Causos: Mãe, eu sou meio ET

Dos 3, sem dúvida o Matheus era o campeão das tiradas. Mais ou menos na mesma época em que ele citou de memória e fora de contexto a minhoca vingativa, ele veio com essa história do ET. O problema não era a história, era a riqueza de detalhes…

Nunca descobri da onde os detalhes vieram. Mas lembro claramente que eu estava na cozinha fazendo alguma coisa no fogão e ele entrou sorrateiro e ficou encostado junto a porta.  De repente ele falou

– Eu sei porque o fogo tem essa cor…

– É filho? Por que?

Ele respirou fundo, como se fosse falar de algo muito difícil e começou:

Eu vou te contar – e na verdade ele nunca chegou a falar do fogo… – mas você tem que me prometer que não vai ficar nervosa.

Ok, não foi exatamente com essas palavras e muitas foram ditas erradas. Ele tinha uns 3 anos ou 4 mas não mais do que isso… Eu prometi, batendo o pé no chão e já achando que ele tinha brincado com fogo quando eu me distraí e que eu ia ter que ficar nervosa apesar de ter prometido o contrário… Ele continuou.

– Eu sei porque o Falamin me contou.

– Fala… o que menino? Que falamin é esse?

– Bom mãe, quando eu estava na sua barriga, apareceu um ET lá dentro. E ele era muito feio mãe. Feio mesmo. Ele me disse que tinha vindo de um planeta chamado Wendel e que agora não podia voltar e que ia nascer junto comigo. Aí ele perguntou se ele podia se fundir comigo porque como ele era muito feio, ninguém ia amar ele. E eu deixei, tá mãe? Não briga comigo mãe, mas eu sou metade menino, metade ET.  Você ainda me ama?

Acho que eu nunca vou saber da onde ele tirou essa história. Como nem o irmão que na época devia ter uns 8 anos, tinha idéia do que era aquilo, ele deve ter tirado um pedaço daqui, outro dalí, e criado a história.

Por muitos anos depois disso, Falamin foi o amigo invisível dele, que a gente não via porque estava dentro dele. E quando ele fazia alguma coisa errada, não era obviamente ele, mas o Falamin. E era um tal de “Mãe, não briga comigo, foi o Falamin” pra cá, “Eu deixei o Falamin fazer.. mãe, você ainda me ama?” pra lá… E não importava quando ele era inquirido: era sempre a MESMA história de como ele conheceu o ET, como eles se fundiram, quais foram os motivos. Consistência absoluta aos 4 anos de idade, e isso foi até uns 6 ou 7 anos. Se bobear, até 8.

Um belo dia eu perguntei do Falamin e ele olhou sério pra mim. Eu achei que ele ia falar algo como “Mãe, tenha dó, eu não acredito mais nisso”, mas até pra crescer ele tinha lá o seu glamour:

_ Ele achou um jeito de voltar pra Wendel, mãe. E aí a gente se desfundiu. Agora eu sou só um menino sem ET.

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