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Lost: O Fim e o Arrebatamento

Muito já foi dito, então não espero trazer alguma consideração revolucionária. Espero apenas desabafar. O problema do arrebatamento é que ele enche o seu peito, e é preciso dividir isso de alguma forma pra que faça sentido. O fim de Lost foi arrebatamento. Não foi explicação ou ausência dela: Como o Windblow disse coberto de propriedade, foi um episódio para ser sentido, e não para ser entendido. E qualquer consideração a parte, ele cumpriu esse papel. Então vamos às considerações…

Lost pra mim nunca foi uma busca por respostas. Respostas são relativas, pessoais, e mera consequência das perguntas que formulamos. E só ganham sentido quando temos a coragem de fazer a pergunta certa. E uma vez feita, nenhuma resposta externa irá preencher esse espaço. Apenas a sua resposta cumpre esse papel. Em tendo dito isso, nunca quis que os roteiristas de LOST  me dessem suas respostas, e a bem da verdade, eu as temia. O grande problema das obras de ficção de qualquer natureza é quando despejam sobre nós suas respostas prontas e frutos dos questionamentos que não eram os nossos, não exatamente pelo menos. Essas respostas apresentam conclusão, e eventualmente um sentimento de tranquilidade (ou frustração), mas são vazias. Aquela não era a minha pergunta e portanto, aquela não era a minha resposta. Por isso, a despeito do ódio no coraçãozinho de uns e outros e das perguntas que ainda circulam (mas o que era a ilha? onde foi parar o filho do jack? o que era a luz? e a viagem no tempo? e a estátua? e.. e… e… ) e que a mim provam que essas pessoas nunca compreenderam LOST (e não a resposta ou a falta dela, mas LOST em si), a pior coisa que os roteiristas podiam fazer no fim de LOST era explicar. Não importa o que. Qualquer coisa. Respostas possivelmente invalidariam algumas perguntas que foram feitas por nós, pessoalmente e de forma intransferível, e assim, eventualmente invalidariam toda a experiência que foi “assistir LOST”.

Confesso que meu lado “sci-fi quase totalmente física teórica frustrada e filósofa frustrada” tinha outra explicação para os flash sideways. Uma explicação que eu acho excelente, que preenche as minhas perguntas com respostas que admito serem pessoais. E então, confesso também, que não só fui pega de surpresa pela explicação (a única explicação fechada que a série apresenta) do que eram aqueles flashs como senti um arremedo de frustração. E foi preciso assistir algo bem leve depois (semi final do American Idol) e dormir sobre minhas reflexões para internalizar aquela explicação de uma forma não-excludente da minha resposta anterior. Eu ainda podia me sentir respondida, se não pela força de um universo determinista que nos conduziria a fechar ciclos, agora pela força de um caminho de redenção, pelos estágios do luto, pela compreensão da existência.

Mas mesmo quando minha resposta pessoal havia sido negada, o episódio final de LOST já havia me causado esse arrebatamento, essa sensação difusa de esperança, de que respostas eram possíveis: e não as fáceis, impostas por roteiristas e produtores televisivos, não essas que vem prontas a serem compradas na loja da esquina, mas as verdadeiras respostas: as que achamos por nós mesmos nessa difícil jornada que é viver.

LOST foi uma experiência de encontro, de redenção, de questionamento e por fim, de arrebatamento. Mas esse é um mundo de respostas prontas. Pesquisar se tornou sinônimo de googlar e dar cut paste; perguntas parecem desnecessárias quando recebemos respostas antes de perguntar; a informação nos chega resumida em 140 caracteres; o mundo nos é entrege mastigado e digerido. Para esse mundo, Lost se tornou ainda mais revolucionário e inesperado, e por alguns, incompreendido. Ele não é mastigado, muito menos digerido; ele formula perguntas ao invés de se preocupar com respostas; suas conclusões não podem ser resumidas em 140 caracteres e não adianta googlar para achar a resposta pronta do que é a ilha. LOST é out of date, é uma experiência quase retrô, que ousa questionar o sentido da existência através de uma série de metáforas e contos mitológicos. Lost é uma aula de filosofia numa época em que filosofia ganhou o prefíxo mambo-jambo e uma conotação pejorativa: bla-bla-bla existencialista para uma geração que nunca se prestou a questionar sua existência…

Por isso sinto um orgulho indistinto pelos amigos bem mais novos que eu e que compreenderam que não havia nada a compreender, mas havia muito a questionar. Eles se deixaram arrebatar, e o arrebatamento é o primeiro passo para a compreensão. Do que? De tudo… principalmente do sentido do universo, que não é 42,  mas é uma resposta que só pode ser dada por você e mais ninguém. E não menos importante, a resposta de onde, como  e qual é a sua Ilha…

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Recomendo ler:

http://analiseslost.blogspot.com/2010/05/6×17-18-end.html
http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/2010/05/23/lost-por-alexandre-maron.htm
http://spoilercotidiano.wordpress.com/2010/05/26/lost-e-as-coisas-que-nao-existem

PS: Aos amigos: Estamos discutindo o fim de LOST e LOST em si numa wave gigantesca (finalmente o gwave serviu pra alguma coisa). Se você não estiver nela e tiver interesse, me avisa que eu convido pra wave

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3 comentários em “Lost: O Fim e o Arrebatamento

  1. Bom como eu escrevi em meu próprio “tratado” acho que o fato de que os roteiristas não podiam sair por aí respondendo TODOS os grandes mistérios da série, é na verdade bom senso.

