Lost e o Realismo Fantástico (pra quem não gostou de LOST)

Já deu? Chega de Lost? Bom, há controvérsias. Ao responder em alguns blogs que falaram do fim de Lost, eu ainda estou recebendo ainda hoje, os novos comentários que esses posts receberam, e notei uma coisa: num primeiro momento era um embate equilibrado sobre quem gostou e quem não gostou, agora, parece que é um assunto em pauta apenas pra quem não gostou.

A idéia é que quem gostou já absorveu isso em suas vidas e tocou em frente, de forma análoga aos personagens da série. Quem não gostou ainda está remoendo a história do fim. E o protesto é sempre o mesmo: Não respondeu às perguntas e foi um final novela das 8.  Aí eu peço desculpa pela prepotência: Vocês não entenderam nada!  Não é o fato de ter gostado ou deixado de gostar que me diz que vocês não entenderam. Gostar é uma questão de escolha pessoal e pronto. Tem gente que gosta de jiló, tem gente que não.

A questão é que os motivos de vocês não terem gostado remetem ao fato de vocês terem comprado gato por lebre. Lost não é um livro de Ágata Christie, está muito mais pra um de Gabriel Garcia Marques…

GGM é meu escritor favorito e 100 anos de solidão meu livro de cabeceira.  Em momento nenhum isso prova a genialidade dele de forma absoluta. Prova apenas pra mim. E por estarmos tratando da mesma vertente literária, era de se esperar que eu gostasse de LOST e quem não gosta de GGM, detestasse…

Mas aí a  polêmica fica em outro patamar. O patamar de gostar ou não de um determinado gênero literário.  E talvez de ter havido alguma confusão na hora de comprar o produto (ser convencido a assistir LOST). Então vamos falar do processo de venda.

Depois da Sky + eu quase não vejo mais propaganda: gravo meus programas e pulo os comerciais. Mas vez por outra me pego assistindo em especial comerciais de séries que eu assisto e choro de rir. Na própria AXN: os comerciais de Raising the Bar são extremamente focados nos romances entre os personagens dando um ar falso de uma série que tenta ser sexy: a série é sobre os dilemas da defensoria pública e até rola romance, mas num plano secundário: não é barrados no fórum como a propaganda faz parecer.  E esse é um exemplo de milhares. Durante muito tempo me perguntei se quem faz as propagandas não podia assistir a série antes de falar tanta besteira.  Ingenuidade minha: sexo vende muito mais do que dilemas morais, então no exemplo que dei,  a propaganda se concentra nas insinuações de sexo muito mais do que nos dilemas de defender judicialmente quem não pode pagar por caros advogados.

Então entendo que você justifique suas críticas  dizendo: Lost foi vendida como uma série de mistérios, e série de mistérios precisam que esses mistérios sejam “resolvidos” no final. Bom, você caiu no conto do vigário, acha mesmo que Activia é mágico e faz ir ao banheiro regularmente e que beber Jonhy Walker faz você ir longe na vida. Propaganda é propaganda e não dá pra confiar cegamente. Alias, vamos combinar, não dá pra confiar e ponto final.

Então vamos concordar em um ponto: as propagandas do AXN a cerca de LOST eram “propagandas enganosas” que o levaram a pensar que LOST era uma série scifi com respostas lógicas aos mistérios propostos. Acione o procon, mas não reclame da série.

Lost era uma parábola narrada através do Realismo Fantástico. O fato do capítulo final já ter estado escrito desde o episódio piloto de LOST é a prova que os seus roteiristas não se perderam no meio da série e colocaram um final meia boca porque não conseguiram explicar os mistérios. Eles nunca quiseram explicar nada nesse nível de romance detetivesco… Isso não os faz perfeitos e que não tenham tropeçado aqui ou alí, ou que a série tenha um ou outro erro de continuismo, mas apenas que responder às perguntas levantadas pelos mistérios da série nunca foi a intenção primordial da obra, aliais, nem primordial nem secundária. Eram elementos simbólicos usados pra contar a história e apenas isso.

