O suor, o futebol, o mel e as tropas da ONU…

Luis Fernando Verissimo tem uma crônica (do meu recém lido O Melhor das Comédias da Vida Privada) em que se refere a uma frase publicitária perfeita e o efeito que ela faria em seu criador (A Frase). Lembrei disso numa série de associações aleatórias por conta das propagandas do Rexona Men SportFan que é simultaneamente estúpida e genial. Vez por outra certas propagandas sintetizam com perfeição alguns conceitos, no caso, o efeito zumbificante  que o futebol exerce em algumas pessoas. E não são poucas…

Já é de domínio público a frase intelectualóide e esquerdista (notem que há diferenciação disso para intelectual e de esquerda…) de que “o futebol é o ópio do povo“, parte da mais-de-domínio-público-ainda política de Pão e Circo.  É que reducionismo pouco é bobagem… Em sua essência fundamental, isso não deixa de ser verdade, mas assim como nós somos feitos de átomos e átomos se reduzem a um quark, e um quark não nos define, esse reducionismo não define o fenômeno futebol.

E o mesmo caso dos reducionismos que afirmam peremptoriamente que televisão, internet e videogames emburrecem… Ou que intervenções são, por essência e natureza, um abuso de poder. O quê de verdade que existem nessas afirmações nem de longe encontram seu correlato total na realidade.  A verdade (ou o que podemos apreender como verdade de dada situação) é sempre muito mais complexa do que a análise de suas partes…

Isso está ligado a análise das tecnologias. Todo avanço cultural, tecnológico, científico, nomeia aí, enfim, todo avanço é um potencial. E apenas um potencial.  O uso não o define.

Então temos um fato: futebol é um fenômeno e um fenômeno de massas.  O uso que será feito disso, para entorpecer ou motivar, é uma outra questão, que não perpassa à sua natureza. O fato do meu twitter está lotado de informações não solicitadas sobre a copa do mundo e o fato de em época de brasileirão, copa ou amistoso (Cristo rei, até amistoso) eu não ser mais dona da minha televisão, é a prova. Já o efeito, é pessoal e individualizado.

Mas nenhuma comoção, por mais extremada, alucinógena, entorpecedora ou motivadora que seja, que o futebol causa no brasileiro, chega perto da comoção que o futebol brasileiro causa no Haiti.  A frase é essa. Não é a comoção que o futebol causa no Haiti. É  a comoção que o futebol brasileiro causa no Haiti.

A razão prática depois de feitos todos os reducionismos, é de que o contato que os Haitianos tiveram com o futebol como fenômeno mundial se deu pelo Brasil ganhando a Copa do Mundo, há muitas e muitas edições atrás (na época do bicampeonato).  A razão sociológica ainda na esfera dos reducionismos é que quanto mais miserável é um povo, mas ele é suscetível aos fenômenos de massa.  Mas nada disso explica, de fato, a intensidade da comoção. Ou exclui a possibilidade de que essa paixão irracional e arrebatadora seja usada para o bem, como local privilegiado da catárse e da esperança.  Uma forma de apropriação do bem que intelectualóide esquerdista nenhum vai compreender… O mesmo evento que tem o  potencial de manutenção do status quo e do entorpecimento abriga o poder de mudar o mundo. Um gol de cada vez.

Eu não gosto de futebol. 11 homens milionários correndo suados atrás de uma bola pra colocar no fundo de uma rede e sair gritando goooollll não é meu ideal de entretenimento. Quer eles ganhem, quer eles percam, a minha vida não muda nem um pouquinho. Mas e daí? Tem muito programa de televisão, o supra-sumo da quinta-essência da alienação das massas, que me faz pensar e muda a minha existência, apesar de toda a propaganda ideológica intelectualóide de que a televisão há de me deixar burra, burra demais… Eu não sou o parâmetro do mundo e gosto é que nem umbigo, todo mundo, menos o Kyle XY, têm o seu!

Então sim, mesmo sendo avessa à prática de assistir suados novos-ricos correndo atrás da bola, me emocionei ao assistir o documentário “O dia que o Brasil esteve aqui” sobre a passagem (relâmpago) da seleção brasileira no Haiti, nos idos de 2004.

Esse amor incondicional que os Haitianos sentem pelo futebol brasileiro extrapola o campo gramado. Não é por outra razão que a Minustah, a missão da ONU no Haiti desde maio de 2004, é liderada por brasileiros.  E a despeito dos protestos esquerdistas pela “desocupação do Haiti”, encarando a Minustah como intervenção hostil, os haitianos (de modo geral) não querem o Brasil fora do Haiti. Não querem porque a presença dos brasileiros, mas do que garantia armada de cessação dos conflitos, é o contato diário com a esperança.

