O circo

A bem da verdade não foi assim que começou. Mas eu não sei como foi. Ou quando. E é preciso colocar uma data como início de tudo que não sempre foi. A culpa é minha, mea culpa, até o fim dos tempos, mas começou em algum lugar.

Me pego pensando no que mais eu poderia ter feito. E se tudo que fiz teve a intensidade necessária. Sei que não. Mas me escapa o conhecimento do que mais era pra ser feito. E como ser feito. Talvez que precisasse ser outra pessoa pra cumprir aquela tarefa. Outra pessoa teria conseguido, mas não eu. Eu esbarrei na impossibilidade. Eu fui sabotada pela minha própria incompetência.

Sempre soube que não sabia como fazer. Essa é a dolorosa verdade, escondida por trás do meu esforço contínuo e dos momentos em que desisti, pra retormar o esforço logo depois. Desisto agora. Retomarei mais adiante. Nada diferente do que sempre foi, mas é diferente. Eu estou mais velha, mais cansada, menos disposta a lidar com meu fracasso, mais atenta a reconhecer que foi um fracasso. Então é diferente, mas é igual. Irei retomar as tentativas  por mais vãs que elas me pareçam, por mais que eu fale para as paredes surdas e indiferentes ao que tenho pra dizer, e por mais que nesse momento eu só queira desistir. E continuar assim.

Não é um surto de auto-comiseração insensato. Eu não acredito que tenha fracassado em tudo. Alias, todas as vezes que a realidade me testa, em muitos pontos sei que fiz um bom trabalho, o melhor possível. Mas não aqui. Aqui eu fracasso e vejo meu fracasso. Pode um dia virar um sucesso, mas não agora. Agora é isso, esse retumbante fracasso e essa auto-piedade infinita, por saber que tenho tentado, e tem sido em vão. As vezes acho que cobro demais. As vezes tenho certeza que cobro de menos. Reconheço minha inconstância como fator nas causas e como consequência do fato. É que não sei a medida, não tenho a receita, e desando ou prum lado, ou pro outro, mas sempre desando.  E sei que a marca que estou imprimindo é a da minha frustração. Tanto por não saber como fazer quanto por não ver resultado em nenhuma das tentativas que faço, não importa o lado que eu vá.

Não quero remoer o passado. Não quero me culpar pelo que não tive intenção. Não quero me desculpar pela minha incapacidade. Quero soluções. E constância. E certezas. E nada disso existe, não agora, não pra mim.

Então faço de conta que tudo era perfeito antes. E que algo aconteceu, algo que pode ser datado, identificado, e por tanto, resolvido. Esse algo aponta pra qual foi a minha falha, e me dá a possibilidade de corrigi-la.

Sei que não é a total verdade, sei que é tão aleatório quanto qualquer outra coisa. Sei que estou só buscando um lugar pra depositar a minha culpa e dalí refazer o caminho. Quem se importa? Eu mesma não sei se me importo. Nem com a mentira, nem com o consolo. Mas nesse soluço entre o antes e o agora, tenho que traçar uma estratégia, rever meus conceitos, recomeçar as tentativas de executar uma tarefa que me parece longe de terminar e para a qual me faltam todos os instrumentos necessários. Mas é minha tarefa, e há de ser ao menos tentada no melhor da minha capacidade, seja qual for o resultado final.

Não foi assim que começou. Mas preciso de um culpado, de uma data, de um referencial. Então culpo o circo. Tudo teria sido diferente sem ele. Hoje seria um outro domingo sem ele. Maldito seja esse circo.

Literal. Ou não.

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