Realismo Fantástico, também chamado de Realismo Mágico ou Maravilhoso é uma corrente literária do século XX, em especial latino americana, que tem como nomes de destaque  Gabriel Garcia Marques (Colômbia, e ganhador do Nobel de literatura), Julio Cortázar (Argentina), Arturo Uslar Pietri (Venezuela), José J. Veiga (Brasil),  José Luis Borges (Argentina) e Alejo Carpentier (Cuba).

Toda a idéia do Realismo Fantástico é a de fundir duas visões tidas como antagônicas:a cultura da tecnologia e a cultura da superstição e através delas, contar uma história cujo  interesse é mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum (Os Losties viajam no tempo, eles acham isso estranho, mas ninguém para e surta e diz: Viajar no tempo é impossível, vamos buscar uma explicação científica pra isso ou melhor, vamos assumir que estamos todos loucos. Ao contrário, eles encaram o improvável como algo factível dada a realidade da ilha) e usar essas passagens como metáforas e críticas sociais.

Diferente do surrealismo, o inesperado irreal é incorporado na realidade e possui coerência interna. Não necessita de uma explicação lógica, mas possui uma explicação mítica (e  eventualmente mística) que é compartilhada num nível subconsciente e está em concordância com os demais elementos da história.

Wikipédia básica para a galera… são características do realismo fantástico:

  • Conteúdo de elementos mágicos ou fantásticos percebidos como parte da “normalidade” pelos personagens;
  • Elementos mágicos algumas vezes intuitivos, mas nunca explicados;
  • Presença do sensorial como parte da percepção da realidade;
  • O tempo é percebido como cíclico, como não linear, seguindo tradições dissociadas da racionalidade moderna;
  • O tempo é distorcido, para que o presente se repita ou se pareça com o passado;
  • Transformação do comum e do cotidiano em uma vivência que inclui experiências sobrenaturais ou fantásticas;
  • Preocupação estilística, partícipe de uma visão estética da vida que não exclui a experiência do real.

Opss, acabo de descrever LOST.

Você tem TODO O DIREITO de não ter gostado de Lost, mas então, desgoste dele pelo que ele é: uma obra de Realismo Fantástico.  E para uma obra dessa vertente literária, Lost não possui grandes falhas e cumpre o que se propôs. E (para quem gosta do estilo) foi uma obra prima se pensarmos que foi algo que passou na normalmente rasa e pouco significativa televisão…

Gosto não se discute, mas entendimento sim…

***

Recomendo ler:

End (Rafael Windblow)
Lost por Alexandre Maron
Lost e as coisas que não existem (Vana Medeiros)
If you didn’t understand Lost… (Rodrigo James)
Easter-eggs, curiosidades e repercussões do final de Lost (Davi Garcia)
Lost: o fim e o arrebatamento (Adriana Almeida)

E apesar deu não concordar com a análise do final (meus comentários nesse link explicam o que discordei):
Lost: O Absurdo e os Fantasmas (Davide di Benedetto)

9 comentários sobre “Lost e o Realismo Fantástico (pra quem não gostou de LOST)

  1. Adriana o seu post me inspirou em voltar lá na minha monografia sobre o “Pêndulo de Focault” e resgatar um ‘rótulo” útil, embora eu sempre acho uma puta falta de sacanagem isso de definir uma obra por um gênero. Uma crítica inglesa criou o termo “história palimpsesta” pra abranger essa espécie desse romance fantástico, e por que discordava um pouco com o termo “realismo mágico”.

    Embora francamente eu acho “realismo mágico” um termo bem mais bonito acho que LOST tá mais pra 3a categoria que ela explica lá: ” Uma história totalmente imaginada, situada num período histórico sem magia, mas saturada de alusões teológicas, filosóficas e literárias que o efeito é mágico”.

