Causos: As tiradas dos outros 2

Fica parecendo protecionismo mais juro que não é não. É mais fácil lembrar das tiradas do Matheus do que as do Marcelo e da Letícia por 2 razões básicas. 1o porque ele sempre foi o campeão das tiradas. Pra ele vinha naturalmente. E de umas boas centenas que ele soltou durante a infância, grande chance deu me lembrar de 3 ou 4 delas… Depois porque ele nunca teve problema em fazer graça com a própria cara. Ele não se importava que a gente saisse repetindo o que ele disse, e quando a gente esquecia, ele era o primeiro a nos relembrar do “causo”. Já os outros sempre foram mais consciênciosos, ficavam envergonhados quando a história era recontada, e com o tempo, a história acabava caindo no esquecimento. Salvo uma ou outra tirada que ainda me lembro…

Da Letícia, que aliás é a que mais se importa em ser o centro das atenções se ela não achar que é de forma positiva, eu não lembro quase nada, apesar dela ser a mais nova. De vez em quando ela me xinga porque não lembro, mas se recordo e não é do agrado dela, vou ser xingada também.

A única que me vem à mente agora é uma recente, quando ela ganhou um micro system de presente. Toda animada ela começou a gritar:

Mãe, olha, ganhei um micro sister!

Vira essa boca pra lá filha! Vira essa boca pra lá que a fábrica aqui já fechou!

***

Já o Marcelinho tem duas que são difíceis de esquecer, ambas quando ele era pequenino, no jardim de infância pra ser mais específica.

Certa vez a professora reparou que ele não parava de falar palavras difíceis. Ele sempre teve um excelente vocabulário, mas estava começando a exagerar. Ele já tinha um problema de dicção, e ainda por cima falava grego no que dizia respeito aos coleguinhas: ninguém entendia nada. Na intenção de baixar a bola do pequenino e fazê-lo se limitar a palavras que ele soubesse o significado, a professa interviu no primeiro “excesso” que ele soltou em sala.

_ E você lá sabe o que é excesso?

E ele, com cara de “tá pensando que eu sou bobo?”

_ Sei sim. É tudo aquilo que “sobla”, tá?

No ano seguinte, eu fui chamada à diretoria. Ok que eu era mãe de primeira viagem, mas não achava que ser chamada na diretoria no jardim de infância fosse pra ser comum. Ele não costumava morder (era o mordido da equação), e no geral não dava trabalho fora de casa então fiquei preocupadíssima.

Chegando lá o coordenador veio cheio de dedos com uma conversa longa sobre diversidade e pré-conceitos e uma lenga lenga que eu tive que cortá-lo e pedir pra ele ir direto ao ponto. Era uma era pré-graves mas eu devia estar tremendo que nem vara verde: O que esse menino aprontou?

_ bom, você me desculpe perguntar, mas alguém na sua família tem assim, preconceito contra homossexuais ou coisa assim e …

O cidadão não ia ao ponto nem por decreto. Fala logo! E ele não falava.

_ Não, de maneira nenhuma. Temos amigos de todas as opções sexuais possíveis…

Sei lá se eram de todas as opções mesmo, mas aquela sujeito já estava ofendendo meu espírito liberal…

_ É que ele foi meio desrespeitoso.

Pronto. Já vi tudo. Chamou o coordenador de viado? O que esse menino aprontou? E ele não ia direto ao ponto.

_ O que foi exatamente que houve ? – tentei forçar a barra.

_ A professora foi tentar entregar uma folha pra ele fazer um trabalhinho e ele não pegou, deixando a folha cair no chão, e se recusou a pegá-la do chão.

E eu com os meus botões querendo saber o que diabos isso tinha haver com a opção sexual de quem quer que fosse… Ô sujeito maluco!

_ Ai ele disse – continuou o coordenador – pra justificar a atitude, que ele não tocava em rosa, que era a cor da folha, porque era uma tradição de família. Nenhum homem na casa dele podia tocar em rosa!

Eu juro, por tudo que é mais sagrado, que isso veio da mente dodói dele! Quando o questionei em casa ele caiu na gargalhada. “Ô mãe, eu só não queria pegar a folha mesmo!“. O piticuto já era sacana desde pequenininho. Deixou a professora sem ação, e manteve a cara séria o tempo todo: igualzinho ao Matheus. Eu é que me lasque tentando explicar pro coordenador que ninguém ensinou isso em casa pra ele não!

Mas eu já imaginava a conclusão hipotética da cena.

_ Em rosa eu não toco. A senhora tem uma folha vermelha aí? Se for vermelha e preta, melhor ainda. É que meu pai é flamenguista…

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