    Pessoas que reclamam que a série ficou em aberto em alguma coisas são geralmente aquelas mesmas pessoas que arrumariam algum tipo de defeito numa explicação fechada, ou que diriam “ah mas eu pensei outra coisa”

    Meu único problema com o final de LOST foi justamente a parte “fechada” do final… eu até concordo com você que “redenção” é um dos temas fortes da série… de repente só não bate com minha subjetividade…

    Não consigo apontar um “defeito” propriamente dito no desfecho da série…dentro da escolha que eles fizeram acho que finalizaram muito muito bem… minhas queixa são mais quanto a essa escolha em si

    só acho que independente de tudo a facção filosofico-cientifica dos fãs de LOST deveria continuar elaborando teorias… excetuando alguns poucos elementos “sobrenaturais” ainda é possível encontrar explicações interessantes pra muita coisa que não foi respondida. 🙂

    PS: Aquela tirinha dos pasteurizados é hilária

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    1. Vou deixar aqui o tratado que deixei no teu blog, pq é o ponto onde a gente difere…
      Lá eu disse

      Primeiro não vejo ceticismo na negação da verdade universal. Na verdade, minha crença pessoal é que a única, e reforço o única, verdade universal possível é a inexistência de uma verdade universal. Qualquer coisa diferente disso me soa a prepotência cultural. E quanto mais o mundo se universaliza, mais conflitos éticos decorrentes da nossa inabilidade em lidar com diferentes paradigmas surgem em nossas vidas. Concordo que o mundo soaria mais lógico e linear se houvessem verdades inabaláveis ao invés de meras teorias respaldadas por ciência, fé, senso comum e experiência empírica, mas ainda assim, apenas exercícios teóricos de compreensão. Mas um universo regido pela entropia não se propõe a lógica ou a linearidade. E assim como quem comprou LOST por algo que ele não era, quem comprou a idéia do universo como um conceito estável e delimitado, comprou errado.

      Segundo, temos o problema da intenção versus compreensão. Eu não sei, e não tenho como saber, se a intenção do final ode à esperança, na minha opinião um final que tornou possível o arrebatamento, era como você diz, consolatório. Mas como dizia a minha vó, e a sua eventualmente, de boas intenções o inferno está cheio, e eventualmente, de más, o céu também… A intenção se torna irrelevante pra mim quando a minha compreensão não foi a de ser consolada, mas a de ser arrebatada, como estágio inicial da mente aberta ao entendimento. Andei lendo comparações do fim de LOST como o fim de novela das 8, com todos se abraçando e indo pro céu. Mais simplista que isso, só meu pires de cabeça pra baixo… Eu não entendi assim, e passada a frustração, como já te contei, do meu exercício de hermenêutica (estamos todos falando difícil depois de Lost, heim?)ter sido desbancado , o que eu apreendi foi um discurso que sim, apelou para o emocional, mas não para me consolar, apenas para dar um contraponto ao fardo de um universo determinista (que era minha teoria pros flash sideways) e apontar de maneira clara (por ser um fênomeno de massa e não uma série feita apenas pro meu deleite, no qual talvez algumas cenas mais óbvias fossem desnecessárias) a possibilidade da redenção, que é, pra mim, o foco da metáfora que lost simboliza… Let it go. And Let it be!

      LOST não é uma série realista. Realismo fantástico seria mais apropriado para o recurso estilístico que foi escolhido mas o formato é de uma metáfora/parábola. E enquanto realismo fantástico sendo usado para narrar uma parábola sobre redenção e esperança, sobre, porque não, a universal jornada do herói, ele pedia o happy ending, não da maneira simplista a qual o final feliz é atribuída. Não é, nem de longe, e eles foram felizes para sempre. O que viria depois daquela cena é o mistério, é o fim do Calvin, o inexplorado… Nesse lugar do não saber, outros desafios podem se apresentar em outras jornadas. Mas naquele ponto específico, datado porém atemporal, a redenção foi possível, assim como o é para todos nós.

      Não entendo aquela cena de forma literal. No conto, na parábola, na metáfora que LOST é, eles morreram em diferentes momentos, e antes de serem capazes de tocar adiante, como o fim do processo de redenção que foi iniciado na ilha (onde eles estavam vivos, e que não era um purgatório, etc etc etc) precisaram aceitar quem eles eram, as escolhas que fizeram, e uns aos outros e às suas escolhas… Entretanto, corte de cena, aquilo é uma parábola… Aplicada à minha vida, e “lost-aplicado” me parece a intenção última do fenômeno lost, eu não preciso morrer pra me redimir. Minha crença ou não crença no pós vida é indiferente. E a série não me disse que é preu ser quem eu sou e quando morrer me redimir num universo paralelo com meus amigos queridos que viveram comigo a parte primordial da minha vida. Não é literal… Mas Lost me diz que a única forma de seguir em frente, e através da aceitação. Lost me diz que nada, absolutamente nada, é definitivo e definidor de quem eu sou de forma imutável e absoluta. Lost resgata de uma forma quase escrachada, quase agressiva, a esperança como paradigma possível numa época extremamente niilista e pessimista.

      Isso não é bobo, não é novela das 8 e definitivamente não é burro. É polêmico, porque esse niilismo está tão arraigado, que desconhecemos o sensível, o possível, o improvável, e a redenção como realidades possíveis.

      Nos tornamos cínicos. E o cínico denega a esperança.

      E depois que você respondeu eu disse:

      Resumindo (lol) eu sou a criatura + prolixa da face da terra (nem queira competir); opss, não sei como não compreendi cético pelo que é que normalmente eu penso mais como uma agnose do que como ceticismo…(mas isso quase aponta pruma contradição interna minha, mas é outra história pra outro papo filosófico) e por fim, repito que não encarei o episódio tão literalmente como você, logo pra mim não fala de esperança no pós vida (o qual não tenho opinião formada sobre a eventual existência) mas no AGORA. Algo como uma campanha subliminar de REDENÇÃO JÁ! ESPERANÇA JÁ!

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