    Com a diferença que LOST tem “magia” mas diferente de 100 anos de solidão os personagens não acham a coisa mais normal do mundo (bom pelo menos não achavam antes de trocentas temporadas com ursos polares, e fumaças assasinas correndo atrás deles)

    acho que LOST seria uma espécie de transmigração desse gênero pra TV.

    Ou então se quiser abusar mesmo, o autor de LOST e a Filosofia, diz que estaria mais pra “ficção filosófica”. Em vez de Sci-Fi, seria sei lá. “PHI-FI”?! o0

    1. Postando um trecho da minha mono aqui. Me fala se faz sentido:

      “O termo “História Palimpsesta” foi um termo proposto pela crítica e romancista britânica Christine Brooke-Rose durante uma das conferências Tanner em 1990, em Cambridge, que teve como convidado Umberto Eco e da qual também participaram Richard Rorty e Jonathan Culler, conferência que mais tarde foi compilada no livro “Interpretação e Super-Interpretação” .

      O ensaio de Christine também foi publicado posteriormente como o capitulo 12 de “Stories, Theories and Things” em 1991. Christine descreve a História Palimpsesta como “um tipo de ficção” que irrompeu na cena literária no último quarto do século XX e que “renovou por completo a arte agonizante do romance”.

      A autora se utiliza do termo História Palimpsesta em oposição ao mais comumente usado “Realismo Mágico” e mais implicitamente para falar de muitas obras que costumam ser generalizadas num modelo maior sob a alcunha de “literatura pós-moderna”.

      Em sua réplica Eco parece colaborar a tese da autora ao citar esses “textos palimpsestos” como um rompimento com tradição anterior do romance realista, tendo eles como característica explicitarem suas contradições internas culturais e intelectuais e as contradições do próprio ato da escrita, tendendo, portanto a metatextualidade.

      “Palimpsesto” é uma palavra que tem sua origem etimológica no grego “raspar novamente” e é definido em sua forma dicionarizada como “antigo material de escrita, principalmente o pergaminho, usado em razão de sua escassez ou alto preço duas ou três vezes, mediante raspagem do texto anterior”.

      Portanto, a História Palimpsesta pode ser entendida como uma narrativa construída em cima de outras narrativas, uma re-leitura de uma narrativa ou da própria realidade, “a idéia é a da própria história como ficção”. Rose aponta algumas características comuns entre as diversas obras dos romancistas que analisa dentro desse gênero.

      Em primeiro lugar são comuns romances extensos, com mais de 80.000 palavras, o que seria um rompimento com a herança da tradição do romance realista, nesse caso Rose faz uma crítica a “comédia social” e a “tragédia doméstica”.

      A grande extensão do romance se deveria em parte ao que Rose explica ser um enveredamento dos autores pelo conhecimento especializado que grassa nessas obras, em que se individuam informações variadas sobre tecnologia, história, literatura, teologia, e filosofia, antes um traço específico da ficção científica .

      Em segundo lugar a exploração do ficcional, do fantasioso, do irreal, o que deixa de restringir à obra as amarras de uma censura imediata, presente nos trabalhos de não-ficção.

      A ficção é valorizada para explicar o que a não ficção se vê impossibilitada de explicar e na “era do cinema e da televisão” a ficção escrita adquire um nicho próprio. Esses autores exploraram aquelas possibilidades do Romance que seriam impossíveis de serem transpostas com exatidão para outros meios.

      Segundo Rose, a História Palimpsesta seria inaugurada de maneiras diferentes por “Cem Anos de Solidão” , de Gabriel Garcia Marquez, “Gravity’s Rainbow” de Thomas Pynchon e “The Public Burning” de Robert Coover .

      Ela identifica cinco tipos diferentes de História Palimpsesta: 1- O Romance Histórico realista convencional; 2- Uma história totalmente imaginada, situada num período histórico e onde a magia age de forma inexplicável (John Barth, Gabriel Garcia Márquez); 3- Uma história totalmente imaginada, situada num período histórico sem magia, mas saturada de alusões teológicas, filosóficas e literárias que o efeito é mágico (Umberto Eco, Milan Kundera) ; 4- A reconstituição absurda de um período recente ou familiar motivada pela alucinação ou paranóia (Thomas Pynchon, Robert Coover) e 5- A história reescrita de uma nação ou de um credo, onde a magia pode ou não estar presente, mas irrelevante, ou tida como natural diante da absurdidade da própria humanidade descrita realisticamente. (Carlos Fuentes, Milorad Pavic, Salman Rushdie) .”

