Papéis no mundo são construidos. Por hábito, por contingências, por resultado dessa amalgama de defeitos e qualidades… E todos temos os nossos. Eles nem sempre são o reflexo perfeito da nossa natureza, mas como segunda pele, acabam virando quem acreditamos ser. Acabam virando nossa pele. E são esses papeis os nossos cartões de visita pro mundo, cujo feedback é sempre de “esta é você”. E completa-se o ciclo: escolhemos, conscientemente ou não como nos apresentamos ao mundo e o mundo nos envia a confirmação de quem somos, e não demora muito, quem realmente somos não está mais lá.
Não é uma máscara, é uma pele. Não é uma mentira, é um ajuste ao real. Não é um segredo, é uma memória nunca percebida e há muito perdida. É o que aprendemos ser.
A que ouve, não a que fala. A que observa, não a que influencia. A que compreende, não a que impõe. A que embala, não a que é embalada. A que fica, não a que vai. A que acolhe, não a que é acolhida. A que reclama, não a que espalha pérolas de otimismo. A que reage, não a que age. A que pede, não a que manda. A que esconde, não a que revela. A que deixa, não a que tira. A que espera, não a que se move, a que dá espaço, não a que ocupa… Essa. Bem essa. Pele que virou eu.
E quando a pele não nos cabe mais, ou quando nos arrancam a força, em súbita violência, segunda pele e pele já são uma. E carne e nervos, expostos, esse eu desconhecido e tão dolorido que não se pode reconhecer. Olhamos e não vemos. Sentimos, tanto, e é tão intenso, que tudo é dor, estranhamento e medo.
Mas se dermos sorte, muita sorte, alguém antes viu por trás da pele vestida, e nos aponta uma pista, e nos indica um caminho… da longa estrada até fora de si mesmo, até o dia de nos encontramos conosco mesmo, e separar papel de natureza, e escolher novos papeis, novas peles, novas vidas.
Uma pista. Um caminho. E ainda assim, sofrido, longe, e difícil de percorrer. Mas é para lá, não vejo, mas acredito na direção que me foi apontada. Para lá. E saber isso é infinitamente melhor que não saber mais nada…


… se tivesse o dom da palavra – era, exatamente, assim que me expressaria.
Que bom que você existe, Adriana! …
Força!
Obrigada!