Involução (crônica de aniversário)

Primeiro foi por causa do bolo. Eu não entendia muito bem porque todo mundo a minha volta estava histérico e me vestindo com o que achavam ser minhas melhores roupas. E nem porque a casa de repente ficou cheia e eu fui passada de colo em colo até quase a exaustão. Tão exausta que até chorar parecia trabalhoso… e nem porque as pessoas começaram a cantar e bater palma tão alto que quase me ensurdeceram. Mas foi aí que minha mãe pegou um pedaço daquela coisa doce e fofa e colocou na minha boca. Tinha o gosto de festa ainda que eu não soubesse o que era festa. Tinha gosto de possibilidades. Todas elas, misturadas cuidadosamente com farinha, fermento e açúcar.

Depois foi pelo bolo e pelos presentes. Um ano inteiro esperando para saber o que as pessoas escolheriam me dar. Desembrulhar cuidadosamente (eu nunca fui do tipo que rasga o papel) e descobrir o mistério que se escondia de mim. Acredito que desde sempre aquele segundo antes do papel revelar seu conteúdo escondido sempre foi muito melhor que o presente em si. De vez em quando era aquilo que eu sempre quis, e eu me sentia feliz: mas nunca seria capaz de reproduzir aquele segundo em que eu ainda não sabia mas suspeitava, desejava, queria… E as vezes eram meias. Eu escondia meu sorriso amarelo, me apegava à lembrança do instante antes de abrir o pacote, e dizia: eu estava mesmo precisando de meias. Eu podia dizer isso sem amargura ou tristeza: primeiro porque em última análise era verdade. Ninguém tem meias o suficiente, então precisamos delas; apenas não as desejamos. E principalmente porque, afinal, ainda faltava o instante do bolo.

A seguir era o bolo, os presentes e a companhia. Já não importava o presente embora o instante antes de desvendar o conteúdo da embalagem ainda fosse mágico. Acho que sempre será. O fato de haver um presente significa que haviam lembrado de mim, escolhido algo, comprado, embalado, trazido. Aquele ritual de trabalho, por mais insignficante que aquele trabalho fosse, e a despeito do conteúdo, era morno e aquecia a alma. O conteúdo importava menos agora não só que a embalagem como importava bem menos que a pessoa que o havia trazido. E eu já não precisava esconder sorrisos amarelos na direção de quem havia chegado de mãos vazias. Havia vindo. E esse ritual de se deslocar em minha direção, não importando se vindo da porta ao lado ou do outro lado do planeta, importava em si. Era um presente sem embalagem, que se revelava a si mesmo. E coroando a tudo isso, comeríamos bolo.

Depois era só o bolo, e a companhia. Eu entendia que eu havia crescido. Eu não esperava mais nada embrulhado nas mãos de quem chegava. De novo, aquele ritual de se deslocar em minha direção já dizia o que eu queria ouvir. Eu importava. E aguardava o momento de todos juntos, comermos bolo com todas as suas possibilidades escondidas sob a camada de glacê, e com todas as lembranças de outros bolos já passados.

Com o tempo virou o bolo, e os votos. De novo eu havia chegado a outro patamar de entendimento do mundo. Compreendia que a vida inexoravelmente separa as pessoas , com sorte geograficamente, as vezes, emocionalmente. Estávamos todos em outros pontos da nossa existência, e o deslocar-se muitas vezes era impossível, a despeito de qualquer desejo.  não havia presentes a desembrulhar e nem aqueles que entravam por seus próprios pés, desembrulhados e caminhando em direção ao abraço. Mas haviam os votos. Por telefone, email, SMSs, redes sociais, sinais de fumaça, borboletas e mariposas esvoaçantes, e tantas outras formas que esses votos nos chegam. E de alguma forma eles tinham um certo gosto de bolo por si só: eram doces e entremeados por reminiscências e possibilidades. E quando eu me sentia plena ou quando isso não me bastava, em ambos os casos, lá estava o bolo.

Agora é só por causa do bolo. Passei da época de esperar por presentes. Na verdade, gentilmente e sem palavras expresso esse desejo de que, caso hajam presentes, que sejam pros meus filhos e não pra mim. Eu desembrulhei muitos, eles ainda estão no processo de desvelar a mágica escondida sob o papel de embrulho. E mesmo quando não estiverem mais, ainda acharei que estão, como no fundo meus pais ainda pensam isso de mim.  Compreendo a impossibilidade da presença: o presente já desembrulhado que anda. E os votos passaram a me lembrar outras coisas que não o que intencionam lembrar. Hoje eles me lembram que há provavelmente menos dias pela frente do que dias atrás de mim. Me lembram também que o tempo, as vicissitudes e as adversidades me mantém afastada, geografica ou emocionalmente, de muitos nomes que eu amo e sinto falta. Os votos são hoje afirmativos de ausência muito mais do que lembretes de virtual presença. Então não espero por eles, e admito que são eles a quem dirijo os sorrisos amarelos. Votos hoje são meias, que eventualmente preciso mas se separam em anos luz do que de fato desejo.

Mas sempre há o bolo. Que ainda é fofo e doce. E ainda parece ser feito de uma liga de possibilidades e reminiscências. Hoje mais reminiscências que possibilidades, mas ainda assim uma liga indissolúvel celebrando o que foi e o que virá a ser.  E parece uma espécie de ciclo onde após caminhar e caminhar eu retorno ao ponto de partida. Primeiro foi por causa do bolo. Agora é só por causa do bolo.

Em algum ponto da minha mente desvairada, onde idéias, paradigmas e pressupostos tecem as mais inusitadas teorias metafísicas, eu genuinamente acredito que a vida tal e qual a gente conhece e na qual instintivamente a gente se agarra, se encerra quando nem o bolo bastar mais.

Mas por enquanto, há o bolo.

Feliz aniversário pra mim.

Anúncios

3 comentários sobre “Involução (crônica de aniversário)

  1. Parabéns por mas um ano. Lembra de mim? A sua amiga portuguesa do Rio? Espero que sim. Eu lembro muitas vezes e penso muitas vezes em você. Me contacta.
    Beijinhos de Portugal
    Filipa

    1. Já respondi seu email. Ainda estou meio pasma. Como você me achou????

      De qualquer forma, nossa, que delícia! Gostei desse presente de aniversário que o acaso me deu.

      1. Fico feliz por ao fim de 23 anos a gente se reencontrar.
        Um beijo especial de Parabéns de Portugal. Filipa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s