      1. Primeiro faz um pusta sentido. Eu não conhecia o termo Palimpsesta mas se encaixa perfeitamente, fora algumas arestas. Mas aí não tem jeito, sempre vai ter arestas.

        O próprio Realismo Fantástico é uma corrente literária especialmente sul americana, e o cubano Alejo Carpentier fazia uma distinção entre a obra dele e a do Garcia Marques cunhando seu trabalho como realismo maravilhoso (e estabelecendo distinção entre isso e o realismo mágico ou fantástico). Ainda assim, fora do espectro dessa vertente ao sul do equador, temos algumas obras como “Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas” (Big Fish, A Story of Mythic Proportions) do Daniel Wallace (e que ganhou vida sob o olhar do maravilhoso Tim Burton) onde realidade e ficção tem uma linha clara (embora tênue) e o realismo fantástico aparece apenas nas histórias contadas (pelo caipira/pai dependendo se você está olhando o livro ou o filme) mas que eu continuo classificando como Realismo Fantástico justamente por conta desse olhar mítico sobre as lembranças e que em especial no filme são agentes de alteração da realidade quando se mesclam e se fundem com o dito real e mostram-se mais significantes que a própria realidade. E tem também pra continuar no cinema, The Curious Case of Benjamin Button (F. Scott Fitzgerald relido por David Fincher) cuja UNICA subversão na realidade é o sentido contrário da tragetória de vida do Benjamin e cujo estado curioso é algo que num primeiro momento choca (é reconhecido como algo fora da realidade) mas que rapidamente é absorvido como parte do real e se torna o instrumental para que a história seja contada. Isso sem falar de Umberto Eco, Milan Kundera e tantos outros que embora deem tratamento diferente a essa mesma questão, trazem o irreal e o inexplicável pra dentro da realidade e os misturam de tal forma que depois de algum tempo, eles se tornam indistintos.

        Nenhuma dessas obras é oficialmente realismo fantástico, até onde me consta, mas que possuem os mesmos elementos que estamos tratando aqui. E em especial esses dois filmes que citei, há a tal da estranheza (as histórias são tidas como mentiras, ao menos até ganharem significado de lições de vida, e o pequeno Benjamim era um monstro e foi abandonado e acreditava-se que estava doente e morreria a despeito de seu rejuvenescimento como trajetória de nascimento-vida-morte) assim como há a estranheza dos Losties (como assim viajamos no tempo, como assim tem um monstro de fumaça, como assim os zilhões de como assim…) mas em todos esses casos, em dado momento da história, o absurdo/mágico/inexplicável é absorvido pela realidade e se torna parte dela, sendo “normalizado” pelo cotidiano. Depois de algumas temporadas, pra quem convive com um monstro de fumaça e um navio no meio da selva, o que é viajar no tempo? O irreal se torna real e percebido sem maiores sobressaltos (ó, estamos loucos, aceitemos isso e ponto final , ou vamos parar de revirar as mentiras do meu pai porque eram só mentiras ou vamos abrir esse moleque pra ver que doença estranha é essa): no lugar de sobressaltos, há aceitação e o estranho se torna o significante primário, mas parte do real para aqueles personagens.

