Um é pouco, dois é…

…bom, três é demais“? Era isso que você ia responder? Eu vou ser obrigada a discordar. Estou começando a achar que 3 é um número cabalístico, gerador de um equilíbrio delicado, porém real. 3 inviabiliza o impasse, tece um certo balancear das forças envolvidas, abre caminho pra de um lado uma certa conformidade, e por outro, o bolar de estratégias mirabolantes para mudar o centro da balança…

Eu sempre achei que eu tinha sido totalmente insana em ter 3 filhos. O trabalho (E gastos!) envolvidos sempre foram gigantescos. O fato de só ter dois braços sempre pareceu um empecilho enorme pra gerenciar a tarefa, e havia um esgotamento constante… Bom, eu era feliz e não sabia. Agora que o mais velho saiu de casa (buaaa! buaaa! Uaaa! 😀 ) eu descobri a falta que faz um terceiro elemento na correlação dos vetores familiares.

Por ser menina, a mais nova já entrou no mundo em desvantagem, com dois irmãos mais velhos com quem disputar a razão. Pra suplantar isso, desenvolveu a teimosia e a resiliência dos sobreviventes. E quando eram 3 em casa a querer e a fazer e a falar, a tal teimosia servia pra vez por outra, virar a balança pro lado dela. As vezes ela perdia, as vezes ela ganhava. Um pouco de birra aqui, um pouco de falta de humildade aculá, mas sempre dentro de um determinado limite do aceitável, já que qualquer coisa diferente disso podia entornar o caldo.

O do meio fazia coro com o irmão mais velho, mas as vezes se imbuia de uma paciência hercúlea (ou só de ressentimento por alguma briga recente com o irmão) e se emparelhava com a mais nova. Era raro, admito, mas acontecia.

O mais velho se emparelhava com o companheiro de gênero, mas vez por outra lhe vinha o instinto protetor e defendia a mais nova. Acontecia de forma menos rara que o irmão se unir com a caçula, e normalmente era o motivo da próxima união de forças inesperada…

Nesse jogo de alianças, que embora seguissem um padrão sempre havia espaço para surpresas, a paz era um ideal possível. Não que eu não fosse chamada a intervir, mas muitas vezes eles resolviam entre eles, aceitando derrotas ocasionais como forma de solidificar alianças futuras. Se fossem me chamar pra intervir, da próxima vez não teriam como reverter a última derrota: os irmãos restantes fatalmente se uniriam contra em vingança inconsciente pelo outro ter ido “chamar a mamãe”.

Desde que o mais velho foi pra faculdade, a vida aqui anda complicada, pra dizer o mínimo. Dá pra contar nos dedos os dias, nesses últimos 3 ou 4 meses, em que os dois restantes não brigaram. Se já não se entendiam muito bem antes, agora são igual cão e gato, numa briga infinita que fatalmente acaba com eles perseguindo o próprio rabo… Me sinto a velha negra da qual só se via as pernas e a vassoura na mão, num episódio de Tom e Jerry… A ameaçar dar vassouradas e perseguir os brigões pela casa. Todo santo dia e todo dia santo!

Eu tenho que intervir o tempo todo, e quando me falta energia pra isso, sou taxada de omissa… E só lembrando que durante a semana eu sou mãe solteira, com o marido trabalhando em outra cidade… então “vou chamar o seu pai” é a ameaça mais vazia do planeta. Até o fim de semana chegar, muita água rola debaixo da ponte.

E no fim de semana o do meio ganha o mundo (Ah, a adolescência… ele acha que isso aqui é pensão!) e nem há tantas brigas assim para intervir. E eu fico com cara de banana, a falar não aguento mais sendo que nada prova meu dilema diário: parece tudo em paz aqui e na Dinamarca. O podre acabou de ir parar embaixo do sofá!

Aos amigos de dois filhos, eu desejo sorte. E força. E paciência… Tomara que eles não resolvam ser vinho e água, água e óleo, sal e açúcar, bem, vocês entenderam a idéia…

Por que um é pouco, dois é loucura, três já dá pra conversar!

2 comentários sobre “Um é pouco, dois é…

    1. Segundo a minha lógica, de repente era até mais fácil: frente a impossibilidade de ter 20 braços, ou eles entravam em acordo entre si ou se matavam, e ela só se conformava.

      O duro é ter que intervir…

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