De um lado, temos um povo sofrido, miserável, que vive MUITO ABAIXO da linha da pobreza e para quem o Brasil é o primo rico que exerce o fascínio através do futebol, da música, as mulheres, do carnaval, e de uma série de ideais imaginários, quase mitológicos, de sucesso e superação. De outro lado, para os soldados brasileiros sediados no Haiti, conceitos como violência e pobreza sobre uma relativização absoluta. Se eles achavam que, acostumados às guerras de gangue, conheciam violência, descobrem na trajetória do Haiti a exacerbação desse conceito. E se por acaso se achavam pobres, se deparam com a miséria em níveis inimagináveis. Há uma relação de empatia que nasce dessa relação. Uma certa familiaridade e segurança que não se encontra em outros países sob intervenção.

Cientes dessa empatia, fazendo uso dela e da sabedoria popular que diz que se pega muito mais moscas com mel do que com qualquer outra técnica que envolva a violência, o Brasil no Haiti exerce o soft power. O poder de influenciar toda uma nação e cessar um conflito com o menor gasto possível de munição…   Citando o documentário, um haitiano fala algo como:  A palavra mágica é brasileiro. Podem ser inimigos, mas se um deles fala brasileiro, se tornam imediatamente amigos…

Não estou defendendo o conceito da intervenção. Estou relativizando a sua eventual necessidade. E não estou negando a existência de possíveis abusos de poder que resultam em violência onde a função era justo a de controlá-la. A ONU não é perfeita, os soldados de quaisquer nacionalidade não são perfeitos e a situação está longe do que se pode chamar de perfeita.

Só o que estou oferecendo é uma nova perspectiva, a que é embasada na necessidade e na empatia…  A missão da Minustah ao menos idealmente possui um caráter que é humanitário, que se traduz em esperança, em possibilidade de crescimento onde antes só havia o caos.  A Tragédia (com T maíusculo) sem precedentes que foi o recente terremoto no Haiti teria um potencial devastador incontestavelmente maior sem a Minustah, e estamos falando de uma tragédia natural. As humanas, nem se fala…

Quando os primeiros militares brasileiros desembarcaram em terras haitianas, em maio de 2004, tinham pela frente o desafio de tentar pôr fim ao caos que se seguiu à deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide. Hoje, as novas tropas que chegam ao país caribenho deparam com uma missão que é, mais do que nunca, social. Encontrar a melhor arma para o combate à pobreza extrema – 80% da população vive com menos de U$S 2 (R$ 4,03) por dia – é o principal objetivo. (Gisele Loeblein)

Se isto é um ideal utópico, impossível de ser alcançado e eventualmente manchado por erros humanos, me parece um mero detalhe. A suposta impossibilidade de um feito não deveria ser, nunca, impecilho para se tentar atingí-lo.  Não é essa necessidade de transformar o impossível em possível que move o homem desde o princípio dos tempos?

E para os que defendem que o Haiti é aqui, e que o Brasil deveria estar cuidando da sua própria casa antes de meter o bedelho na casa alheia, esse é um terreno complicado, ainda mais nesses tempos de mundo globalizado.  Há um ufanismo meio as avessas, que em especial nesses tempos se torna um conceito reacionário, a dividir o mundo em fronteiras geo-políticas. A violência e miséria é um mal a ser combatido por todo ser humano em condições de (tentar) fazê-lo, seja aqui, seja lá…

Entenda como minha prova inconsciente da fé na existência de uma força maior que vê os nossos atos, ou na existência do karma, ou simplesmente  fazer o papel que acredito que nos defina como seres humanos… Mas até mesmo tirar da nossa boca pra alimentar quem está com mais fome não deveria ser algo a ser criticado.  Que discutamos então os meios, as práticas, o uso e o tempo que ser dará essa ajuda, mas não a ajuda em si.  Que aprimoremos as técnicas, que façamos de forma simultânea, que aprendamos lá para usar aqui… mas que façamos, por outro ser humano, aqui ou no Haiti, o que desejamos pra nós mesmos.

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2 comentários sobre “O suor, o futebol, o mel e as tropas da ONU…

  1. Não tenho nada contra o futebol. Assim como não tenho nada contra RPG, séries de TV, video-game e outras formas de entretenimento. E assim como na esfera religiosa ou dos gostos respeito outras formas de “crença” diferentes das minhas

    Não. Não é minha forma de entretenimento favorito, assisto só durante a Copa do Mundo, ou raros casos… umas ou duas Eurocopas, um jogo que coincida de passar quando saio pra tomar uma cerveja e o bar em questão tem TV. Coincidentemente pretendo ficar mais “antenado” e curtir mais ESSA copa.

    Foda é quando a “paixão pelo futebol” vira álibi para discriminação, violência ou então aquele consumismo desenfreado que nem ao menos tem idéia de estar sendo consumista.

    Não tenho nada contra consumismo também. Ele aquece a economia. Eu sou consumista. O importante pra mim é a pessoa saber que está sendo consumista. Eu sei que quando estou comprando um All Star estou comprando uma idéia invisível de All Star embutida nele. Eu sei que quando estou comendo todos os sanduíches do Subway estou gastando uma grana que poderia gastar em um almoço padrão.

    Agora eu tenho algo contra sim, nem que seja um mínimo repúdio estético por aquilo que vários teóricos da comunicação chamam (reducionistamente falando) de “Massa”. Com “M” maiúsculo.