        Então no fundo é uma questão de semântica. Eu tomo a liberdade de cunhar Lost como realismo fantástico porque é primeiro o termo que conheço (agora conheço também História Palimpsesta, LOL) e por que falta um termo melhor pra fazer essa distinção entre um romance de detetive onde um mistério PRECISA de uma resolução tida como lógica e uma obra que pertence a uma outra categoria de relação com a realidade, e onde eventuais mistérios (alguém sabe porque o Benjamim Button nasceu velho? Alguém reclamou por não saber??) são meramente recursos estilísticos para tratar de coisas muito mais importantes que o mistério em si…

        1. Por isso eu acho que LOST é como um romance do Umberto Eco. Vende aos montes. Todo mundo compra esperando uma coisa. E “poucos” (que ainda assim é gente pra carai…) acabam de ler ou gostam. Principalmente O Nome da Rosa e o Pêndulo que o povo acredita que são romances policiais e ele taca sei lá… discussões sobre teologia e conhecimento lá no meio, e deixa o troço aberto a mil interpretações diferentes…

          Acho que dá pra traçar uma paralelo sim. o/

          1. Então vamos combinar que sim, mas com um discurso mais Hype e um texto mais digerível… Eu confesso que O Nome da Rosa eu fui até o final (e antes de ver o filme, juro! E gostei, juro! E entendi, Juro! Ok, essa última parte está aberta a questionamentos…) , mas o Pêndulo eu não passei das primeiras páginas… Deu uma canseira mental…………….. LOL. O texto do Umberto Eco é pesado, não só pra algumas pessoas como pra alguns momentos da existência dessa mesma pessoa que consegue lê-lo.

            Mas serve comparar com Milan Kundera também, que você compra como se fosse um romance e é um tratado filosófico… Ou compra como uma crítica política e é um romance… O cara definitivamente não consegue se decidir (LOL)…

            Alias, as comparações são infinitas.

  2. Oi Adriana, um comentário bem atrasado sobre seu texto, que achei quando fazia uma busca sobre um fórum de discussão sobre realismo fantástico. De todo modo, espero que ainda valha.

    Há um pressuposto básico em Lost, que está de acordo com o que disse sobre o realismo fantástico de da série: a Ilha é extraordinária, apresenta fenômenos não-racionalmente explicáveis e esses são absorvidos no cotidiano dos Losties.

    Porém, apesar da emoção que tive no final de Lost, por ser o final, e por ter desenvolvido uma relação afetiva com a história e seus personagens, não deixei de sentir uma ponta de frustração com o final. Longe de pensar que tenha sido decepcionante, mas certas lacunas, na minha opinião, deixaram a “coerência interna” meio bamba pra mim. Nada comprometedor se se pensa na série como um todo, mas acredito que sejam pontos não óbvios e que tem de ser pensados. Me explico.

