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Horário de Verão

Houve um tempo que eu gostava do horário de verão. Eu tinha saias brancas rodadas e muitos sonhos que rodavam junto. Os primeiros dias, onde o sol dizia ainda não, e o relógio dizia sim, eram o preço a pagar pelos últimos, noite alta a se despedir do sol com canções de boas vindas à lua. E no fim de tudo, porque nunca havia sentido que haviam me roubado uma, a hora de presente, extra, nova, para rodar a saia e sonhar.

Depois a vida era outra. O dia era curto. Era então só o pesadelo das crianças insones e sonadas. Não dormiam porque ainda era cedo sem ser. Não queriam acordar, ainda era cedo sem ser. O corpo desregulado, sem horários, sem noção. Mas no último dia me concediam de volta a hora roubada, para dormir ou viver, como bem me aprouvesse.

E a vida mudou outra vez. Hoje foi só essa hora a mais, que não pedi e não queria. Leva de volta. Essa, e outras mais. A hora devolvida foi a errada, torta,morta. Já se foi e eu nem vi. Quero outra hora, não essa. Quero a hora onde haviam saias para rodar.

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A palavra.

Palavra. Inútil. Vazia. Despida pelo uso. Vício de verborragia.

Quando eu era menina moça, vestida de possibilidades e flores no cabelo em distonia que não era distonia (e um hábito, já vivo naqueles idos, talvez de vidas passadas de inventar sentidos novos para palavras velhas…), escrevi sobre a palavra que uma vez dita, dissesse. Continue Lendo »

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Insonia

Insonia. Insone.
O corpo pede, a mente protesta.
A mente implora. O corpo nega.

Da incapacidade de mente e corpo desejarem juntos o abandono, a rendição, o repouso. Mal dos notívagos, dos tristes, dos aflitos. A hora passa. Todos os sons se aguçam e preenchem o silêncio.

Alguém se vira na cama. O cachorro suspira. O computador geme. Um grilo distante e insistente que me lembra o de Mário Quintana a perfurar as implacaveis solidões noturnas. Terá ele encontrado o mais puro diamante perdido? Terá ele se perdido em sua loucura? O grilo… Eu. Ambos.

Insonia. Os dedos tamborilando no teclado. O livro resgatado mal folheado. A lista de interminaveis por fazer sendo gerida. O lençol amofanhado no canto. O travesseiro que chama meu nome.

Insone. Uma leve lembrança de ter sentido sono horas atrás. A dúvida que consome do e se… E se eu tivesse deitado, a despeito de tudo. E se. A despeito deitado tivesse tudo. E nada. E se.

A promessa da música que talvez amanhã seja bom pra algo. “Mamãe, Mamãe”, ecoa a voz do passado de uma memória construida, puramente emocional, “hoje já é amanhã?”. Não. Hoje é Hoje. Resto do dia que já foi. Um hoje que perdura. Dia, após dia, após dia. Só será amanhã se eu dormir. E eu não durmo. Renitente. Casmurro. Teimoso. Eu simplesmente não durmo.

Apago, ocasionalmente, quando um, corpo ou mente, perde a briga, cai ferido… apago. Mas não durmo. Insone. Insonia.

E nunca chega amanhã.

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Eu, essa casa do outro.

Eu sempre tive essa coisa de olhar, virar um pouco a cabeça e então, de súbito, pura epifania, entender. É como se o mundo fosse uma gigantesca ilusão de óptica, e fosse só uma questão de mudar a perspectiva, só um pouquinho, e tudo mudava. E era possivel alternar as imagens, entender as profundidades da percepção que o homem comum, a olho nú, sente tanta dificuldade de ver: a perspectiva alheia e a propria natureza humana.

Essa compreensão da natureza humana traçou meus primeiros rumos, depois abandonados e engavetados por contingências mil, mas nunca me abandonou. E mais, eu nunca errei. Continue Lendo »

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A segunda pele.