    Gosto muito mais de eventos que tenham um lado qualitativo neles do que quantitativo. Claro que as vezes a graça é justamente ser um evento quantitativo. Como um show da Ivete Sangalo ou um Rock N’ Rio da vida. Mas em GERAL não animo muito pra esse tipo de programa…

    Tenho problemas sim também contra os fanáticos.

    Mas isso poderia ser com futebol ou qualquer outro tipo de esporte. Sei lá. Nos E.U.A muitos padrões de comportamento do fanático de futebol estão no baseball, no fã de basquete.

    Comprem a camisa do seu time (eu mesmo comprei uma jaqueta do Brasil), torça, gritem, chorem.Acompanhem todos os jogos. Mas não achem que isso é desculpa pra ofender os outros ou pra agir com violência (vai ter revide!Mexe com quem tá quieto!).

    Não achem que isso torna suas existências especiais. E quem já viu um monte de cruzeirense xiitas num ônibus lotado rumo ao Mineirão sabe o que eu to falando. ‘

    Ou seja nada contra o futebol. Tudo a favor. Tenho contra os fanáticos descerebrados. E o expoente mor desse estereotipo aqui no Brasil ainda se encontra no torcedor de futebol.

    PS: Ah sim! Muito interessante a parte do post sobre o Haiti. E intervenção no país tem que ter sim… não que vai ajudar a sanar os inúmeros problemas históricos daquele país, mas tem que ser feita. E o Brasil está capacitado a agir ao lado de outros países sim.

    Não precisa ser ubíquo o fazer coisas além de suas capacidades só pra gringo achar bonito. Mas essa ladainha de que deveríamos prestar mais atenção dentro do país não cola mais. Atuação lá fora reverte em imagem lá fora… que reverte em investimento aqui dentro.

    1. A questão se resume a duas coisas: uso e intensidade.

      O fogo foi uma descoberta que passou a integrar os conceitos básicos que definem a humanidade. TUDO que conhecemos hoje e da forma como conhecemos só se fez possível quando os primeiros dois gravetos produziram calor e chamas de forma intencional. O domínio do fogo é a genialidade encarnada. Mas quando um sociopata piromâniaco toca fogo na minha casa ou quando um igualmente sociopata (que só não sabe que o é) resolver ver no meio duma seca qual vai ser o efeito de um cigarro aceso jogado no meio do mato e a floresta vem abaixo, o fogo vira o vilão. Ele destrói ao invés de construir a essência do que chamamos humanidade.
      Todo o resto vai na mesma esteira. O conhecimento que possibilitou a bomba atômica é o mesmo que sustenta a física e a ciência como um todo como conhecemos hoje.

      O uso não define o objeto. Define quem o usa.

      Então o também sociopata que usa no futebol a desculpa pra matar de porrada, literalmente, o torcedor do time adversário ou o governo inescrupuloso que usa eventos esportivos pra entorpecer seu povo enquanto lança medidas sociais e econômicas de profundo impacto negativo em suas qualidades de vida, minimizando as reações de protesto pela concomitância do evento, não desmerecem o “objeto” futebol. Desmerecem o torcedor sociopata ou o governo inescrupuloso. E para essa análise, gostar ou não de futebol é absolutamente irrelevante.

      Depois temos a intensidade.
      Tem gente que torce sentadinho na cadeira
      Tem gente que torce xingando e pulando
      Tem gente que põe a cara na janela e grita impropérios
      Quem tá certo? Todos, ou nenhum.
      Aí vale o clássico bordão da minha liberdade termina onde começa a do outro. E bom senso é legal e é de graça. Desde que a minha loucura reagindo ao que quer que seja não invada a praia alheia, não é da minha conta como alguém torce. Se gasta todo o salário em figurinhas do álbum da copa ou se só se limita no vai vai vai GOOOOLLLL, é um problema de foro íntimo, desde que não me atinja.
      De novo, fujo dos umbiguismos, não sou ninguém pra julgar de loucura a loucura alheia. A minha vai muito bem, obrigada.
      Se o Marcelo deixar de pagar uma conta pra comprar uma camisa oficial do flamengo, tem briga aqui em casa. Mas se ele quiser gritar e xingar na frente da televisão até ficar rouco, mesmo que querendo assistir outra coisa, respeito. Simples assim.

      Somos todos zumbis por alguma coisa. Pode até não ter acontecido, mas tem um aínda na frase… Então deixa quem gosta se enebriar de futebol.

      Quanto ao Haiti, bem colocado. Eu sei que todo ato de altruismo é o egoismo personificado. Pode parecer feio, mas é real. Então que seja por isso: algum bem se reverte daí. Um bem maior, quase que religiosamente falando, ou um bem mensurável de fato. Num mundo global, quem não aparece não existe. A gente pode querer resolver internamente nossos problemas, e esperar um novo big-bang e um novo Brasil pra conseguir enquanto lá fora continuariamos a ser sempre o país da malandragem, do carnaval, das mulheres peladas e das onças andando no meio da rua, ou se colocar no mundo e colher esses frutos. Ninguém devia subestimar o impacto que a frase do Obama, “O Lula é o cara”, tem…

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