    Nunca foi desses espectadores que esperavam respostas racionais e fechadas, nem nunca entrei nos maniqueísmos que caracterizaram muitas das discussões em Lost (muitos deles incentivados pelos autores): bem x mal; ciência x religião; fé x razão; etc. A existência de um tipo de discurso apenas nunca foi interessante para mim, e pelo que entendi, nunca foi essa a proposta dos autores também.
    Apesar disso, tenho que considerar na análise, que, se o mais importante para mim sempre foi a coerência interna do argumento da série (mais do que respostas pontuais), quando penso o final, tenho que levar em consideração o tom que foi usado pelos autores em todas as temporadas, e tudo aquilo que eles indicaram, que sublinharam, que destacaram com cores e sons durante várias temporadas. E é aí que discordo um pouco de você sobre a “propaganda enganosa”.
    O final foi feito, e isso é bem claro, para criar um apelo emocional direto entre os personagens e o público, muito mais do que para “responder” os sedentos por mistérios ou por (re)estabelecer um desfecho com coerência interna. Quanto às respostas que pediam, muitas vezes sobre coisas tolas, concordo que os produtores nunca prometeram nada disso, e nem deveriam construir uma narrativa baseada em respostas pontuais de mistérios que muitas vezes nem eram “misteriosos” ou tinham alguma importância para a série. No entanto, ao enfatizar que o “importante são as pessoas” e que se tratava de uma “jornada de redenção”, o elemento extraordinário foi quase jogado pra escanteio, tratado como acessório, um elemento que foi característico da série e que era apresentado como termo central (não único) da narrativa.
    E é esse ponto que revoltou ou frustrou muita gente: não foi a propaganda da AXN que enganava, pois eram os autores que colocavam os mistérios, o extraordinário, como peça fundamental do argumento e do apelo ao público da série. Como muitos me falavam durante a exibição de Lost, às vezes parecia que os elementos eram jogados a esmo, coisas sem pé nem cabeça, como se do nada brotasse um pedaço de ferro mágico que, no último capítulo, explicasse todas as estranhezas do início. Sempre discordei – até o meio da ultima temporada – pois sempre achava que havia ainda muita coisa a ser dita e o que se mostrava até então tinha toda a característica de ter coerência interna (e, claro, meu lado autor se encarregava das hipóteses coerentes para o enredo). No entanto, conforme a sexta temporada seguia, o que parecia é que os elementos da “Ilha” que tinham sido parte fundamental da série (curas, números, o guardião da Ilha e seus poderes, Dharma, Widmore, Ms. Hawking, etc), elementos que dominaram não só capítulos, mas arcos completos, tinham uma conclusão jogada, uma citação protocolar, vazia, sem conteúdo. Ou seja, os elementos que eram (junto com as pessoas) centrais no enredo, no argumento da série, no final foram tratados como um peso morto pra história e quando citados, davam a impressão que os roteiristas no fundo pensavam “putz, ainda precisamos citar isso”.
    No final, os elementos fantásticos deram a impressão de que foram, pro conjunto da história, muito mais que recurso estilístico de narrativa: fica parecendo que tudo isso era na verdade recurso narrativo de marketing pra série, com a aura de mistério, o misto de sci-fi, misticismo, corporações, disputas por poder, etc.
    É, inclusive por isso que eu penso que toda a carga de fantástico, do extraordinário da Ilha, fica muito apagada no capítulo final (e retrospectivamente,da série toda). Esses fenômenos e propriedades da Ilha, tudo aquilo que se desenhava como paralelo e/ou imbricado à vida das pessoas que pararam na Ilha durante toda a narrativa, num peso tão grande quanto os relacionamentos entre eles e deles com as pessoas de fora, no fim da série é quase colocado como acessório. Os produtores praticamente diziam a cada entrevista: “deixem esses mistérios de lado, o que importa são as pessoas”. E, como qualquer telespectador de Lost deve ter percebido, é quase impossível dissociar as “pessoas” da “Ilha”, pois elas se constroem como personagens e se transformam por meio da Ilha, na experiência da Ilha. Quando se propõe que os mistérios e o extraordinário deva ser deixado de lado (e sim, eles falavam textualmente disso) em prol das “pessoas”, se tira um pilar do apoio da série.
    De novo citando os produtores, quando diziam que “o importante eram as pessoas, as relações entre elas, sua jornada de redenção, etc”, o que eu pensava era que se a história fosse centrada nesse processo (pessoas “perdidas” -> trauma/choque/experiência incomum -> redenção/transformação) não era necessário que se passasse no meio em que Lost se passa, mas poderia ser um bairro, uma cidade, uma família, etc. E portanto, o que torna Lost diferente de uma história de redenção “comum” é a relação conjunta que essas pessoas tem com as experiências e propriedades da Ilha, o que levou inclusive muitas pessoas a tratarem a Ilha como um personagem, como um personagem principal.
    O potencial de realismo fantástico de Lost, só tem sentido, a meu ver, se se interpreta a série nessa chave de ligações. Se a série, no final, diz que a Ilha era um acessório, e as relações entre as pessoas exclusivamente são o centro de Lost (claro, em toda história as relações são fundamentais, mas nesse caso,as relações são parte da Ilha, e vice-versa), então o extraordinário, todos os mistérios (com respostas ou não, pouco importa) passam a estar ali “pra inglês ver”, ou numa adaptação livre “pra telespectador ser fisgado”.
    Não me lembro de ter lido que o capítulo final estivesse escrito desde o início, e sim que JJ. Abrahams e Lindeloff tinham uma idéia clara de como seria o final. De qualquer modo, se isso se comprova, só me mostra, infelizmente, que o meio da série, aquele que atraiu e “enganou” muitos, é que estava deslocado do início e do fim.
    Mas não sou tão crítico quanto o argumento que apresentei para a legitimidade da frustração das pessoas. Mesmo considerando que essa parte final, apesar de boa, é uma derrapada quanto à coerência interna (e nem discuto sobre o realismo fantástico, ele é mesmo A característica de Lost, e por isso considero o final “manco”), não posso ignorar o grande trabalho que os autores fizeram durante as seis temporadas. E também não posso deixar de considerar legítimas as frustrações que se baseiam nessa lacuna quanto ao que a própria série apresentava (aos berros, diga-se) e o modo como certos temas foram tratados.