Papéis no mundo são construidos. Por hábito, por contingências, por resultado dessa amalgama de defeitos e qualidades… E todos temos os nossos. Eles nem sempre são o reflexo perfeito da nossa natureza, mas como segunda pele, acabam virando quem acreditamos ser.  Acabam virando nossa pele. E são esses papeis os nossos cartões de visita pro mundo, cujo feedback é sempre de “esta é você”. E completa-se o ciclo: escolhemos, conscientemente ou não como nos apresentamos ao mundo e o mundo nos envia a confirmação de quem somos, e não demora muito, quem realmente somos não está mais lá.

Não é uma máscara, é uma pele. Não é uma mentira, é um ajuste ao real. Não é um segredo, é uma memória nunca percebida e há muito perdida.  É o que aprendemos ser. Continue Lendo »

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Os dias, repletos de ondas, cronometrando o tempo de respirar.

E então as ondas ficaram mais altas. E mais frequentes. E mais famintas…

E aí, eu lembrei, de súbito, que não sabia nadar.

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As Vezes

As vezes parece que é necessário ser quem não se é para ter aquilo que uma vez se quis.

Gestos mais largos. Mais comedidos.
Palavras mais soltas. Silêncios mais frequentes.

É preciso adivinhar. Antever. Pressupor.
Não ter defeitos. Não ter história. Fazer milagres.

Anunciar todos os seus esforços. Não anunciar nenhum deles.

Estar sempre presente. Ser invisível.
Pisar em ovos. Polir cristais. Alimentar leões.

E entender que apesar de, nunca é bom o bastante. Nem quando é bom pra você.

As vezes parece que é preciso deixar de querer.

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Lembrete

Se lembre de respirar.
De olhar pra frente.
De acreditar.
Se lembre seguir adiante.
De achar coragem.
De pedir ajuda.
Se lembre de abrir mão do que quer.
De correr atrás do que precisa.
Se lembre, quando preciso, de esquecer.
Mas acima de tudo, e antes de tudo, se lembre de respirar.

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Silêncio

Vez por outra há algo dentro da gente que se quebra. Não um arranhão, ou uma pequena lasca, naturais do desgaste do tempo, mas simplesmente se quebra. Se parte em zilhões de pequenos pedaços, que não bastasse a perda, também causam seu estrago.

Nessas horas os poetas escrevem lindos versos, destilam a dor, fazem o mais bonito soneto jamais escrito, até o próximo poeta que sofre a perda. Eu? Nessas horas me perco também. Porque meu melhor é tão pouco, não basta, não sustenta, não cura, não nada.  Eu? Justamente ao contrário dos (ai que inveja) poetas, sinto as palavras indo embora, não-ditas, quebradas.

Comigo fica o silêncio. E o silêncio é outra perda em si.

-> Início do projeto 366 (com 41 dias de atraso) : http://p366.tumblr.com/

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Comentários rápidos e aleatórios sobre minhas fotografias

1 – Continuo sem noção de qualidade. Elas funcionam muito mais como lente mágica pra ver o mundo e um contar de uma história, ou seja, é mais sobre significado que sobre fotografia em si. O único feedback mais técnico que recebo é do Paulo , mas ele sempre foi too kind to be true. :P

2 – Segundo minha irmã, é possivel notar uma mudança de olhar das primeiras pras últimas. Mas sabe lá o que isso significa.

3 – Não sei se estou perdendo o jeito, ou ficando mais exigente. Antes, de cada lote, eu aproveitava a maioria. Agora eu descarto a maioria.

4 – Por outro lado, nao sei se estou ficando melhor ou mais deslexada (ou confiante). Cada vez mais a quantidade de filtros de efeito vão diminuindo. E já começam a aparecer fotos onde mesmo filtros de correção são só de leve…  Já teve foto que tudo que eu fiz foi colocar borda. Em compensação, estou abusando do crop e de correção de lente em relação ao horizonte.

5 – Babando por uma câmera semi-profissional. A máe tá baleadinha, então fica chato de vender… alguém quer comprar um filho? Aceito troca por uma Kodak EasyShare Z900…  (JUST KIDDING! OR NOT! )

6 – Se alguém quiser dar uma olhadinha, as fotos moram em THROUGH MY OLD SOUL.

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