitas responsabilidades que a menor tem hoje, ele não era incumbido delas na mesma idade… Mas memória é um treco seletivo. A gente só lembra do que nos interessa lembrar.

Então estou eu no portão ouvindo a história entrecortada e vem a pergunta que não quer calar… “Cadê o seu irmão?
Ah” – responde ela, enquanto eu ainda estou no portão esperando ele aparecer na esquina – “ficou no vovô, tinha que pegar uma coisa com o Ricardo.

Pausa pra respirar, profundamente. Matar filho dá cadeia, Adriana… “Deixa eu ver se entendi: ele não ia ter aula então decidiu que você ia perder 3 aulas seguidas, e não contente de tomar essa decisão, resolve ao invés de vir pra casa, ir pro avô pra pegar sabe deus o que com sabe deus quem? É isso?” Era isso.

Ligo pra casa do meu pai, tentando lembrar como é mesmo que se respira. Algo como cheirar a velinha e apagar a florzinha. Ou seria o contrário? Bom, de qualquer forma ligo, e solto os cachorros, os gatos, os ratos e outros animais de médio e pequeno porte que carrego dentro de mim. E ele que lamba os beiços, porque os de grande porte ainda estão aqui, bem presos!

Ai vem o mar de desculpas.
– Liguei a cobrar pro seu celular.
– Sério? Não recebi.
– Recebeu sim. Até atendeu. Mas não retornou. Fiquei esperando.
– Mas como eu ia saber que era você?
– Ué, você sempre manda a gente ligar a cobrar que você retorna.
– Quando vocês ligam dos celulares de vocês, né gênio?! Custava dizer: Mãe, retorna pra esse número, já que eu já tinha atendido? Eu achei que era engano e que se fosse importante ligaria de novo.
– Mas eu não pude esperar, a van já estava buzinando!
– Mas você não disse que ficou esperando eu retornar?
– É… mas já na van.
– E ia adiantar do que, esperto? Vocês já estavam a caminho. Sua irmã tem prova de matemática na quarta e perdeu o reforço hoje. O que eu faço com você se ela tirar nota baixa?
– Mas não é minha culpa. Ela disse que não tinha problema faltar aula uma vez só…
– ELA TEM 11 ANOS, NÃO GOSTA DA ESCOLA, IA MORRER DE MEDO DE FICAR SOZINHA LÁ, VOCÊ QUERIA QUE ELA DISSESSE O QUE? NÃO POSSO PERDER AULA ENTÃO VOU FICAR AQUI SOZINHA?
– Ah…

Eu desligo o telefone pra que meu ódio profundo e mortal não passe pelo cabo telefônico e o faça cair duro e seco, mortinho lá do outro lado…

Aí viro pra menor:
– Xerocou a matéria de ciência?
– Ninguém me emprestou.
– Pra ir xerocar no recreio???  Letícia, essa desculpa já está velha.
(pausa pra respirar. Se não xerocou não xerocou.  Nada do que eu disser vai mudar isso). Ok, vi aqui que tem dever de caderno.
– É, mas falei pra professora que não entendi, então ela disse que eu não precisava fazer.
– Dá pra me mostrar pra ver se eu entendo e posso te ajudar?
– Como eu não entendi, eu não copiei…

Respira Adriana. Aquele curso de técnicas de respiração viria a calhar… maldita memória seletiva!  Estou fazendo força pra lembrar… como era mesmo? Tinha algo haver com ar… e nariz… e boca… ou era pra não usar a boca? Ou o nariz… ? Tô tentando aqui gente… se eu realmente não conseguir lembrar, alguém topa levar meus remédios, coca-zero e cigarro na cadeia pra mim?

2 comentários sobre “Filhos? Definitivamente melhor não tê-los…

  1. hahahahahahahah! Desculpa, amiga , mas não dá pra deixar de rir! Mas, me conta aqui, uma coisa…. Não foi que saiu do Rio de Janeiro, inclusive, deixando lá seu marido e seu filho mais velho, com o propósito de uma melhor qualidade de vida pra todo mundo? E isto, está mesmo acontecendo? Tem certeza????????? rsrssr

    Eu, não consigo me imaginar numa vida assim, sabia? Entre outras coisas, uma filhota de apenas 11 aninhos de idade, tendo que ir pra outra cidade… todos os dias?
    Acho que eu ficava maluquinha da silva, pode crer!

    Mas, saiba, Adriana: É muito gostoso ler tudo que vc escreve, sempre!
    Boa Sorte!

    1. A intenção é fazer rir mesmo! Afinal de contas, se não a gente não ri, CHORA!!!!!!!!!!!!

      Mas a história é mais complexa que isso:
      Pra começar, viemos todos. Esse ano de 2010 é que o mais velho passou no vestibular e voltou pro Rio pra fazer faculdade. A gente já sabia que isso iria acontecer e fomos trabalhando essa idéia nos anos anteriores (de 2006 quando nos mudamos até ele passar no vestibular).

      Depois meu marido se considera como morando aqui, apesar de ficar de 3a a 6a no Rio. Em alguns fins de semana ele também fica lá, até pra economizar uns trocados pra trazer o mais velho uma vez por mês. E eu não digo que seja trabalhoso, que me sobrecarrege com as coisas de casa ou que não seja cansativo pra ele, porque tudo isso é verdade, mas tem o lado bom. Mais de um, na verdade. O primeiro é que casamento de fim de semana é muito melhor que casamento de semana inteira. Varias vezes a gente pensa em brigar por uma bobagem mas avalia de novo, pensa que em 2 ou 3 dias o outro vai estar longe, e resolve deixar quieto. Claro que as vezes isso é um saco, mas no geral, é melhor do que parece. Depois tem a vantagem financeira: com o que ele ganha a gente vivia MUITO apertado no Rio, mas apertado mesmo. Não que haja alguma folga agora até porque temos muitas dívidas da época do nascimento da caçula (minha mãe adoeceu e meus médicos sairam do meu plano de saúde, e aí sabe como é dívida: faz uma, ai faz outra pra pagar a primeira, e o treco pode até diminuir, mas acho que acabar é mito!), mas com mais conforto. O que ele gasta em passagem, ainda assim compensa a diferença no custo de vida.
      De mais a mais eu posso deixar um filho sair no fim de semana sem entrar em pânico, eles podem respirar ar puro, ir na casa de amigos, andar pela cidade e até ir na cidade vizinha… Eles podem coisas. No Rio, eles ficavam trancados dentro de casa: da escola pra casa e vice versa!

      Quanto a essa história de estudar fora, não tive escolha. Quando nos mudamos, aqui tinha uma única escola particular. Quando a escola ameaçou fechar, até tentamos tocar o negócio nós mesmas (eu e minha irmã) mas infelizmente não deu certo. E a escola pública aqui é MUITO RUIM, mas MUITO mesmo… tipo briga todo dia, professores desmotivados, falta matérias (o segundo grau está sem aula de inglês e de geografia. Como um aluno passa no vestibular sem geografia e sem uma língua estrangeira?), turmas ENORMES, enfim, muito fraca mesmo. Eu sei que um bom aluno aprende em qualquer lugar, mas vamos falara verdade, né? Meus filhos não são bons alunos! 🙂

      Então apesar de ser MUITO caro e trabalhoso mantê-los estudando na cidade vizinha, era a ÚNICA solução. E bem o mal tem funcionado, apesar de eventos como os que narrei nesse post! 🙂

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