    Bom, desculpe te incomodar tanto tempo depois com um postode maio de 2010, mas como dá pra notar, falar sobre Lost me empolga, assim como Lost me empolgou.
    Até,

    Alexandre.

    P.S.: Sobre coerência interna, vale a leitura de Sandman, do Neil Gaiman. Lá, a coerência interna da narrativa e fenomenal, mesmo tendo muitos e complexos elementos.

    1. Oi Alexandre,

      Nunca é tarde para discutir assuntos que nos motivam.

      A falta de tempo vai me impedir de responder longa e profundamente como eu gostaria, mas compreendi seu ponto de vista. Não é que eu discorde, mas minha opinião é que o realismo fantástico é SEMPRE um recurso estílistico…

      Em 100 anos de Solidão, meu livro favorito de todos os tempos, nenhum dos eventos absurdos, irreais, surreais e fantásticos de fato importa. O que de fato importa é a trajetória de uma família durante um período de tempo, uma família que podia ser a sua, a minha, não importa. São as relações familiares, um tema banal e universal, o cerne da obra. A forma de contar é que tira essa obra da mesmice, ou de uma longa e cansativa narrativa dramática por 100 anos de história.

      Ninguém acusou GGMarques de vender gato por lebre… esse é o estilo narrativo dele. Contar historias mundanas sob a óptica do fantástico, do inustitado, do quase mágico.

      Em Lost, o fantástico e o extraordinário foram o recurso para contar uma história mundana. Pessoas perdidas (que se tornam literalmente perdidas em uma ilha) e seu longo caminho de retorno para elas mesmas. (Ainda arrepia pensar nisso, lembrando da trajetória e do fim da série!)

      Usar esse recurso foi inovador. Mas hoje, passado a paixão do momento, entendo mesmo que foi o que fez algumas pessoas assitirem a série, e no fim, se sentirem enganadas com ela. Eu não me senti assim. Pelo contrário, me senti confirmada, compreendida, renovada em certos aspectos…

      Pra mim, são metáforas. Como toda fantasia é uma metáfora. Como a própria jornada do herói, tema recorrente de toda e qualquer obra ficcional, é uma metáfora do nosso caminho pessoal.

      Anyway, é só meu ponto de vista!🙂

      PS: Tenho a coleção completa de Sandman, lida, de cabo a rabo, incontáveis vezes. Neil Gaiman é mais fantástico que realismo fantástico, mas compreendi a analogia. Mas é uma obra em papel, escrita em blocos temáticos (módulos de história), etc… isso não diminui nem em um milímetro o mérito do Neil Gaiman. Pelo contrário, ele criou uma mitologia e se manteve fiel a ela do começo ao fim, respeitando a coerência interna do universo que ele criou e ele tem uma linha de raciocínio complexa e privilegiada. Mas não é um matérial para massas. Lost acabou se mostrando como também não, mas teve de alguma forma, a intenção de ser… versão “para e pensa” de rápido consumo para a telinha, por mais contraditório que pudesse parecer.

      Funcionou em alguns casos. Decepcionou para outros. Confirmou a expectativa em outros ainda…🙂

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